27/08/13

Alvitre


Com texto de António Torrado e ilustrações de Maria Keil, na sua versão original, O Macaco de Rabo Cortado, um conto tradicional que nos ídos de sessenta/setenta integrava os manuais da segunda classe, agora "recuperado" pelo Plano Nacional de Leitura. Muito engraçado...


 
 

 

Cadernos de Encargos III - Saneamento


Desta vez vou ser curto e grosso.
Há uns anos atrás (talvez oito), também em período de campanha para as autárquicas, ouvi um conhecido conterrâneo comentar que, em pleno séc. XXI, um concelho sem uma cobertura de saneamento próxima dos 100%, seria um concelho do terceiro mundo. Não posso estar mais de acordo. Acrescento até que é vergonhoso em 2013 ter de incluir esta questão no meu caderno de encargos.
Ficam assim excluídos da minha opção de voto quaisquer partidos ou movimentos que não considerem este assunto como prioritário, não sendo aceites meras intenções ou referências genéricas. Obviamente que exijo a respectiva calendarização e compromisso de realização.
 

 

21/08/13

Para bom entendedor...

 
Inspirado pelo arraial do Pontal e pelos retemperadores banhos do infatigável Pedro, nas águas cálidas da Manta Rota, após umas generosas vacances decidi voltar à terra que me viu nascer, agora pejada de cartazes e de frases indecifráveis. Nota-se que, apesar de ainda gozar o direito constitucional ao descanso, a terra dos comunistas e das greves, começa lentamente a acordar para o folclore das campanhas eleitorais. Que saudades…
Viajei, descansei, li, comi, e fiz muitas outras coisas que me reservo no direito de não partilhar. Regressei a lugares de boa memória e a um Algarve que há muito não visitava. O Sotavento, que partilhei com o “nosso” Pedro, embora guardando uma aconselhável distância de segurança – uma espécie de cordão sanitário, longe das praias e da confusão, continua a oferecer lugares muito especiais, sobretudo lá para as bandas de Alcoutim ou de São Brás de Alportel.
Das esporádicas descidas ao litoral, foi com gosto que ao fim de muitos anos regressei a um pequeno restaurante junto à Ria Formosa, onde em tempos um velho com chapéu de marinheiro grelhava peixe logo à entrada, enchendo o ar com aromas divinos de sal e de mar. O velho, certamente descendente de Endovélico, deus lusitano da terra e da natureza, dera agora lugar a um rapazito de cara patusca e sorriso pronto que, com o mesmo chapéu e o no mesmo posto de trabalho, fazia sair a bom ritmo postas de cherne, sardinhas, ferreiras, salemas, espetadas de lula e muitas outras autênticas delicias do mar.
A principio desconfiei. Enquanto mastigava uma garfada de salada de tomate e orégãos, temperada com alma, perguntei a uma das empregadas pelo velho, e pelo novo – Então e moço, desenrasca-se?
O velho, fiquei a saber, está vivo e de boa saúde. Reformou-se ao fim de muitos e bons anos de verdadeiro serviço à comunidade, dando lugar aos mais novos. Por vezes ainda lá passa, transmitindo saber e simpatia. Já quanto ao novo, ouvi o comentário da colega e guardei a prova final para mim. Toda a desconfiança inicial se desvaneceu à primeira garfada de peixe assado no ponto. Suculento, fumado, saboroso. De pronto contrariei o instinto e atribui o bom trabalho do moço à qualidade e frescura do peixe e aos ensinamentos do mestre – Hum… há aqui dedo do velho!... De certeza!
Volvidos longos minutos de puro prazer e já aconchegado pelo café expresso e pela estimulante aguardente de medronho com que finalizei o repasto, dei por mim a palmilhar a calçada em ritmo de passeio, junto à ria, discutindo com os meus botões que se mostravam algo agastados com a minha postura – Então e moço, não tem nenhum mérito? – Anui. Afinal de contas se o velho com chapéu de marinheiro nunca tivesse começado, nunca teria tido oportunidade de fazer o que tão bem foi fazendo ao longo da vida.
É bem certo, a experiência resolve-se com o tempo. Já quanto ao bom senso, é mais complicado - “burro velho não aprende línguas”.

26/07/13

Pequenos gestos

A pôr a escrita em dia, no blog de amigo destas andanças, dei de caras com uma declaração pública de amor que não consigo ignorar. De um pai para uma filha.
Pela forma corajosa como foi escrita e por todo o dramatismo que encerra, fez-me sentir que a dimensão do amor é um traço dos Homens corajosos, que a dimensão dos dramas pessoais nos faz relativizar os nossos próprios “dramas”, e que nada nos deverá desviar do essencial. Não sei se teria a coragem de me desnudar e de revelar aquele turbilhão de sentimentos e de “fragilidades”. Por isso relevo a sua atitude que me tocou profundamente. Pela dignidade com que o fez.
É por isso que tenho a certeza que a filha do meu amigo estará extremamente orgulhosa do pai, e que sentirá ter recebido a melhor prenda que ele alguma vez lhe poderia dar – o seu amor incondicional.
A compreensão destes pequenos gestos não cabe nos memorandos de entendimento, nem nas crises da coligação, nem nas trapalhadas do sr. presidente, nem na insensatez das máquinas partidárias. Mas devia. Pois é sempre a vida das pessoas que está em causa. Pessoas de carne e osso, que amam, que riem, que choram, que sofrem com a incerteza dos dias.
Embora não possa partilhar com esse amigo a vivência da paternidade, partilho a solidariedade do momento com um forte abraço (mesmo que virtual), e a emoção incontida do amor que tudo alcança, que tudo vence. Mesmo naqueles momentos em que a vida nos parece escorrer por entre os dedos. Coragem, em frente é que é o caminho!
 

