30/10/13

Numerus Clausus




O liberalismo-freack deste governo é um case study – consegue meter no mesmo pacote a mais profunda das aversões pelo papel fundamental do Estado (protecção social, saúde, educação, regulação, etc), tudo em nome duma pseudo-consolidação das contas públicas, com a mais intolerável e mesquinha intromissão na vida privada das pessoas (e animais!), uma característica dos estados totalitários, tanto de direita como de esquerda.
Foi ontem conhecida a intenção da dona Cristas de limitar o número animais de estimação. Em tese até pode fazer algum sentido. Porém, do que é conhecido da proposta que se encontra em cima da mesa, a mesma parece ser desprovida de qualquer fundamentação cientifica (ou outra), pretendendo apenas limitar o número de animais a um número, redondo, seguindo a mesma ausência de critérios patentes nos cortes cegos dos salários da função publica e das pensões, ou na redução da despesa em quatro mil milhões de euros. A dislexia é a mesma.
Mas o governo vai mais longe, entroniza os veterinários e as câmara municipais como guardiões do templo da legalidade, como polícias da política dos números absurdos, obrigando os primeiros a bufarem e os segundos a resgatarem as vítimas e a entregarem-nas à guarda da Segurança Social da Bicharada ou das Comissões de Protecção de Animais em Risco.
Contas feitas, é intenção dos marmanjos que apenas coabitem, por apartamento, um total de quatro animais, com a limitação de dois cães e quatro gatos.
É verdade que não conheço pormenores da nova lei, mas creio que há questões que podem e devem desde já ser suscitadas, como por exemplo:
- por que razão cada cão vale dois gatos?
- por que razão dois cães e dois gatos coabitam melhor do que três cães?
- por que razão um T0 tem a mesma capacidade para a coabitação de animais, do que um T3 ou um T4?
- será que passa a ser obrigatório que os donos de casais de animais obriguem os mesmos a seguirem rigorosos planos de planeamento familiar, ao uso compulsivo do preservativo  ou a prolongados períodos de abstinência sexual, para não ultrapassarem os limites previstos, através de procriação?
- e em relação aos macacos, quantos são permitidos por apartamento?
- e o Conselho de Ministros? Como é que vai funcionar? Vão reunir aos quatro de cada vez? É que aquilo é um saco de gatos…




27/10/13

Apneia Democrática




Aníbal António Cavaco tem sono fácil e pesado, cochila com facilidade, mesmos nas situações mais inusitadas, apresentando ainda frequentes e preocupantes episódios de apneia. Por vezes o estado de sonolência é de tal modo profundo que, apesar do circo arder em seu redor, mais parece morto, mortinho da Silva.
Porém, Aníbal António tem uma cútis extremamente sensível e reage a pequenos estímulos que de quando em vez lhe activam os condicionados sensores da epiderme, interferindo de imediato com os períodos em que os sentidos se encontram insensíveis. Basta que entre duas ressonadelas profundas alguém sopre o nome de “palhaço”, lhe vá à parca pensão ou imagine sequer que o dito já posou para a posteridade ao lado de Oliveira e Costa & Associados, e a reacção é imediata. Bastas das vezes deselegante e petulante.
O último episódio conhecido de súbita reacção alérgica foi o do zumbido do velho zangão Mário, que lhe passou de raspão junto ao umbigo. Acto contínuo, Anibal António, que não sentira o intenso cheiro a esturro quando Machete, o turra responsável pela intendência, ateou um bidão de querosene em Angola para imolar o seu próprio país, despertou de imediato em sobressalto e até chegou a “sentir uma violenta picadela” desferida sem dó nem piedade pelo antecessor jubilado, ignorando o facto dos zagões não terem ferrão. Afinal, aquela ausência injustificada a uma aula da segunda classe para ir aos grilos, numa soalheira tarde da primavera de 1946, revelara-se agora fatal para o domínio básico da entomologia.
Mas desta vez, ao contrário da outra em que despachou para o meirinho um difamador de Palhaços, a reacção de Anibal António foi sofisticada. Puxou dos galões carcomidos pele traça e dissertou professoral sobre a solidez e clareza dos esclarecimentos prestados, sobre o reconhecimento do papel do decano zangão, sobre o respeito institucional, sobre a preservação da dignidade devida à instituição que representa de forma intermitente e sobre como fazer, em pouco tempo, mais-valias na compra e venda de acções manhosas. Perdão, corrijo: este último item da palestra foi omitido porque os 140 caracteres do twuitter também não dão para tudo, não é?
Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Haja alguém que explique a esse senhor que repousa enfastiado em Belém, que ele é que tem falta de dignidade e de respeito! É bom que ele não se esqueça que só continuamos a ser governados por um bando de incompetentes porque ele próprio caucionou essa solução, porque ele mesmo quer que seja essa burricada a tomar conta do governo, um escritório de representação da troika que se instalou em São Bento, a expensas da borregada, para despachar as decisões dos esmoladores. Haja alguém que explique a esse fulano que os juros de usura que dispararam em flecha nos últimos tempos, pode agradece-los à crise conjugal que o Paulinho, em momento de desiquilibrio emocional, decidiu despoletar de forma irrevogável! Haja alguém que explique a esse sujeito que a falta de respeito que as “instâncias internacionais” demonstram pelo nosso Estado de Direito e pelos nossos Órgãos de Soberania, mais não são do que a consequência óbvia do seu próprio desrespeito e da sua quebra de lealdade em relação ao que jurou defender – a Constituição. Haja alguém que explique a esse sicrano que há muito que o país retirou a confiança política aos pseudo-guionistas da Reforma do Estado. Haja alguém que explique a esse dorminhoco que o país está à beira do caus social e que ele se prepara para promulgar um embuste, argumentando que seria pior para o país viver sem orçamento do que viver com um que viola as normas constitucionais. Haja alguém que transmita a esse irresponsável que seria muito melhor para o país viver sem presidente, do que com um que não tem a mínima noção do que significa “Sentido de Estado”. Haja alguém que me chegue um copo de água com açúcar e que me ponha o coprimido debaixo da língua, que estou à beira dum ataque.




