30/08/13
28/08/13
Benchmarking (post respigado)
A propósito da divulgação da iniciativa do SOM "Troca de Manuais Escolares, a qual tomei conhecimento através do facebook, recordei-me do que escrevi há precisamente dois anos e que mantenho.
Apesar desta boa inicitiva do SOM ser complementar, continuo a achar que os livros atribuídos pela autarquia aos alunos do 1º ciclo de forma graciosa, deveriam ser reutilizados - remeto uma vez mais para o projecto "Dar de Volta" da Câmara do Seixal.
27/08/13
Cadernos de Encargos III - Saneamento
Desta vez vou ser curto e grosso.
Há uns anos atrás (talvez oito), também em período de campanha para as autárquicas, ouvi um conhecido conterrâneo comentar que, em pleno séc. XXI, um concelho sem uma cobertura de saneamento próxima dos 100%, seria um concelho do terceiro mundo. Não posso estar mais de acordo. Acrescento até que é vergonhoso em 2013 ter de incluir esta questão no meu caderno de encargos.
Ficam assim excluídos da minha opção de voto quaisquer partidos ou movimentos que não considerem este assunto como prioritário, não sendo aceites meras intenções ou referências genéricas. Obviamente que exijo a respectiva calendarização e compromisso de realização.
21/08/13
Para bom entendedor...
Inspirado pelo arraial do Pontal e pelos retemperadores banhos do infatigável Pedro, nas águas cálidas da Manta Rota, após umas generosas vacances decidi voltar à terra que me viu nascer, agora pejada de cartazes e de frases indecifráveis. Nota-se que, apesar de ainda gozar o direito constitucional ao descanso, a terra dos comunistas e das greves, começa lentamente a acordar para o folclore das campanhas eleitorais. Que saudades…
Viajei, descansei, li, comi, e fiz muitas outras coisas que me reservo no direito de não partilhar. Regressei a lugares de boa memória e a um Algarve que há muito não visitava. O Sotavento, que partilhei com o “nosso” Pedro, embora guardando uma aconselhável distância de segurança – uma espécie de cordão sanitário, longe das praias e da confusão, continua a oferecer lugares muito especiais, sobretudo lá para as bandas de Alcoutim ou de São Brás de Alportel.
Das esporádicas descidas ao litoral, foi com gosto que ao fim de muitos anos regressei a um pequeno restaurante junto à Ria Formosa, onde em tempos um velho com chapéu de marinheiro grelhava peixe logo à entrada, enchendo o ar com aromas divinos de sal e de mar. O velho, certamente descendente de Endovélico, deus lusitano da terra e da natureza, dera agora lugar a um rapazito de cara patusca e sorriso pronto que, com o mesmo chapéu e o no mesmo posto de trabalho, fazia sair a bom ritmo postas de cherne, sardinhas, ferreiras, salemas, espetadas de lula e muitas outras autênticas delicias do mar.
A principio desconfiei. Enquanto mastigava uma garfada de salada de tomate e orégãos, temperada com alma, perguntei a uma das empregadas pelo velho, e pelo novo – Então e moço, desenrasca-se?
O velho, fiquei a saber, está vivo e de boa saúde. Reformou-se ao fim de muitos e bons anos de verdadeiro serviço à comunidade, dando lugar aos mais novos. Por vezes ainda lá passa, transmitindo saber e simpatia. Já quanto ao novo, ouvi o comentário da colega e guardei a prova final para mim. Toda a desconfiança inicial se desvaneceu à primeira garfada de peixe assado no ponto. Suculento, fumado, saboroso. De pronto contrariei o instinto e atribui o bom trabalho do moço à qualidade e frescura do peixe e aos ensinamentos do mestre – Hum… há aqui dedo do velho!... De certeza!
Volvidos longos minutos de puro prazer e já aconchegado pelo café expresso e pela estimulante aguardente de medronho com que finalizei o repasto, dei por mim a palmilhar a calçada em ritmo de passeio, junto à ria, discutindo com os meus botões que se mostravam algo agastados com a minha postura – Então e moço, não tem nenhum mérito? – Anui. Afinal de contas se o velho com chapéu de marinheiro nunca tivesse começado, nunca teria tido oportunidade de fazer o que tão bem foi fazendo ao longo da vida.
É bem certo, a experiência resolve-se com o tempo. Já quanto ao bom senso, é mais complicado - “burro velho não aprende línguas”.
26/07/13
Pequenos gestos
A pôr a escrita em dia, no blog de
amigo destas andanças, dei de caras com uma declaração pública de amor que não
consigo ignorar. De um pai para uma filha.
Pela forma corajosa como foi
escrita e por todo o dramatismo que encerra, fez-me sentir que a dimensão do
amor é um traço dos Homens corajosos, que a dimensão dos dramas pessoais nos
faz relativizar os nossos próprios “dramas”, e que nada nos deverá desviar do
essencial. Não sei se teria a coragem de me desnudar e de revelar aquele
turbilhão de sentimentos e de “fragilidades”. Por isso relevo a sua atitude que
me tocou profundamente. Pela dignidade com que o fez.
É por isso que tenho a certeza
que a filha do meu amigo estará extremamente orgulhosa do pai, e que sentirá
ter recebido a melhor prenda que ele alguma vez lhe poderia dar – o seu amor
incondicional.
A compreensão destes pequenos
gestos não cabe nos memorandos de entendimento, nem nas crises da coligação,
nem nas trapalhadas do sr. presidente, nem na insensatez das máquinas
partidárias. Mas devia. Pois é sempre a vida das pessoas que está em causa.
Pessoas de carne e osso, que amam, que riem, que choram, que sofrem com a
incerteza dos dias.
Embora não possa partilhar com
esse amigo a vivência da paternidade, partilho a solidariedade do momento com
um forte abraço (mesmo que virtual), e a emoção incontida do amor que tudo alcança,
que tudo vence. Mesmo naqueles momentos em que a vida nos parece escorrer por
entre os dedos. Coragem, em frente é que é o caminho!