11/07/13

O Estado da Nação – um governo, uma maioria, um presidente e vinho à discrição…

 
Tentar manter a higiene mental nos dias que correm, é talvez o maior exercício de cidadania a que nos podiam sujeitar. Por isso tenho tentado condicionar os impulsos de repulsa e de nojo que me têm revirado as entranhas. Verbalizar, ou neste caso, escrever o que me vai nos neurónios por estes dias, seria, para além de tarefa inglória, um desaconselhável exercício de esquizofrenia e de incapacidade de utilização de linguagem pejorativa severa. Expressões como #%&$£?  #$  &§@% ou mesmo &  €@§@%&  #%$  &#  %&@£, seriam brandas e até eventualmente elogiosas para certos finórios encastados.
A crise, transversal e patológica, não é económica, nem política, nem de valores, nem de confiança, nem endémica. É isso tudo e muito mais. É uma espécie de ácido incolor e inodoro que vai corroendo de forma permanente e eficaz tudo e todos – pessoas, instituições, estados, nações.
A espiral de terror e de espanto deslocalizou-se do grande ecrã para o cenário real, em que todos participamos como actores e como figurantes. E quando se pensa que o pior já passou, abre-se uma nova porta ou uma nova janela, a partir da qual somos projectados para um cenário de conteúdo terrífico incomensuravelmente superior ao cenário anterior, em crescendo. Dantesco! As imagens, os cheiros e os sons podem assumir sempre novas formas de decomposição e de putrefacção quem nunca imaginámos existirem. Descer aos infernos não se fica pelo piso -623, o último a que o elevador desce, ainda há uma frágil escadinha de tubo galvanizado, serpenteando em caracol, que se perde na escuridão do buraco.
Sá Carneiro tinha sonhado um projecto político para Portugal, que passaria pelo domínio absoluto do poder político e legislativo, através do controlo dos órgãos de soberania sujeitos a sufrágio universal e directo - um governo, uma maioria e um presidente – os quais permitiriam, como corolário, a “estabilidade política” necessárias à plena aplicação da social-democracia. Nunca lhe ocorreu porém que a equação original contivesse uma quantidade tão grande de variáveis incontroláveis, quer de carácter endógeno quer exógeno. Só que nestas coisas das ciências humanas não há simuladores, laboratórios de experimentação ou aplicação em escala reduzida. Prognósticos só mesmo no fim do jogo e a realidade actual demonstra à saciedade que a bondade que se presume para um modelo perfeito é em si mesma o maior motivo para a sua própria perversão. A falta de mecanismos de controlo eficaz e eficiente dão o empurrão e a falta de consciência crítica (vulgo “vergonha na cara”) fazem o resto. Pior do que não se saber para onde ir, é não ter consciência disso.
Penso que o estado a que chegámos, muito próximo do ponto de ebulição e de não retorno, merece muito mais do que indignação, merece uma acção individual de intransigência, manifestada colectivamente de forma destemida e intrépida. Neste momento deveríamos estar todos na rua a exigir a demissão do governo, a dissolução da assembleia da república e a aposentação compulsiva do decrépito Silva.
O que se passou ontem ao serão com a conversa em família, do pai Silva para os filhos da nação, foi o maior exercício de afirmação e do seu contrário a que já alguma vez assisti em vida. Em vida sim, porque me cheguei convencer que tinha finado e que aguardava nervoso na sala de espera do consultório do capeta, na presença de companhia pouco aconselhável.
Tudo porque o Sr. Silva, ainda não tendo tomado plena consciência da sua falta de dimensão politica e da sua insignificância enquanto Homem de Estado, decidiu inscrever à força o seu nome no mais bizarro compendio da nossa história colectiva, subvertendo a magistratura de influência num estranho caldo de peixe com ossos de calção e caril, usurpando funções de juiz desembargador e continuando a aumentar a farta lista de heterónimos que criou ao longo de todos este anos em que, por esquecimento, foi político profissional (O Batatinha, O Banana, O Casca de Banana, O Tabu, O Devoto, O Biqueiro, O Homem do Leme, o Avô Cantigas, etc, etc, etc…).
Quando o mais alto magistrado da nação acha que o exercício da democracia participativa e o respeito pela constituição e pelo seu espírito provocam tensão pós-mestrual nos mercados, estamos conversados. Aliás, o Sr. Silva tem tanta dificuldade em compreender a realidade que, só para esbardalhar, conseguiu fazer o pleno: enervar as casas de apostas, juntar esquerda e direita num “ahhhh!” de espanto, fazer a irrevogabilidade de decisão de Portas parecer uma simples birra de puberdade e provocar o riso cínico aos agiotas de serviço e à concubina Gaspar. Só não conseguiu uma coisa básica dos manuais de decência, provocar a demissão do primeiro-ministro mais idiota que o país alguma vez suportou.
Mas façamos um simples exercício de hiprocrisia e admitamos por segundos que as propostas do chefe Silva são bondosas. Apliquemos pois o teste do algodão – faz aos outros aquilo que admites para ti próprio. Estão a imaginar o fulano como primeiro-ministro a aceitar semelhantes propostas de um qualquer chefe de estado, não estão? O algodão não engana…
É por tu isto que hoje fica muito mais claro porque que é que o ministério público decidiu não levar Sousa Tavares a tribunal, por suposta ofensa ao inquilino de Belém.
O ar está viciado e saturado. As concentrações de vapores etílicos são tão altas que já não se consegue respirar. Deixem o país arejar por favor – ELEIÇÕES, JÁ!
 

08/07/13

Alvitre



 
A fábrica Escola Irmãos Stephens foi instalada na Marinha Grande, em 1769, por dois irmãos ingleses, Guilherme e Diogo Stephens. A Marinha Grande cresceu com a fábrica. Os cristais tornaram-se conhecidos em Portugal e no mundo. Os Stephens empregaram gerações e contribuiram para a educação da população. Em 1826, a fábrica é doada ao estado português e por mais de século e meio esteve nas mãos dos poderes políticos. Sobreviveu a várias crises, passou por vários tipos de gestão mas acabou por fechar portas em 1992 atirando cerca de 400 pessoas para o desemprego.
 
 (SIC)

01/07/13

Mas o que é que eles querem pá?