11/07/13
O Estado da Nação – um governo, uma maioria, um presidente e vinho à discrição…
Tentar manter a higiene mental
nos dias que correm, é talvez o maior exercício de cidadania a que nos podiam
sujeitar. Por isso tenho tentado condicionar os impulsos de repulsa e de nojo
que me têm revirado as entranhas. Verbalizar, ou neste caso, escrever o que me
vai nos neurónios por estes dias, seria, para além de tarefa inglória, um
desaconselhável exercício de esquizofrenia e de incapacidade de utilização de
linguagem pejorativa severa. Expressões como #%&$£? #$
&§@% ou mesmo &
€@§@%& #%$ &#
%&@£, seriam brandas e até eventualmente elogiosas para certos
finórios encastados.
A crise, transversal e patológica,
não é económica, nem política, nem de valores, nem de confiança, nem endémica.
É isso tudo e muito mais. É uma espécie de ácido incolor e inodoro que vai
corroendo de forma permanente e eficaz tudo e todos – pessoas, instituições,
estados, nações.
A espiral de terror e de espanto
deslocalizou-se do grande ecrã para o cenário real, em que todos participamos
como actores e como figurantes. E quando se pensa que o pior já passou, abre-se
uma nova porta ou uma nova janela, a partir da qual somos projectados para um
cenário de conteúdo terrífico incomensuravelmente superior ao cenário anterior,
em crescendo. Dantesco! As imagens, os cheiros e os sons podem assumir sempre
novas formas de decomposição e de putrefacção quem nunca imaginámos existirem.
Descer aos infernos não se fica pelo piso -623, o último a que o elevador
desce, ainda há uma frágil escadinha de tubo galvanizado, serpenteando em
caracol, que se perde na escuridão do buraco.
Sá Carneiro tinha sonhado um projecto
político para Portugal, que passaria pelo domínio absoluto do poder político e
legislativo, através do controlo dos órgãos de soberania sujeitos a sufrágio
universal e directo - um governo, uma maioria e um presidente – os quais
permitiriam, como corolário, a “estabilidade política” necessárias à plena
aplicação da social-democracia. Nunca lhe ocorreu porém que a equação original
contivesse uma quantidade tão grande de variáveis incontroláveis, quer de
carácter endógeno quer exógeno. Só que nestas coisas das ciências humanas não
há simuladores, laboratórios de experimentação ou aplicação em escala reduzida.
Prognósticos só mesmo no fim do jogo e a realidade actual demonstra à saciedade
que a bondade que se presume para um modelo perfeito é em si mesma o maior
motivo para a sua própria perversão. A falta de mecanismos de controlo eficaz e
eficiente dão o empurrão e a falta de consciência crítica (vulgo “vergonha na
cara”) fazem o resto. Pior do que não se saber para onde ir, é não ter
consciência disso.
Penso que o estado a que
chegámos, muito próximo do ponto de ebulição e de não retorno, merece muito
mais do que indignação, merece uma acção individual de intransigência,
manifestada colectivamente de forma destemida e intrépida. Neste momento
deveríamos estar todos na rua a exigir a demissão do governo, a dissolução da
assembleia da república e a aposentação compulsiva do decrépito Silva.
O que se passou ontem ao serão
com a conversa em família, do pai Silva para os filhos da nação, foi o maior
exercício de afirmação e do seu contrário a que já alguma vez assisti em vida.
Em vida sim, porque me cheguei convencer que tinha finado e que aguardava nervoso
na sala de espera do consultório do capeta, na presença de companhia pouco
aconselhável.
Tudo porque o Sr. Silva, ainda
não tendo tomado plena consciência da sua falta de dimensão politica e da sua
insignificância enquanto Homem de Estado, decidiu inscrever à força o seu nome
no mais bizarro compendio da nossa história colectiva, subvertendo a
magistratura de influência num estranho caldo de peixe com ossos de calção e
caril, usurpando funções de juiz desembargador e continuando a aumentar a farta
lista de heterónimos que criou ao longo de todos este anos em que, por
esquecimento, foi político profissional (O Batatinha, O Banana, O Casca de
Banana, O Tabu, O Devoto, O Biqueiro, O Homem do Leme, o Avô Cantigas, etc,
etc, etc…).
Quando o mais alto magistrado da
nação acha que o exercício da democracia participativa e o respeito pela constituição
e pelo seu espírito provocam tensão pós-mestrual nos mercados, estamos
conversados. Aliás, o Sr. Silva tem tanta dificuldade em compreender a
realidade que, só para esbardalhar, conseguiu fazer o pleno: enervar as casas
de apostas, juntar esquerda e direita num “ahhhh!” de espanto, fazer a
irrevogabilidade de decisão de Portas parecer uma simples birra de puberdade e provocar
o riso cínico aos agiotas de serviço e à concubina Gaspar. Só não conseguiu uma
coisa básica dos manuais de decência, provocar a demissão do primeiro-ministro
mais idiota que o país alguma vez suportou.
Mas façamos um simples exercício
de hiprocrisia e admitamos por segundos que as propostas do chefe Silva são
bondosas. Apliquemos pois o teste do algodão – faz aos outros aquilo que admites
para ti próprio. Estão a imaginar o fulano como primeiro-ministro a aceitar
semelhantes propostas de um qualquer chefe de estado, não estão? O algodão não
engana…
É por tu isto que hoje fica muito
mais claro porque que é que o ministério público decidiu não levar Sousa
Tavares a tribunal, por suposta ofensa ao inquilino de Belém.
O ar está viciado e saturado. As concentrações
de vapores etílicos são tão altas que já não se consegue respirar. Deixem o
país arejar por favor – ELEIÇÕES, JÁ!
08/07/13
Alvitre
A fábrica Escola Irmãos Stephens foi instalada na Marinha Grande, em 1769, por dois irmãos ingleses, Guilherme e Diogo Stephens. A Marinha Grande cresceu com a fábrica. Os cristais tornaram-se conhecidos em Portugal e no mundo. Os Stephens empregaram gerações e contribuiram para a educação da população. Em 1826, a fábrica é doada ao estado português e por mais de século e meio esteve nas mãos dos poderes políticos. Sobreviveu a várias crises, passou por vários tipos de gestão mas acabou por fechar portas em 1992 atirando cerca de 400 pessoas para o desemprego.
(SIC)
01/07/13
Mas o que é que eles querem pá?
Têm uma taxa de desemprego que é
quase metade da nossa. Têm uma economia que não está em recessão. Têm um
território belo e riquíssimo. Têm petróleo. Têm belas praias. Têm samba. Têm
carnaval. Têm mulheres fantásticas. Têm caipirinha. Têm magníficos poetas. Têm
fabulosos músicos. Têm o melhor futebol do mundo. Têm uma selecção campeã. Mas o que
raio é que estes gajos querem mais? Lutar pelo direito à saúde e à educação? Lutar
contra a corrupção? Esqueçam manos, papai noel não existe mais.
O Sr. Silva é que tem razão – apesar
de tudo, somos um povo socialmente coeso. Socialmente submisso. Uma carneirada.
Porque já não acreditamos no pai natal, nem no futuro, e adoramos carregar na vaselina.
Ai aguenta, aguenta!...
Quem me dera que soprasse de lá uma brisa.
lá faz primavera pá
cá estou doente
manda urgentemente
algum cheirinho de alecrim
25/06/13
O fim do complexo de Édipo
Encavalitado numa espessa nuvem de fumo de SO2, NO2 e NOx, vomitada para
a atmosfera pela chaminé duma moderna vidreira de embalagem, a uns bons cento e
vinte metros de altura, Édipo olhou uma última vez para baixo, procurando na terra
dos comunistas, insaciáveis marxistas-leninistas a perseguirem deliciosas
criancinhas, suculentas, tostadinhas - sim, que os comunistas pela manhã têm um
apetite voraz e uma tumescência de micção que dá má fama à terra. Aliás, não
fora o 18 de Janeiro e a terra até poderia ter sido o lugar escolhido para o 13
de Maio, ou não fora o Marquês de Pombal e os fleumáticos irmãos Catita, e a
terra até poderia ter sido a capital do móvel de pinho ou do caracol à Bulhão
Pato.
Porém, não alcançando à vista desarmada qualquer ogre vermelho,
Édipo decidiu cumprir a lenda e partiu para matar o pai e casar com a mãe dando
assim o mote, para Freud formular um famoso complexo que baptizou com o seu
nome, e para o diácono Remédios escrever uma rançosa crónica de pasquim
provinciano, em que decretou o fim do complexo, mas da canhota.
Felizmente que, para todos nós, filhos, enteados ou meros
habitantes da “terra” (como alguns primatas curiosamente lhe chamam), as garrafarias
investiram a tempo e modernizaram-se, os tempos foram rodando, o conceito purificando
e as pessoas evoluindo. Não fora isso e ainda hoje seríamos conhecidos pela “terra
do vidro e dos comunistas”, o que não auguraria nada de bom para as próximas
autárquicas. Nem para a indústria de moldes em particular. Sabiam que, sobretudo
no estrageiro, já se começa a ouvir dizer que a Marinha Grande é a terra dos
moldes? Caramba pá, mais do que nunca é preciso mandar descansar os ogres
vermelhos e o capuchinho rosa. O que é preciso é uma nova via de unidade na
acção. Ponto!
Eu sei que a prosa hoje está um pouco desconexa e até capaz
de causar alguns episódicos fenómenos de dislexia. É que o edipiano sentimento de
amor-ódio que me inspirou, toldou-me a moleirinha e saiu isto. Felizmente que não
tenho grandes responsabilidades e que o Conto do Vigário é de pequena tiragem.
Livra!...
Adeus Édipo. Adeus esquerda. Adeus capital do vidro.
20/06/13
14/06/13
Santos da casa
Ao contrário do que é habitual,
hoje Lurdes Rata estava de bom humor, quase eufórica. Enquanto limpava o pó a
bom ritmo, trauteava a compasso uma marcha com letra bizarra – “lá vai o povo
cantando e rindo / de braço dado com a alegria / não temos pão mas temos vinho
/ para animar o nosso dia“ – lembrei-me logo d’o Botas e da famigerada frase “beber
vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”. Senti náuseas…
- O que é que se passa contigo,
Lurdes?
- Logo à noite vou marchar! –
respondeu prontamente com um sorriso tão largo que deixava a descoberto o
espaço vazio que em tempos fora preenchido pelos molares.
- Como assim? – questionei.
- Não me diga que não sabe que
hoje começam as marchas populares!? Não vai ver?
- Cruzes canhoto!
- Porquê? – perguntou indignada.
- Sabes Lurdes, sou um acérrimo
defensor das tradições e da preservação dos usos e costumes. A cultura popular
é um dos bens mais preciosos que podemos possuir e, tal como qualquer tesouro
que se recebe, deve ser cuidado para que não se perca, por respeito a quem no-lo
legou, mas também por respeito às gerações vindouras. Mas diz-me lá Lurdes, o
que é que essa coisa das marchas populares tem a ver com a nossa Marinha
Grande? Desde quando é que os Santos Populares são uma tradição na nossa terra?
Sabes o que é que me custa, sabes? O que me custa é olhar para esta cidade e
perceber que cada dia que passa aquilo que era genuinamente nosso se vai
perdendo, esfumando na espuma dos dias, sem que ninguém pareça importar-se
muito com isso. Tudo o que tem a ver com a cultura vidreira, com o pinhal, com
o património industrial, com a nossa identidade, está a transformar-se numa
quimera, numa vaga memória, e as memórias apagam-se ao ritmo do ciclo da vida.
Os teus filhos sabem o que é um mestre vidreiro? Um lapidário? Um pintor? Os
teus filhos já ouviram falar em colher, fechar o molde, levar acima, roçar? Os
teus filhos sabem o que é o bojo ou a marisa? Alguma vez explicaste aos teu
miúdos o significado de apanhar a espiga? Eles sabem o que é o penisco? Alguma
vez se lambuzaram com um bolo de pinhão? Os teus filhos alguma vez olharam para
uma bicicleta como um meio de transporte? – as palavras saiam-me de jorro, quase
me impedindo de respirar – Alguma vez lhes contaste que o avô deles, e o bisavô
deles, e o avô do bisavô, faziam nascer obras de arte de uma bola
incandescente? Quantas vezes é que já fizeste uma sopa do vidreiro para a janta
dos garotos? E quantas vezes é que já foste com eles ao Mac Donald’s? Vá, diz-me!?
Lurdes olhou-me de alto a baixo e
retorquiu – Você passou-se. Enfim. O que me interessa é que hoje à noite vou
marchar mais os meus garotos, no estádio. Essa é que é essa!
Senti-me angustiado. Dei meia
volta e fui ver do rafeiro que no patim destruía o terceiro vaso de buganvílias
numa semana. Há muito que tinha esta espinha entalada na garganta. Não resolvi
nada, mas pelo menos desabafei. Sou mesmo vacão - a espinha continua atravessada.