Têm uma taxa de desemprego que é quase metade da nossa. Têm uma economia que não está em recessão. Têm um território belo e riquíssimo. Têm petróleo. Têm belas praias. Têm samba. Têm carnaval. Têm mulheres fantásticas. Têm caipirinha. Têm magníficos poetas. Têm fabulosos músicos. Têm o melhor futebol do mundo. Têm uma selecção campeã. Mas o que raio é que estes gajos querem mais? Lutar pelo direito à saúde e à  educação? Lutar contra a corrupção? Esqueçam manos, papai noel não existe mais.
O Sr. Silva é que tem razão – apesar de tudo, somos um povo socialmente coeso. Socialmente submisso. Uma carneirada. Porque já não acreditamos no pai natal, nem no futuro, e adoramos carregar na vaselina. Ai aguenta, aguenta!...
Quem me dera que soprasse de lá uma brisa.
 
lá faz primavera pá
cá estou doente
manda urgentemente
algum cheirinho de alecrim
 

25/06/13

O fim do complexo de Édipo


 


Encavalitado numa espessa nuvem de fumo de SO2, NO2 e NOx, vomitada para a atmosfera pela chaminé duma moderna vidreira de embalagem, a uns bons cento e vinte metros de altura, Édipo olhou uma última vez para baixo, procurando na terra dos comunistas, insaciáveis marxistas-leninistas a perseguirem deliciosas criancinhas, suculentas, tostadinhas - sim, que os comunistas pela manhã têm um apetite voraz e uma tumescência de micção que dá má fama à terra. Aliás, não fora o 18 de Janeiro e a terra até poderia ter sido o lugar escolhido para o 13 de Maio, ou não fora o Marquês de Pombal e os fleumáticos irmãos Catita, e a terra até poderia ter sido a capital do móvel de pinho ou do caracol à Bulhão Pato.
Porém, não alcançando à vista desarmada qualquer ogre vermelho, Édipo decidiu cumprir a lenda e partiu para matar o pai e casar com a mãe dando assim o mote, para Freud formular um famoso complexo que baptizou com o seu nome, e para o diácono Remédios escrever uma rançosa crónica de pasquim provinciano, em que decretou o fim do complexo, mas da canhota.
Felizmente que, para todos nós, filhos, enteados ou meros habitantes da “terra” (como alguns primatas curiosamente lhe chamam), as garrafarias investiram a tempo e modernizaram-se, os tempos foram rodando, o conceito purificando e as pessoas evoluindo. Não fora isso e ainda hoje seríamos conhecidos pela “terra do vidro e dos comunistas”, o que não auguraria nada de bom para as próximas autárquicas. Nem para a indústria de moldes em particular. Sabiam que, sobretudo no estrageiro, já se começa a ouvir dizer que a Marinha Grande é a terra dos moldes? Caramba pá, mais do que nunca é preciso mandar descansar os ogres vermelhos e o capuchinho rosa. O que é preciso é uma nova via de unidade na acção. Ponto!
Eu sei que a prosa hoje está um pouco desconexa e até capaz de causar alguns episódicos fenómenos de dislexia. É que o edipiano sentimento de amor-ódio que me inspirou, toldou-me a moleirinha e saiu isto. Felizmente que não tenho grandes responsabilidades e que o Conto do Vigário é de pequena tiragem. Livra!...
Adeus Édipo. Adeus esquerda. Adeus capital do vidro.
 

14/06/13

Santos da casa

 
Ao contrário do que é habitual, hoje Lurdes Rata estava de bom humor, quase eufórica. Enquanto limpava o pó a bom ritmo, trauteava a compasso uma marcha com letra bizarra – “lá vai o povo cantando e rindo / de braço dado com a alegria / não temos pão mas temos vinho / para animar o nosso dia“ – lembrei-me logo d’o Botas e da famigerada frase “beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”. Senti náuseas…
- O que é que se passa contigo, Lurdes?
- Logo à noite vou marchar! – respondeu prontamente com um sorriso tão largo que deixava a descoberto o espaço vazio que em tempos fora preenchido pelos molares.
- Como assim? – questionei.
- Não me diga que não sabe que hoje começam as marchas populares!? Não vai ver?
- Cruzes canhoto!
- Porquê? – perguntou indignada.
- Sabes Lurdes, sou um acérrimo defensor das tradições e da preservação dos usos e costumes. A cultura popular é um dos bens mais preciosos que podemos possuir e, tal como qualquer tesouro que se recebe, deve ser cuidado para que não se perca, por respeito a quem no-lo legou, mas também por respeito às gerações vindouras. Mas diz-me lá Lurdes, o que é que essa coisa das marchas populares tem a ver com a nossa Marinha Grande? Desde quando é que os Santos Populares são uma tradição na nossa terra? Sabes o que é que me custa, sabes? O que me custa é olhar para esta cidade e perceber que cada dia que passa aquilo que era genuinamente nosso se vai perdendo, esfumando na espuma dos dias, sem que ninguém pareça importar-se muito com isso. Tudo o que tem a ver com a cultura vidreira, com o pinhal, com o património industrial, com a nossa identidade, está a transformar-se numa quimera, numa vaga memória, e as memórias apagam-se ao ritmo do ciclo da vida. Os teus filhos sabem o que é um mestre vidreiro? Um lapidário? Um pintor? Os teus filhos já ouviram falar em colher, fechar o molde, levar acima, roçar? Os teus filhos sabem o que é o bojo ou a marisa? Alguma vez explicaste aos teu miúdos o significado de apanhar a espiga? Eles sabem o que é o penisco? Alguma vez se lambuzaram com um bolo de pinhão? Os teus filhos alguma vez olharam para uma bicicleta como um meio de transporte? – as palavras saiam-me de jorro, quase me impedindo de respirar – Alguma vez lhes contaste que o avô deles, e o bisavô deles, e o avô do bisavô, faziam nascer obras de arte de uma bola incandescente? Quantas vezes é que já fizeste uma sopa do vidreiro para a janta dos garotos? E quantas vezes é que já foste com eles ao Mac Donald’s? Vá, diz-me!?
Lurdes olhou-me de alto a baixo e retorquiu – Você passou-se. Enfim. O que me interessa é que hoje à noite vou marchar mais os meus garotos, no estádio. Essa é que é essa!
Senti-me angustiado. Dei meia volta e fui ver do rafeiro que no patim destruía o terceiro vaso de buganvílias numa semana. Há muito que tinha esta espinha entalada na garganta. Não resolvi nada, mas pelo menos desabafei. Sou mesmo vacão - a espinha continua atravessada. Inadvertidamente deixei que duas grossas lágrimas rolassem. O rafeiro lambeu-as, despreocupado.
 

05/06/13

Os ratos do sistema

Li ontem na imprensa que o Barómetro Eldeman Trust indica que a “banca é o sector que inspira menos confiança em Portugal”.
O mesmo estudo revela ainda que “o valor geral da confiança nas instituições governamentais desacelerou no país”.
Recordei de imediato uma entrevista que José Gomes Ferreira fez ao Presidente do Instituto de Gestão do Crédito Público, João Moreira Rato, que vi há pouco tempo na SIC Notícias.
Confesso que em determinados momentos senti a vergonha que o entrevistado não sentiu, apesar do embaraço evidente que foi tentando disfarçar.
O excerto que se segue é apenas um bom exemplo da forma como a banca “elimina a concorrência” através da acção do próprio Estado, colocando nos centros de poder os seus representantes, de forma absolutamente despudorada, com a conivência dos eleitos.
Penso que vale a pena ver o vídeo e ler o currículo do jovem entrevistado. As conclusões finais ficam para a caixa de comentários, se vos aprouver. Sem acanhamentos.

24/05/13

Caderno de Encargos II - H2O

 
Se eu fosse erudito começaria por invocar Sócrates* – só sei que nada sei. Mas como sou apenas atrevido, invoco Anibal Silva** - raramente me engano e nunca tenho dúvidas. Isto sou eu a reinar, claro está.
O assunto é sério e delicado, mas para mim está e estará na ordem dia, no que respeita às prioridades imediatas e de sustentabilidade a médio/longo prazo – a água.
A questão da água será para mim central nas próximas eleições autárquicas, ficando assim excluídos da minha opção de voto quaisquer partidos ou movimentos que não tenham sobre o tema uma posição clara e inequívoca, uma estratégia com pés e cabeça e a não considerem como uma prioridade.
Felizmente que até hoje, salvo casos pontuais, a sede do concelho não tem tido grandes problemas, quer quanto à qualidade, quer quanto ao abastecimento. Porém, se nada for feito corremos o sério risco de arranjar uma carga de trabalhos.
Por uma questão de princípio sou contra a privatização dos sistemas de abastecimento de água e da sua gestão. A absoluta importância deste elemento para a nossa existência e qualidade de vida, a sua escassez em termos de qualidade e de quantidade, a necessidade imperiosa do seu controlo e gestão, quer em termos qualitativos quer em termos quantitativos, são para mim motivos mais do que suficientes para considerar que a sua tutela deverá manter-se na esfera pública, com o que tudo isso implica de vantajoso (naturalmente exigindo-se da gestão da coisa pública critérios de rigor, racionalidade e parcimónia que, por definição, lhe deverão estar subjacentes). A água, enquanto elemento básico de sobrevivência, nunca poderá ser tratada como uma qualquer mercadoria, não podendo a sua gestão subordinar-se unicamente aos princípios do mercado cuja “livre concorrência” bem conhecemos de outras andanças (GALP, EDP, etc).
Feita esta declaração de princípios, reconheço que a resolução do problema não é fácil, sobretudo porque um sistema de abastecimento adequado às necessidades actuais e futuras de todo o concelho, racional e sustentável, implica grandes investimentos e dinheiro é coisa que também não abunda. Daí que me pareça que o assunto deva ser tratado com pinças, mas também com determinação, seriedade e criatividade.
É claro que o recurso ao fornecimento via Águas de Portugal poderá ser uma solução a encarar, se bem que na minha opinião de leigo poderá representar num futuro próximo a dependência em relação ao sector privado (não é preciso ser bruxo para adivinhar que o mais certo é a privatização a breve prazo daquela empresa pública). Por outro lado, sabendo-se como se sabe que o concelho dispõe de importantes reservas subterrâneas, seria um desperdício não rentabilizar a favor de todos, um recurso natural estratégico de que dispomos, ao contrário de outros que não têm sequer essa opção à partida.
Gostaria contudo de saber muito mais sobre a matéria e de conhecer todas as soluções técnicas disponíveis, incluindo as de natureza financeira, que permitiriam a concretização dos investimentos necessários para encarar-mos o futuro com confiança, já que quanto à decisão política, em primeira instância, é minha, através do meu voto. E disso não abdico!
 
 
* filosofo grego do séc. IV AC (não confundir com o bolseiro de Paris e delegado de propaganda médica, nosso contemporâneo).
** ficou conhecido por ter sido o primeiro homem a ter feito uma orquiectomia preventiva (remoção cirúrgica dos tintins), de forma a justificar a falta de coragem política (chamemos-lhe assim). Face à idade avançada o caso teve pouco impacto mediático, quando comparado com outros casos em que a cirurgia preventiva resultou de efectivos actos de coragem.

23/05/13

Cento e uma

 
Esta semana foi notícia a publicação na revista Forbes de mais uma das suas habituais listas sobre as 100 mulheres mais poderosas do mundo.
Habituado que estou a viver no meu micro-cosmos, confesso que estas listas me deixam invariavelmente desconfiado e de pé atrás.
Obviamente que a revista Forbes não conhece, nem a Lurdes Rata, cuja única razão de existir é chagar-me o juízo, nem a Senhora de Fátima que caucionou a 7ª aparição da troika, segundo informação do marido da Sra. D. Maria Cavaco.
Contudo, já tenho mais dificuldade em entender porque é que a revista Forbes não fez incluir na sua lista, em lugar de destaque, a senhora que comanda a tropas cá do burgo e que, às cavalitas do alcaide tirado à sorte, lá se prepara para concluir o mandato, antes de se dedicar por definitivo à venda de cosméticos por catálogo.
É urgente que a Forbes reveja os seus critérios, sob pena de eu continuar a desconfiar da sua boa-fé e de quando em vez ser mauzinho.
 