Inadvertidamente deixei que duas grossas lágrimas rolassem. O rafeiro lambeu-as,
despreocupado.
05/06/13
Os ratos do sistema
Li ontem na imprensa que o Barómetro Eldeman Trust indica que a “banca é o sector que inspira menos confiança em Portugal”.
O mesmo estudo revela ainda que “o valor geral da confiança nas instituições governamentais desacelerou no país”.
Recordei de imediato uma entrevista que José Gomes Ferreira fez ao Presidente do Instituto de Gestão do Crédito Público, João Moreira Rato, que vi há pouco tempo na SIC Notícias.
Confesso que em determinados momentos senti a vergonha que o entrevistado não sentiu, apesar do embaraço evidente que foi tentando disfarçar.
O excerto que se segue é apenas um bom exemplo da forma como a banca “elimina a concorrência” através da acção do próprio Estado, colocando nos centros de poder os seus representantes, de forma absolutamente despudorada, com a conivência dos eleitos.
Penso que vale a pena ver o vídeo e ler o currículo do jovem entrevistado. As conclusões finais ficam para a caixa de comentários, se vos aprouver. Sem acanhamentos.
O mesmo estudo revela ainda que “o valor geral da confiança nas instituições governamentais desacelerou no país”.
Recordei de imediato uma entrevista que José Gomes Ferreira fez ao Presidente do Instituto de Gestão do Crédito Público, João Moreira Rato, que vi há pouco tempo na SIC Notícias.
Confesso que em determinados momentos senti a vergonha que o entrevistado não sentiu, apesar do embaraço evidente que foi tentando disfarçar.
O excerto que se segue é apenas um bom exemplo da forma como a banca “elimina a concorrência” através da acção do próprio Estado, colocando nos centros de poder os seus representantes, de forma absolutamente despudorada, com a conivência dos eleitos.
Penso que vale a pena ver o vídeo e ler o currículo do jovem entrevistado. As conclusões finais ficam para a caixa de comentários, se vos aprouver. Sem acanhamentos.
24/05/13
Caderno de Encargos II - H2O
Se eu fosse erudito começaria por
invocar Sócrates* – só sei que nada sei. Mas como sou apenas atrevido, invoco
Anibal Silva** - raramente me engano e nunca tenho dúvidas. Isto sou eu a
reinar, claro está.
O assunto é sério e delicado, mas
para mim está e estará na ordem dia, no que respeita às prioridades imediatas e
de sustentabilidade a médio/longo prazo – a água.
A questão da água será para mim
central nas próximas eleições autárquicas, ficando assim excluídos da minha
opção de voto quaisquer partidos ou movimentos que não tenham sobre o tema uma
posição clara e inequívoca, uma estratégia com pés e cabeça e a não considerem como
uma prioridade.
Felizmente que até hoje, salvo
casos pontuais, a sede do concelho não tem tido grandes problemas, quer quanto
à qualidade, quer quanto ao abastecimento. Porém, se nada for feito corremos o
sério risco de arranjar uma carga de trabalhos.
Por uma questão de princípio sou
contra a privatização dos sistemas de abastecimento de água e da sua gestão. A
absoluta importância deste elemento para a nossa existência e qualidade de
vida, a sua escassez em termos de qualidade e de quantidade, a necessidade
imperiosa do seu controlo e gestão, quer em termos qualitativos quer em termos
quantitativos, são para mim motivos mais do que suficientes para considerar que
a sua tutela deverá manter-se na esfera pública, com o que tudo isso implica de
vantajoso (naturalmente exigindo-se da gestão da coisa pública critérios de
rigor, racionalidade e parcimónia que, por definição, lhe deverão estar
subjacentes). A água, enquanto elemento básico de sobrevivência, nunca poderá ser
tratada como uma qualquer mercadoria, não podendo a sua gestão subordinar-se unicamente
aos princípios do mercado cuja “livre concorrência” bem conhecemos de outras
andanças (GALP, EDP, etc).
Feita esta declaração de princípios,
reconheço que a resolução do problema não é fácil, sobretudo porque um sistema
de abastecimento adequado às necessidades actuais e futuras de todo o concelho,
racional e sustentável, implica grandes investimentos e dinheiro é coisa que
também não abunda. Daí que me pareça que o assunto deva ser tratado com pinças,
mas também com determinação, seriedade e criatividade.
É claro que o recurso ao fornecimento
via Águas de Portugal poderá ser uma solução a encarar, se bem que na minha
opinião de leigo poderá representar num futuro próximo a dependência em relação
ao sector privado (não é preciso ser bruxo para adivinhar que o mais certo é a
privatização a breve prazo daquela empresa pública). Por outro lado, sabendo-se
como se sabe que o concelho dispõe de importantes reservas subterrâneas, seria
um desperdício não rentabilizar a favor de todos, um recurso natural
estratégico de que dispomos, ao contrário de outros que não têm sequer essa
opção à partida.
Gostaria contudo de saber muito mais
sobre a matéria e de conhecer todas as soluções técnicas disponíveis, incluindo
as de natureza financeira, que permitiriam a concretização dos investimentos
necessários para encarar-mos o futuro com confiança, já que quanto à decisão
política, em primeira instância, é minha, através do meu voto. E disso não
abdico!
* filosofo grego do séc. IV AC
(não confundir com o bolseiro de Paris e delegado de propaganda médica, nosso
contemporâneo).
** ficou conhecido por ter sido o
primeiro homem a ter feito uma orquiectomia preventiva (remoção cirúrgica dos
tintins), de forma a justificar a falta de coragem política (chamemos-lhe
assim). Face à idade avançada o caso teve pouco impacto mediático, quando
comparado com outros casos em que a cirurgia preventiva resultou de efectivos actos de
coragem.
23/05/13
Cento e uma
Esta semana foi notícia a publicação na revista Forbes de mais uma das suas habituais listas sobre as 100 mulheres mais poderosas do mundo.
Habituado que estou a viver no meu micro-cosmos, confesso que estas listas me deixam invariavelmente desconfiado e de pé atrás.
Obviamente que a revista Forbes não conhece, nem a Lurdes Rata, cuja única razão de existir é chagar-me o juízo, nem a Senhora de Fátima que caucionou a 7ª aparição da troika, segundo informação do marido da Sra. D. Maria Cavaco.