07/05/13

ALELUIA


 



 

"A Câmara da Marinha Grande e o Estado assinaram um acordo de permuta de terrenos que vai permitir alargar a Zona Industrial de Casal da Lebre, uma reivindicação que dura há uma década, informou hoje a autarquia.
O acordo prevê a entrega por parte do Estado de uma parcela de terreno de 13,69 hectares localizado na Mata Nacional do Casal da Lebre, bem como dos imóveis onde funcionava a antiga Fábrica de Vidros J. Ferreira Custódio.
A autarquia, por sua vez, comprometeu-se a entregar parcelas de terreno com uma área de 53,48 hectares, situadas no Pinhal do Concelho/Pinhal da Boa Esperança, bem como uma quantia de 339 mil euros em dinheiro."
 


 
Não posso deixar de sublinhar o tempo que demorou a concretizar (?) este processo e o seu custo, com o estado a cobrar ao próprio estado.
Escrevi “estado” com letra minúscula propositadamente.
E para o Atrium, quantos anos ainda faltarão?

 

26/04/13

O papão

 
O dia amanheceu fresco e com uma borrasca molha-tolos que desaconselhava a habitual caminhada.
Mesmo assim ignorei os avisos da mãe natureza e iniciei o percurso habitual – Casal da Fomiga, Luzeirão, Parque da Cerca, Parque Mártires do Colonialismo, Praça Stephens e regresso ao Casal da Formiga via Rua Marquês de Pombal, em tempos uma importante artéria que hoje não passa de uma variz em estado pré-ulceroso.
Os primeiros três quartos da viagem correram sem qualquer sobressalto de maior. Na rua o movimento ainda era reduzido e a cidade acordava lentamente de mais um longo dia de comemorações que começara como habitualmente na noite de 24 para 25 – bombos, cantigas de Abril, poemas e papagaios, nas varandas, pois que o vento não estava de feição para ensaiar qualquer ascensão aos céus.
Passei em frente aos Bombeiros e caminhei junto ao tapume das obras da Resinagem, procurando ignorar o mastodonte que agora se ergue nas cavalitas do novo Cinema Paraíso, apenas desejando que o bom senso ao menos lhe reserve uma utilização digna e criteriosa. Enfim…
Chegado à Praça Stephens virei à direita em direcção à Marquês de Pombal e dei de caras com uma fotografia de grandes dimensões do Comendador Martins, nas instalações da antiga papelaria do primo. “Foscasse piguga!” – pensei eu, não contendo uma pequena gargalhada em resultado de tão inesperada aparição. Não é que não faça sentido a presença do comendador na praça do município, já que a sua influência sempre foi notória em certos círculos mais iluminados dos Passos do Concelho, e a sua presença era vulgar em saraus culturais e recreativos que se desenrolavam no clube do outro lado da rua. O que me despertou os sentidos foi o sorriso irónico e desafiador do seu olhar e o esgar de notório revanchismo que se lia nos seus lábios. Por segundos imaginei o Presidente Pereira a entrar e a sair do escritório que por enquanto vai ocupando, evitando um encontro de olhares com o retrato do comendador, preferido perscrutar o céu em busca de papagaios de cores vivas e dimensões variadas, enquanto se afasta apressadamente da antiga papelaria.
O Comendador Martins não é nenhum fantasma que paira sobre a Praça Stephens, é um pesadelo que ecoa no sótão escuro e húmido da vivenda rosa da Rua 25 de Abril, atormentando o soninho descansado dos nefelibatas residentes que pensavam que eram tudo favas contadas. Enganaram-se outra vez, porque a política também tem destas coisas que normalmente se servem como as saladas, frias…
 

24/04/13

Santo e Senha

 
Na vertigem dos problemas e das contrariedades, tendemos a esquecer as reais diferenças entre o antes e o depois, entre a mordaça da ditadura e a puberdade da democracia. Desenganem-se os vendedores de banha da cobra, os falsos profetas da antipolítica, os toxico-independentes e os degenerados da cidadania dos direitos, Portugal não é o mesmo de há 38 anos atrás e ponto final!
Temos muitos problemas para resolver? Sem dúvida! Abril é um projecto inacabado? Absolutamente! O sistema democrático necessita de se regenerar? Urgentemente! A classe política é fraca? Muito. E ainda assim preferimos a democracia? SEMPRE! E os partidos? Obviamente. Mas ser cidadão é apenas votar e manifestar vontades e críticas? NÃO! Ser cidadão é ter palavra, escolha, participar na construção da democracia, dar cara e tempo às associações, aos clubes, aos grupos de intervenção, aos partidos, aos outros. Ser cidadão é escolher um caminho consciente e trilhá-lo. É não ter razões absolutas, é acreditar que é possível resolver os problemas, é ter bom senso, é credibilizar e acreditar no Estado, é aceitar a vontade da maioria, é respeitar as minorias, é ser solidário, é não ser nada para se ser tudo.
E é por isso que devemos denunciar o falso medo, a falsa crítica, os falsos caçadores de fantasmas, os falsos independentes, os falsos detentores da verdade, os bufos, os hipócritas, os merdosos que se escondem nos blogues e nas redes sociais para golpearem a democracia sob o diáfano manto do puritanismo populista, sob a falsa capa de um contrapoder sem regras. Pois não há pior cancro para a democracia do que o poder político se deixar manietar e submeter mansamente pelo escrutínio dos que sem rosto chafurdam na lama que eles próprios proclamam combater, mas cujo caudal todos os dias engrossam. Dar importância a quem não a tem ou credibilidade a quem não a merece, é desprezar a legitimidade democrática e subalternizar e descaracterizar as instituições, um caminho perigoso e sem retorno.
Celebrar Abril é por isso respeitar a liberdade usando-a com o critério e a consciência que se empresta todos os dias a uma delicada flor que se cuida e que se ama.
VIVA A LIBERDADE!
 

19/04/13

A má moeda (remaque)

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Esta semana Pedro Manuel Mamede Passos Coelho e António José Martins Seguro arrulharam em S. Bento, sem contudo terem acasalado. Pelo menos que se saiba. O encontro ficou-se pelos preliminares, tendo em vista uma posterior sessão terapêutica de ménage a quatro com a troika, a qual se pretendia fluída e lubrificada.
Horas mais tarde, de viva voz e evidenciado profundos traços de insatisfação sulcados na face pálida e enrugada, trabalho digno de um vencedor do Óscar para a melhor caracterização, António José veio comunicar em tom monocórdico e sumido que não havia novidade e que a quadrilha (Pedro + troika) tinha desiludido. Desta vez nem para simular o clímax a coisa tinha dado.
Lembrei-me então do artigo que o Sr. Silva escreveu em 2004, quando a propósito do outro Pedro, o Miguel de Santana Lopes, estabeleceu um paralelo entre a Lei de Gresham e a expulsão de bons políticos por maus políticos, verdade insofismável da qual o próprio Silva é corolário.
Mas não me lembrei da má moeda apenas pela fraquíssima qualidade dos actuais intervenientes, lembrei-me da má moeda porque Pedro Manuel Mamede Passos Coelho e António José Martins Seguro ensaiaram esta semana, para português ver, a entrada de uma nova moeda em cujo valor facial nem eles próprios acreditam, apesar do cunho ter nela gravado as suas próprias efígies, uma em cada face. Pedro e António que se encontraram para supostamente estabelecerem pontos de convergência, nos quais não acreditam, são as cara e coroa duma mesma moeda que garante (e garantirá) à troika, presencialmente ou através de carta de conforto, que a carneirada continuará a suportar taxas internas de rentabilidade de 10% às PPP’s e juros de usura aos mercados, enquanto a "via dos impostos" passa a ser substituída sub-repticiamente pela "via da redução da despesa", forma manhosa e capciosa de cortar naquilo que são as mais nobres funções do Estado – a saúde, a educação e a segurança social, obrigando de novo os mesmos a pagarem.
Reconheço, em abono da verdade, que Pedro e António são ideologicamente diferentes. Contudo, não estando nenhum deles crente num entendimento político a curto prazo, e estando liminarmente afastada qualquer possibilidade de prazer na relação, porque será que se prestam a estes encontros inconsequentes? É que se for só para marcar na agenda que se reuniram, mais valia irem ao cinema ou a um baile e aí sim, talvez até pintasse um clima entre os dois. Quem sabe…

16/04/13

Maleitas

O
- Então doutor, acha que é grave?
- O senhor tem estado em contacto com relvas?
- Porquê doutor?
- É que o senhor está com a doença da moda: falta de força anímica.
- E tem cura?
- Há paliativos, um conselho de administração de uma grande empresa, daquelas que têm muitos negócios com o Estado.
- Mas cura mesmo, não há?
- Há, mas é um processo muito doloroso.
- Intervenção cirúrgica?
- Não. Repetir a quarta classe dos adultos e tirar o “Dr” dos cheques antes do nome do titular da conta.
- Foscasse, mas isso é desumano doutor!
- Senhor Relaxoterapeuta, eu disse que o processo era muito doloroso.
- Então por favor prescreva-me um paliativo.
- Ok. Também precisa de vaselina? É que já está a decorrer a entrega do IRS…
- Ainda tenho alguma. Comprei uma lata de cinco quilos quando assinaram o memorando com a troika.

 

04/04/13

Dia-lugar

 
Com a delicadeza habitual, Lurdes Rata passou propositadamente com a esfregona impregnada de água e detergente por cima dos meus pés, deixando sapatos e calças molhados e um rasto a lavanda e lixívia.
- Levante lá as patinhas se faz favor que eu quero lavar o chão.
- Porra Lurdes, já não se pode ler sossegado nesta casa?
- Cale-se bem caladinho que a mim paga-me é para trabalhar. Tenho de me despachar que é quase meio-dia e tenho de ir dar o almoço aos garotos. E o que é que o varrão está a ler tão entretido? Deve ser de gajas nuas e poucas vergonhas, não é?
Ignorei a afronta e respondi ajeitando os óculos na ponta do nariz:
- Estou a reler o Sermão de Santo António aos Peixes, do António Vieira.
- Ah, o gajo do Benfica. Estes homens só vêem bola à frente, chiça.
- Padre António Vieira, santa ignorância.
- Ah ele agora é padre? Pois o do Porto é papa.
- Enfim, é o país que temos… - respondi enfastiado.
- Oiça cá, está para aí com merdas, o que é que esse Vieira diz a mais do que eu?
- Queres mesmo que te leia um bocadinho para perceberes a diferença entre um pensador do século XVII e uma mulher a dias do século XXI, queres? – respondi irritado.
Lurdes Rata empertigou-se e apoiando as mãos e o queixo no cabo da esfregona tomou pose ouvinte atento.
- Sou toda ouvidos, senhor doutor da mula russa.
Coloquei a voz e comecei a leitura, imaginando-me também a pregar aos peixes.
- Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut pisces invicem se devorantes: «Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros.» Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.
Aproveitando a minha pausa para respirar, Lurdes Rata interrompeu a leitura levantando a mão direita acima do ombro.
- Alto e para o baile! P’ra mim tá bom! P’ra mim tá bom! Chega de converseta lá do século não sei quantos. Vá-se lá quilhar mais esse Vieira e os peixes que eu tenho muito que fazer.
- Não percebeste patavina, pois não Lurdes?
- E era para perceber?
 

24/03/13

Doutores de Passareira*


Ao anúncio de regresso à RTP do estrangeirado Sócrates, num espaço de “comentário político” para optimizar audiências e exponenciar os engulhos ao anémico Seguro, respondeu de pronto uma legião de virgens ofendidas, com pateada, gritinhos pré-adolescentes e petições on e off line.
Se o problema é o da legitimidade de uma estação de serviço público dar tempo de antena a asnos e a coveiros atrevidos, então as virgens têm de calibrar o ponto de mira, pois não consta que em relação a outros mamíferos do mesmo quilate a protagonizarem semelhante papel, tenham usado do mesmo critério. Aliás, o serviço público está para a RTP como o Relvas para a política – pura ficção.
É-me por isso perfeitamente indiferente que Sócrates rinche uma vez por semana com dia e hora marcados, ao vivo e a cores, porque até ver cá em casa o comando da tv ainda obedece à minha vontade. Tal como acontece com o embargo que decretei aos pasquins de jornalistas imbecis e de opinantes de sarjeta, levam todos o mesmo tratamento – cá por mim os palermas ficam a falar sozinhos.