Contudo, já tenho mais dificuldade em entender porque é que a revista Forbes não fez incluir na sua lista, em lugar de destaque, a senhora que comanda a tropas cá do burgo e que, às cavalitas do alcaide tirado à sorte, lá se prepara para concluir o mandato, antes de se dedicar por definitivo à venda de cosméticos por catálogo.
É urgente que a Forbes reveja os seus critérios, sob pena de eu continuar a desconfiar da sua boa-fé e de quando em vez ser mauzinho.
É urgente que a Forbes reveja os seus critérios, sob pena de eu continuar a desconfiar da sua boa-fé e de quando em vez ser mauzinho.
09/05/13
My city of ruins
Quando uma cantiga vale mais que mil palavras...
07/05/13
ALELUIA
"A Câmara da Marinha Grande e o Estado assinaram um acordo de
permuta de terrenos que vai permitir alargar a Zona Industrial de Casal da
Lebre, uma reivindicação que dura há uma década, informou hoje a autarquia.
O acordo prevê a entrega por parte do Estado de uma parcela
de terreno de 13,69 hectares localizado na Mata Nacional do Casal da Lebre, bem
como dos imóveis onde funcionava a antiga Fábrica de Vidros J. Ferreira
Custódio.
A autarquia, por sua vez, comprometeu-se a entregar parcelas
de terreno com uma área de 53,48 hectares, situadas no Pinhal do
Concelho/Pinhal da Boa Esperança, bem como uma quantia de 339 mil euros em
dinheiro."
Não posso deixar de sublinhar o tempo que demorou a
concretizar (?) este processo e o seu custo, com o estado a cobrar ao próprio
estado.
Escrevi “estado” com letra minúscula propositadamente.
E para o Atrium, quantos anos ainda faltarão?
26/04/13
O papão
O dia amanheceu fresco e com uma borrasca
molha-tolos que desaconselhava a habitual caminhada.
Mesmo assim ignorei os avisos da
mãe natureza e iniciei o percurso habitual – Casal da Fomiga, Luzeirão, Parque
da Cerca, Parque Mártires do Colonialismo, Praça Stephens e regresso ao Casal
da Formiga via Rua Marquês de Pombal, em tempos uma importante artéria que hoje não passa
de uma variz em estado pré-ulceroso.
Os primeiros três quartos da
viagem correram sem qualquer sobressalto de maior. Na rua o movimento ainda era
reduzido e a cidade acordava lentamente de mais um longo dia de comemorações
que começara como habitualmente na noite de 24 para 25 – bombos, cantigas de
Abril, poemas e papagaios, nas varandas, pois que o vento não estava de feição para
ensaiar qualquer ascensão aos céus.
Passei em frente aos Bombeiros e
caminhei junto ao tapume das obras da Resinagem, procurando ignorar o
mastodonte que agora se ergue nas cavalitas do novo Cinema Paraíso, apenas
desejando que o bom senso ao menos lhe reserve uma utilização digna e
criteriosa. Enfim…
Chegado à Praça Stephens virei à
direita em direcção à Marquês de Pombal e dei de caras com uma fotografia de
grandes dimensões do Comendador Martins, nas instalações da antiga papelaria do
primo. “Foscasse piguga!” – pensei eu, não contendo uma pequena gargalhada em
resultado de tão inesperada aparição. Não é que não faça sentido a presença do
comendador na praça do município, já que a sua influência sempre foi notória em
certos círculos mais iluminados dos Passos do Concelho, e a sua presença era vulgar
em saraus culturais e recreativos que se desenrolavam no clube do outro lado da
rua. O que me despertou os sentidos foi o sorriso irónico e desafiador do seu
olhar e o esgar de notório revanchismo que se lia nos seus lábios. Por segundos
imaginei o Presidente Pereira a entrar e a sair do escritório que por enquanto
vai ocupando, evitando um encontro de olhares com o retrato do comendador,
preferido perscrutar o céu em busca de papagaios de cores vivas e dimensões
variadas, enquanto se afasta apressadamente da antiga papelaria.
O Comendador Martins não é nenhum
fantasma que paira sobre a Praça Stephens, é um pesadelo que ecoa no sótão
escuro e húmido da vivenda rosa da Rua 25 de Abril, atormentando o soninho
descansado dos nefelibatas residentes que pensavam que eram tudo favas
contadas. Enganaram-se outra vez, porque a política também tem destas coisas
que normalmente se servem como as saladas, frias…
24/04/13
Santo e Senha
Na vertigem dos
problemas e das contrariedades, tendemos a esquecer as reais diferenças entre o
antes e o depois, entre a mordaça da ditadura e a puberdade da democracia.
Desenganem-se os vendedores de banha da cobra, os falsos profetas da antipolítica,
os toxico-independentes e os degenerados da cidadania dos direitos, Portugal
não é o mesmo de há 38 anos atrás e ponto final!
Temos muitos
problemas para resolver? Sem dúvida! Abril é um projecto inacabado? Absolutamente!
O sistema democrático necessita de se regenerar? Urgentemente! A classe
política é fraca? Muito. E ainda assim preferimos a democracia? SEMPRE! E os
partidos? Obviamente. Mas ser cidadão é apenas votar e manifestar vontades e
críticas? NÃO! Ser cidadão é ter palavra, escolha, participar na construção da
democracia, dar cara e tempo às associações, aos clubes, aos grupos de
intervenção, aos partidos, aos outros. Ser cidadão é escolher um caminho consciente
e trilhá-lo. É não ter razões absolutas, é acreditar que é possível resolver os
problemas, é ter bom senso, é credibilizar e acreditar no Estado, é aceitar a
vontade da maioria, é respeitar as minorias, é ser solidário, é não ser nada para
se ser tudo.
E é por isso que
devemos denunciar o falso medo, a falsa crítica, os falsos caçadores de
fantasmas, os falsos independentes, os falsos detentores da verdade, os bufos,
os hipócritas, os merdosos que se escondem nos blogues e nas redes sociais para
golpearem a democracia sob o diáfano manto do puritanismo populista, sob a
falsa capa de um contrapoder sem regras. Pois não há pior cancro para a
democracia do que o poder político se deixar manietar e submeter mansamente pelo
escrutínio dos que sem rosto chafurdam na lama que eles próprios proclamam
combater, mas cujo caudal todos os dias engrossam. Dar importância a quem não a
tem ou credibilidade a quem não a merece, é desprezar a legitimidade
democrática e subalternizar e descaracterizar as instituições, um caminho
perigoso e sem retorno.