 
* passareira - aviário (tradução para os mais perguiçosos)
 

22/03/13

Agarrem-me senão eu bato-lhe!

 
Ao contrário do que seria de esperar, e não deixa de ser paradigmático dos tempos que vivemos, as últimas sondagens demonstram à saciedade que a oposição, sobretudo a do “arco do poder”, continua sem capitalizar a seu favor o descontentamento colectivo pelo estado calamitoso a que o nosso país chegou.
As respostas a este paradigma são diversas e encontram fortes razões em fenómenos sociológicos e políticos de natureza vária.
A uma cultura cívica de reduzida exigência em relação aos políticos e às instituições, de insipiente contestação popular, de reduzida expressão e participação eleitoral e política da esmagadora maioria da sociedade civil, poderemos juntar realidades tão simples e evidentes como a falta de entendimentos à esquerda, a cumplicidade de todos (embora em graus diferenciados) no estado da nação, a falta de classe das lideranças políticas, a teia de cumplicidades entre o estado e a economia pseudo-liberal, e por aí adiante.
Há contudo para mim uma causa que se sobrepõe a todas as outras e mede-se em quilogramas, ou fracção desta objectiva unidade de medida. Refiro-me obviamente ao tamanho (peso) dos tomates.
É claro que a decisão de apresentação de uma moção de censura, que o emérito Seguro fez ontem aprovar em conclave extraordinário, se destina mais à ovação interna do que ao legítimo e urgente exercício de uma alternativa de esperança. É fácil trocar palmadinhas nos Costas por gestos inconsequentes e redundantes, face há realidade nua e crua de um hemiciclo que maioritariamente defende um governo incompetente, que vê no Estado um papel meramente assistencialista e de pseudo-regulação. Porque se o emérito realmente tivesse vontade (e capacidade) para mudar o estado das coisas, exporia toda artilharia em cima da banca e indicaria de forma clarividente o que faria de modo diferente, para além das intenções genéricas de “negociação com a troika” e de “adopção de medidas para o crescimento” que vai apregoando com olhar vago e mortíço. Mas quais e como? Qual a estratégia? Aliás, a tibieza é tal que à complexidade da pergunta - “E promoveria a descida dos impostos?” - Seguro responde com clareza sintomática - “Não me comprometo”.
E no fim de tudo isto perguntar-me-ão: mas Seguro é papável? Obviamente que sim, em função da posição anedoticamente incontestada que ocupa no seu partido e da benção que os Espírito Santo e toda a nação de anjos e arcanjos calmamente instalados na banca celestial lhe parecem reservar, face às investidas brincalhonas dos Costas. Mas claramente que não, em função da falta de qualidades políticas que demonstra e da exígua falta de peso da fruta. As sondagens demonstram-no de forma evidente. Seguro não é papável porque este tipo de produtos são facilmente perecíveis e por isso mesmo de curtíssimo prazo de validade.
Mas duma coisa estou certo, embora a validação dessa convicção esbarre na impossibilidade de o provar. Se a moção de censura tivesse consequências traduzidas na queda do governo, Seguro jamais a apresentaria. É por isso que eu estou farto de líderes com tomates cherry.
 
 

13/03/13

Caderno de Encargos I - Exemplo Prático...


… do que não se deve fazer.

 
O caso dos Cheques-Bebé

A medida pode ser boa, desde que faça sentido. Atribuir incentivos à natalidade é uma forma de tentar inverter um problema gravíssimo -o envelhecimento da população. Mas a medida pode também constituir-se como uma forma de apoio social, desde que prestada a famílias que manifestamente apresentem carências económicas. Atente-se contudo ao argumentário do actual presidente da câmara e proto-candidato do PS às próximas eleições (logo no início do vídeo).
 


 



“Apesar do Concelho ser um concelho jovem, tanto no seu nascimento como da população activa, nós necessitamos de mais pessoas aqui a residir. Com o boom da construção ficaram muitas casas para vender e é uma medida de atractibilidade para todos aqueles que nos queiram escolher como local de sua residência.”

Afinal o estímulo à procriação municipalmente assistida, destina-se a promover a venda de imóveis, em português desleixado. O nascimento de bebés em barda assume assim uma forma meramente instrumental, para escoar produto em stock, funcionando como chamariz para casais em idade fértil.
Alguns dirão que por certo o que o senhor disse não era o que queria dizer. Concedo-lhe o benefício da dúvida. Tanto mais que ele tem interesses no comércio dos inibidores de fertilidade. Resta saber se as margens do leite em pó e das tetinas são inferiores ou superiores.


12/03/13

Caderno de Encargos I


- Pode dizer-me por favor que caminho devo seguir para sair daqui?
- Isso depende muito para onde queira ir - disse o Gato.
- Não me importo muito para onde vou - respondeu Alice.
- Então qualquer caminho serve - retorquiu o Gato.
.
(diálogo retirado do livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol)
  
NOTA PRÉVIA
Obviamente que conteúdo e forma constituem um todo indissociável para efeitos de valoração do projecto ao qual atribuirei o meu voto nas próximas eleições autárquicas. Quero contudo deixar claro que não tenho qualquer reserva mental relativamente à forma de organização que corporize os diferentes projectos “a concurso”. Mas, esclareço também, que será liminarmente desqualificada qualquer forma de organização que não se assuma de cariz político e que desvalorize preconceituosamente essa matriz de desempenho.
Governar um país, uma autarquia ou uma freguesia é na sua essência fazer política, escolhas, tomar decisões. Não faria por isso qualquer sentido escolher alguém para me representar e ocupar um cargo político que não compreenda o básico. Ser o representante político dos cidadãos deverá ser sempre visto como uma forma superior de servir os outros e nunca o seu contrário, sob pena de continuarmos a desvirtuar e a desacreditar as instituições e as pessoas de bem.
 
MATÉRIA DE FACTO
É evidente que não posso aceitar votar num projecto que não saiba definir objectivos e indicar quais os caminhos a percorrer nessa direcção. Aliás, o exemplo da gestão autárquica dos últimos oito anos, é a forma acabado dessa falta de sistematização e de visão estratégica que exijo para um projecto que queira conquistar o meu voto para as próximas autárquicas.
Assim, os projectos a concurso deverão definir de uma forma geral, mas não genérica, qual a visão estratégica que defendem para o Conselho, abarcando um horizonte temporal nunca inferior a 10 anos, sendo tão precisos quanto possível na identificação do modelo de desenvolvimento humano, económico e organizativo pretendido, justificando a escolha com argumentos que a possam sustentar. Será igualmente essencial que se quantifiquem indicadores gerais de desenvolvimento, qualidade de vida e de bem-estar que se pretendem alcançar nesse horizonte temporal, tomando-os como compromisso de metas a atingir.
As generalidades e banalidades meramente descritivas, inexequíveis, sem fundamentação e sem racionalidade argumentativa, serão por mim entendidas como falta de estratégia e/ou como publicidade enganosa, estando-lhes por isso reservado o caixote do lixo.
Talvez este meu primeiro ponto do caderno encargos possa parecer redutor, vago, básico ou até pueril. Não penso que assim seja uma vez que será a pedra basilar de toda a construção. E está mais do que visto que a esmagadora maioria dos anteriores projectos a concurso não partiu deste ponto. Simplesmente pôs-se a caminho sem saber para onde ia. Tal como a Alice no País das Maravilhas.
 

06/03/13

Abrenuncia




 A procissão está no adro e desfila já a bom ritmo as novidades da próxima colecção primavera-verão-outono, exibindo em corpos Danone XXL, faustosas e berrantes casulas, luxuosas estolas e desproporcionadas mitras. Medalhas e comendas luzem.
A encabeçar o cortejo, montado no seu jerico de euro e pouco por semana, vai o flibusteiro da Trombeta do Demónio, um asnil descendente de Palma Cavalito em versão net – que os tempos são de vertigem comunicacional e os bufos bombam novidades a cada segundo - acolitado de  perto por uma rara ave de arribação, muito engraçada e folgazona, que em tempos já foi “de quase tudo” e que agora, assentada a poeira, abraçou as letras e a sofisticada arte do desmanche de carcaças de novilho e de cavalo.
A cada passo e meio lançam um foguete, a maioria de pólvora seca, recolhendo de seguida as canas para fazerem armadilhas. De quando em quando lançam nuvens de fumo e confetes, sorrindo soberba e distribuindo beijinhos de chocolate de culinária. Estão felizes e sentem-se aconchegados com a atenção que lhes dispensam.
Mais atrás os homens-bons vão-se perfilando, acotovelando, disputando a sombra do pálio, um lugar na fila da frente do consistório e a generosidade do povo que os aplaude sem entender o que se passa. O povo é assim, é generoso por natureza e não gosta de arriscar – mais vale um borracho na frigideira que dois papa-figos empoleirados na antena da televisão.
A festa promete fados e guitarradas, folclore e sevilhanas, banda filarmónica e quermesse, comes-e-bebes e benzeduras. Quanto ao resto, à árdua tarefa de fazer renascer o orgulho ferido de uma paróquia sem rumo certo e sem futuro pensado, talvez lá mais para as férias grandes, quando o povo estiver ainda mais distraído a comer tremoços e a beber minis nas Pedras Negras, pois o que interessa agora é quem vai ser o prior, o sacristão, o mordomo e o anjinho. Interessa definir com o rigor gasparino quem vai levar a bandeira, quem vai pedir esmola, tocar o sino, beijar as criancinhas e subir ao púlpito para nos maçar de tédio. O burro do presépio há muito que foi mandatado e o seu lugar não é discutível. Pena que não se enxergue, já que o pio Bento não o proscreveu tal como fez com a Cornélia.
Este filme já o vi vezes sem conta e o final não é feliz, invariavelmente traduz-se não em quem ganha mas sim em quem perde. Não se trata de mérito mas de falta dele. Por inércia, por inépcia, por falta de senso, por não se saber ver para além do umbigo untuoso e cheio de cotão. Manter as capelinhas é a maior das necessidades da alma e do corpo.
Mas eu cá por mim não vou dar abébias, não vou ser indulgente, vou fazer um caderno de encargos e dar a conhecer ponto-por-ponto o que me fará ter fé e acreditar num futuro melhor. Pois se me acusam de não ser exigente com aqueles em quem confiei, não será desta por falta de aviso. De hoje em diante vou-me dedicar a estabelecer os critérios que me farão decidir e vou dá-los a conhecer publicamente. Aqui! Não em retiros manhosos ou encontros à socapa. Aqui! À vista de todos! Aqui! Onde quem quiser pode entrar e partilhar. E depois sim, podemos ir aos Necas ou ao Fabioca mamar umas imperiais e chupar uns caracóis.
  

28/02/13

Se eu hoje pudesse dar-te um abraço




Ainda não morri !

Ainda não morri!
Embora todos os dias
morra um pedaço
e seja cada vez mais duro
o esforço que faço
para me manter inteiro,
direito,
ainda que imperfeito.

Ainda não morri!
Mas todos os dias faleço
quando tomo consciência
dos cruéis e ignóbeis preços
que se pagam à demência
prá conquista do poder,
do dinheiro,
da vaidade,
do prazer,
da exaltação do egoísmo,
descarado e sem pudor
ou mascarado de altruísmo.

Ainda não morri!
Mas vou-me sentindo um estranho,
derivando neste mundo.
Não por achá-lo imundo,
mas por nele ter mergulhado
completamente nu,
desprovido de escudo
da minha salvaguarda. 

Ainda não morri!
Mas, dia a dia, é mais árdua
tão erecta caminhada...

 
Luis Filipe Cardona