Celebrar Abril é
por isso respeitar a liberdade usando-a com o critério e a consciência que se
empresta todos os dias a uma delicada flor que se cuida e que se ama.
VIVA A
LIBERDADE!
19/04/13
A má moeda (remaque)
.
.
Esta
semana Pedro Manuel Mamede Passos Coelho e António José Martins Seguro arrulharam
em S. Bento, sem contudo terem acasalado. Pelo menos que se saiba. O encontro
ficou-se pelos preliminares, tendo em vista uma posterior sessão terapêutica de
ménage a quatro com a troika, a qual se pretendia fluída e lubrificada.
Horas
mais tarde, de viva voz e evidenciado profundos traços de insatisfação sulcados
na face pálida e enrugada, trabalho digno de um vencedor do Óscar para a melhor caracterização,
António José veio comunicar em tom monocórdico e sumido que não havia novidade
e que a quadrilha (Pedro + troika) tinha desiludido. Desta vez nem para simular
o clímax a coisa tinha dado.
Lembrei-me
então do artigo que o Sr. Silva escreveu em 2004, quando a propósito do outro
Pedro, o Miguel de Santana Lopes, estabeleceu um paralelo entre a Lei de
Gresham e a expulsão de bons políticos por maus políticos, verdade insofismável
da qual o próprio Silva é corolário.
Mas
não me lembrei da má moeda apenas pela fraquíssima qualidade dos actuais intervenientes,
lembrei-me da má moeda porque Pedro Manuel Mamede Passos Coelho e António José
Martins Seguro ensaiaram esta semana, para português ver, a entrada de uma nova
moeda em cujo valor facial nem eles próprios acreditam, apesar do cunho ter nela
gravado as suas próprias efígies, uma em cada face. Pedro e António que se
encontraram para supostamente estabelecerem pontos de convergência, nos quais não acreditam, são as cara
e coroa duma mesma moeda que garante (e garantirá) à troika, presencialmente ou
através de carta de conforto, que a carneirada continuará a suportar taxas
internas de rentabilidade de 10% às PPP’s e juros de usura aos mercados,
enquanto a "via dos impostos" passa a ser substituída sub-repticiamente pela "via
da redução da despesa", forma manhosa e capciosa de cortar naquilo que são as mais
nobres funções do Estado – a saúde, a educação e a segurança social, obrigando de novo os mesmos a pagarem.
Reconheço,
em abono da verdade, que Pedro e António são ideologicamente diferentes. Contudo,
não estando nenhum deles crente num entendimento político a curto prazo, e estando liminarmente afastada qualquer possibilidade de prazer na relação, porque
será que se prestam a estes encontros inconsequentes? É que se for só para
marcar na agenda que se reuniram, mais valia irem ao cinema ou a um baile e aí
sim, talvez até pintasse um clima entre os dois. Quem sabe…
16/04/13
Maleitas
O
- Então doutor, acha que é grave?
- O senhor tem estado em contacto com relvas?- Porquê doutor?
- É que o senhor está com a doença da moda: falta de força anímica.
- E tem cura?
- Há paliativos, um conselho de administração de uma grande empresa, daquelas que têm muitos negócios com o Estado.
- Mas cura mesmo, não há?
- Há, mas é um processo muito doloroso.
- Intervenção cirúrgica?
- Não. Repetir a quarta classe dos adultos e tirar o “Dr” dos cheques antes do nome do titular da conta.
- Foscasse, mas isso é desumano doutor!
- Senhor Relaxoterapeuta, eu disse que o processo era muito doloroso.
- Então por favor prescreva-me um paliativo.
- Ok. Também precisa de vaselina? É que já está a decorrer a entrega do IRS…
- Ainda tenho alguma. Comprei uma lata de cinco quilos quando assinaram o memorando com a troika.
04/04/13
Dia-lugar
Com a delicadeza habitual, Lurdes Rata passou
propositadamente com a esfregona impregnada de água e detergente por cima dos
meus pés, deixando sapatos e calças molhados e um rasto a lavanda e lixívia.
- Levante lá as patinhas se faz favor que eu quero lavar o
chão.
- Porra Lurdes, já não se pode ler sossegado nesta casa?
- Cale-se bem caladinho que a mim paga-me é para trabalhar.
Tenho de me despachar que é quase meio-dia e tenho de ir dar o almoço aos
garotos. E o que é que o varrão está a ler tão entretido? Deve ser de gajas
nuas e poucas vergonhas, não é?
Ignorei a afronta e respondi ajeitando os óculos na ponta do
nariz:
- Estou a reler o Sermão de Santo António aos Peixes, do
António Vieira.
- Ah, o gajo do Benfica. Estes homens só vêem bola à frente,
chiça.
- Padre António Vieira, santa ignorância.
- Ah ele agora é padre? Pois o do Porto é papa.
- Enfim, é o país que temos… - respondi enfastiado.
- Oiça cá, está para aí com merdas, o que é que esse Vieira
diz a mais do que eu?
- Queres mesmo que te leia um bocadinho para perceberes a
diferença entre um pensador do século XVII e uma mulher a dias do século XXI,
queres? – respondi irritado.
Lurdes Rata empertigou-se e apoiando as mãos e o
queixo no cabo da esfregona tomou pose ouvinte atento.
- Sou toda ouvidos, senhor doutor da mula russa.
Coloquei a voz e comecei a leitura, imaginando-me também a
pregar aos peixes.
- Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda
maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os
pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os
grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os
pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como
estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus
facti sunt, sicut pisces invicem se devorantes: «Os homens com suas más e perversas
cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros.» Tão alheia
cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no
mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos,
vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a
fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes,
para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.
Aproveitando a minha pausa para respirar, Lurdes Rata interrompeu a leitura levantando a mão direita
acima do ombro.
- Alto e para o baile! P’ra mim tá bom! P’ra mim tá bom! Chega de converseta lá do século não sei quantos. Vá-se lá quilhar mais esse
Vieira e os peixes que eu tenho muito que fazer.
- Não percebeste patavina, pois não Lurdes?
- E era para perceber?
24/03/13
Doutores de Passareira*
Ao anúncio de regresso à RTP do estrangeirado
Sócrates, num espaço de “comentário político” para optimizar audiências e
exponenciar os engulhos ao anémico Seguro, respondeu de pronto uma legião de virgens ofendidas,
com pateada, gritinhos pré-adolescentes e petições on e off line.
Se o problema é o da legitimidade
de uma estação de serviço público dar tempo de antena a asnos e a coveiros atrevidos,
então as virgens têm de calibrar o ponto de mira, pois não consta que em
relação a outros mamíferos do mesmo quilate a protagonizarem semelhante papel, tenham
usado do mesmo critério. Aliás, o serviço público está para a RTP como o Relvas
para a política – pura ficção.
É-me por isso perfeitamente
indiferente que Sócrates rinche uma vez por semana com dia e hora marcados, ao
vivo e a cores, porque até ver cá em casa o comando da tv ainda obedece à minha
vontade. Tal como acontece com o embargo que decretei aos pasquins de jornalistas
imbecis e de opinantes de sarjeta, levam todos o mesmo tratamento – cá por mim os
palermas ficam a falar sozinhos.
22/03/13
Agarrem-me senão eu bato-lhe!
Ao contrário do que seria de
esperar, e não deixa de ser paradigmático dos tempos que vivemos, as últimas sondagens
demonstram à saciedade que a oposição, sobretudo a do “arco do
poder”, continua sem capitalizar a seu favor o descontentamento colectivo pelo
estado calamitoso a que o nosso país chegou.
As respostas a este paradigma são
diversas e encontram fortes razões em fenómenos sociológicos e políticos de
natureza vária.
A uma cultura cívica de reduzida
exigência em relação aos políticos e às instituições, de insipiente contestação
popular, de reduzida expressão e participação eleitoral e política da
esmagadora maioria da sociedade civil, poderemos juntar realidades tão simples e
evidentes como a falta de entendimentos à esquerda, a cumplicidade de todos
(embora em graus diferenciados) no estado da nação, a falta de classe das lideranças
políticas, a teia de
cumplicidades entre o estado e a economia pseudo-liberal, e por aí adiante.
Há contudo para mim uma causa que
se sobrepõe a todas as outras e mede-se em quilogramas, ou fracção desta objectiva
unidade de medida. Refiro-me obviamente ao tamanho (peso) dos tomates.
É claro que a decisão de
apresentação de uma moção de censura, que o emérito Seguro fez ontem aprovar em
conclave extraordinário, se destina mais à ovação interna do que ao legítimo e
urgente exercício de uma alternativa de esperança. É fácil trocar palmadinhas nos
Costas por gestos inconsequentes e redundantes, face há realidade nua e crua de
um hemiciclo que maioritariamente defende um governo incompetente, que vê no
Estado um papel meramente assistencialista e de pseudo-regulação. Porque se o
emérito realmente tivesse vontade (e capacidade) para mudar o estado das
coisas, exporia toda artilharia em cima da banca e indicaria de forma
clarividente o que faria de modo diferente, para além das intenções genéricas
de “negociação com a troika” e de “adopção de medidas para o crescimento” que
vai apregoando com olhar vago e mortíço. Mas quais e como? Qual a estratégia?
Aliás, a tibieza é tal que à complexidade da pergunta - “E promoveria a descida
dos impostos?” - Seguro responde com clareza sintomática - “Não me comprometo”.
E no fim de tudo isto
perguntar-me-ão: mas Seguro é papável? Obviamente que sim, em função da posição
anedoticamente incontestada que ocupa no seu partido e da benção que os
Espírito Santo e toda a nação de anjos e arcanjos calmamente instalados na
banca celestial lhe parecem reservar, face às investidas brincalhonas dos Costas.
Mas claramente que não, em função da falta de qualidades políticas que
demonstra e da exígua falta de peso da fruta. As sondagens demonstram-no de
forma evidente. Seguro não é papável porque este tipo de produtos são facilmente
perecíveis e por isso mesmo de curtíssimo prazo de validade.
Mas duma coisa estou certo,
embora a validação dessa convicção esbarre na impossibilidade de o provar. Se a
moção de censura tivesse consequências traduzidas na queda do governo, Seguro jamais
a apresentaria. É por isso que eu estou farto de líderes com tomates cherry.
13/03/13
Caderno de Encargos I - Exemplo Prático...
…
do que não se deve fazer.
O
caso dos Cheques-Bebé
A
medida pode ser boa, desde que faça sentido. Atribuir incentivos à natalidade é
uma forma de tentar inverter um problema gravíssimo -o envelhecimento da
população. Mas a medida pode também constituir-se como uma forma de apoio
social, desde que prestada a famílias que manifestamente apresentem carências
económicas. Atente-se contudo ao argumentário do actual presidente da câmara e
proto-candidato do PS às próximas eleições (logo no início do vídeo).
Afinal o estímulo à procriação municipalmente assistida, destina-se a promover a venda de imóveis, em português desleixado. O nascimento de bebés em barda assume assim uma forma meramente instrumental, para escoar produto em stock, funcionando como chamariz para casais em idade fértil.
Alguns dirão que por certo o que o senhor disse não era o que queria dizer. Concedo-lhe o benefício da dúvida. Tanto mais que ele tem interesses no comércio dos inibidores de fertilidade. Resta saber se as margens do leite em pó e das tetinas são inferiores ou superiores.
12/03/13
Caderno de Encargos I
- Pode dizer-me por favor que
caminho devo seguir para sair daqui?
- Isso depende muito para onde queira
ir - disse o Gato.
- Não me importo muito para onde vou
- respondeu Alice.
- Então qualquer caminho serve - retorquiu
o Gato.
.
(diálogo retirado do livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol)
(diálogo retirado do livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol)
NOTA PRÉVIA
Obviamente que conteúdo e forma
constituem um todo indissociável para efeitos de valoração do projecto ao qual
atribuirei o meu voto nas próximas eleições autárquicas. Quero contudo deixar
claro que não tenho qualquer reserva mental relativamente à forma de
organização que corporize os diferentes projectos “a concurso”. Mas, esclareço
também, que será liminarmente desqualificada qualquer forma de organização que
não se assuma de cariz político e que desvalorize preconceituosamente essa
matriz de desempenho.
Governar um país, uma autarquia
ou uma freguesia é na sua essência fazer política, escolhas, tomar decisões. Não
faria por isso qualquer sentido escolher alguém para me representar e ocupar um
cargo político que não compreenda o básico. Ser o representante político dos
cidadãos deverá ser sempre visto como uma forma superior de servir os outros e
nunca o seu contrário, sob pena de continuarmos a desvirtuar e a desacreditar
as instituições e as pessoas de bem.
MATÉRIA DE FACTO
É evidente que não posso aceitar
votar num projecto que não saiba definir objectivos e indicar quais os caminhos
a percorrer nessa direcção. Aliás, o exemplo da gestão autárquica dos últimos
oito anos, é a forma acabado dessa falta de sistematização e de visão
estratégica que exijo para um projecto que queira conquistar o meu voto para as
próximas autárquicas.
Assim, os projectos a concurso
deverão definir de uma forma geral, mas não genérica, qual a visão estratégica
que defendem para o Conselho, abarcando um horizonte temporal nunca inferior a
10 anos, sendo tão precisos quanto possível na identificação do modelo de
desenvolvimento humano, económico e organizativo pretendido, justificando a
escolha com argumentos que a possam sustentar. Será igualmente
essencial que se quantifiquem indicadores gerais de desenvolvimento, qualidade
de vida e de bem-estar que se pretendem alcançar nesse horizonte temporal,
tomando-os como compromisso de metas a atingir.
As generalidades e banalidades meramente
descritivas, inexequíveis, sem fundamentação e sem racionalidade argumentativa,
serão por mim entendidas como falta de estratégia e/ou como publicidade
enganosa, estando-lhes por isso reservado o caixote do lixo.
Talvez este meu primeiro ponto do
caderno encargos possa parecer redutor, vago, básico ou até pueril. Não penso
que assim seja uma vez que será a pedra basilar de toda a construção. E está
mais do que visto que a esmagadora maioria dos anteriores projectos a concurso
não partiu deste ponto. Simplesmente pôs-se a caminho sem saber para onde ia.
Tal como a Alice no País das Maravilhas.
06/03/13
Abrenuncia
A procissão
está no adro e desfila já a bom ritmo as novidades da próxima colecção primavera-verão-outono,
exibindo em corpos Danone XXL, faustosas e berrantes casulas, luxuosas estolas
e desproporcionadas mitras. Medalhas e comendas luzem.
A encabeçar
o cortejo, montado no seu jerico de euro e pouco por semana, vai o flibusteiro
da Trombeta do Demónio, um asnil descendente de Palma Cavalito em versão net –
que os tempos são de vertigem comunicacional e os bufos bombam novidades a cada
segundo - acolitado de perto por uma
rara ave de arribação, muito engraçada e folgazona, que em tempos já foi “de quase tudo” e
que agora, assentada a poeira, abraçou as letras e a sofisticada arte do desmanche de carcaças de
novilho e de cavalo.
A cada
passo e meio lançam um foguete, a maioria de pólvora seca, recolhendo de
seguida as canas para fazerem armadilhas. De quando em quando lançam nuvens de
fumo e confetes, sorrindo soberba e distribuindo beijinhos de chocolate de culinária. Estão felizes e sentem-se aconchegados com
a atenção que lhes dispensam.
Mais
atrás os homens-bons vão-se perfilando, acotovelando, disputando a sombra do
pálio, um lugar na fila da frente do consistório e a generosidade do povo que os
aplaude sem entender o que se passa. O povo é assim, é generoso por natureza e
não gosta de arriscar – mais vale um borracho na frigideira que dois papa-figos
empoleirados na antena da televisão.
A festa
promete fados e guitarradas, folclore e sevilhanas, banda filarmónica e quermesse,
comes-e-bebes e benzeduras. Quanto ao resto, à árdua tarefa de fazer renascer o
orgulho ferido de uma paróquia sem rumo certo e sem futuro pensado, talvez lá
mais para as férias grandes, quando o povo estiver ainda mais distraído a comer
tremoços e a beber minis nas Pedras Negras, pois o que interessa agora é quem
vai ser o prior, o sacristão, o mordomo e o anjinho. Interessa definir com o rigor
gasparino quem vai levar a bandeira, quem vai pedir esmola, tocar o sino,
beijar as criancinhas e subir ao púlpito para nos maçar de tédio. O burro do presépio há muito que foi mandatado e o seu lugar não é discutível. Pena que não se enxergue, já que o pio Bento não o proscreveu tal como fez com a Cornélia.
Este
filme já o vi vezes sem conta e o final não é feliz, invariavelmente traduz-se não em quem ganha mas sim
em quem perde. Não se trata de mérito mas de falta dele. Por inércia, por
inépcia, por falta de senso, por não se saber ver para além do umbigo untuoso e
cheio de cotão. Manter as capelinhas é a maior das necessidades da alma e do
corpo.
Mas eu
cá por mim não vou dar abébias, não vou ser indulgente, vou fazer um caderno de
encargos e dar a conhecer ponto-por-ponto o que me fará ter fé e acreditar num
futuro melhor. Pois se me acusam de não ser exigente com aqueles em quem
confiei, não será desta por falta de aviso. De hoje em diante vou-me dedicar a
estabelecer os critérios que me farão decidir e vou dá-los a conhecer
publicamente. Aqui! Não em retiros manhosos ou encontros à socapa. Aqui! À vista
de todos! Aqui! Onde quem quiser pode entrar e partilhar. E depois sim, podemos
ir aos Necas ou ao Fabioca mamar umas imperiais e chupar uns caracóis.
28/02/13
Se eu hoje pudesse dar-te um abraço
Ainda não morri !
Ainda não morri!
Embora todos os diasmorra um pedaço
e seja cada vez mais duro
o esforço que faço
para me manter inteiro,
direito,
ainda que imperfeito.
Ainda não morri!
Mas todos os dias faleçoquando tomo consciência
dos cruéis e ignóbeis preços
que se pagam à demência
prá conquista do poder,
do dinheiro,
da vaidade,
do prazer,
da exaltação do egoísmo,
descarado e sem pudor
ou mascarado de altruísmo.
Ainda não morri!
Mas vou-me sentindo um estranho,derivando neste mundo.
Não por achá-lo imundo,
mas por nele ter mergulhado
completamente nu,
desprovido de escudo
da minha salvaguarda.
Ainda não morri!
Mas, dia a dia, é mais árduatão erecta caminhada...
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