25/10/13

Vexatório



Apesar da minha ansiosa e quase pueril insistência, Edward Snowden, embora renitente, lá acabou por revelar que a NSA, o big brother da inteligência americana, nunca me colocou sob escuta.
Que por cá poucos há que ligam alguma coisa ao que eu digo e penso, não é para mim novidade, antes uma evidência. Agora que Obama não se importe com o potencial perigo que eu represento, já cheira a humilhação. Confesso que estou de rastos…



23/10/13

Alvitre



(reconstituição possível dum pequeno diálogo ocorrido num dos debates da campanha eleitoral para as últimas autárquicas)
Moderador (mas pouco) – Dr. Álvaro, o senhor pôs a Agenda 21 na gaveta. O que é que o senhor fez à Agenda 21?
Candidato do PS – Onde é que está a Agenda 21? Digam-me, onde é que está isso?
Moderador (mas pouco) – Vitor Pereira, onde está a Agenda 21?
Candidato da CDU – No site da câmara!
  
Há alguns dias atrás, a propósito de uns milhões que o governo terá gasto para informatizar um serviço do Estado, constatando-se que o referido sistema nunca terá funcionado, recordei este episódio.
Por cá também se gastaram alguns milhares na elaboração da Agenda 21 Local.
Segui a sugestão de Vitor Pereira e dei-me ao “trabalho” de ler a referida Agenda, encomendada pelo executivo de Barros Duarte/Alberto Cascalho. Rapidamente conclui que a maioria dos ex-candidatos não a leu.
Numa altura em que ainda se procuram consensos, articulação de projectos políticos e formas de enquadramento para tantas medidas avulsas que foram anunciadas durante a campanha, parece-me a mim, vulgar cidadão do Casal da Formiga com legítimas aspirações a ser feliz, que a Agenda 21 Local poderá ser o elemento que falta (mas que existe), o guião para a estratégia concertada, tendo em conta que a aposta nocrescimento sustentável, sendo transversal e (penso) defendida por todos, corresponde a uma forma coerente de implementar estratégias conducentes a melhorar a qualidade de vida da população do nosso concelho, em todos os aspectos relevantes do seu quotidiano.
Sugiro por isso a todos os que o queiram, incluindo os actuais membros do executivo camarário e responsáveis políticos da nossa comunidade, a lerem a Agenda 21 Local (disponível no site da CMMG) sem qualquer reserva mental e sem qualquer preconceito. Pode ser que tenham uma agradável surpresa e que o dinheiro gasto possa por fim ter utilidade. Desculpem-me a ousadia.
 

Vanidade



Coçando suavemente o queixo proeminente, o comendador olhou à sua volta com olhar pisco de quem já devia duas horas à cama e questionou:
- Então só eu que me candidato contra a situação? Bem, pelo menos eu cumpro a minha obrigação. Se os eleitores me elegeram é porque querem que eu seja o presidente da assembleia!
Não obteve resposta. Todos sabiam que o guião da sua pequena vingança pessoal incluía episódicos apontamentos em bicos dos pés.

21/10/13

Micro-deuses






A propósito dum “esclarecimento à população de Picassinos” publicado esta semana num jornal que lamentavelmente não respeita nem a memória dos seus fundadores, nem a cidade que lhe dá nome.
 

Quando um responsável editorial se escuda no argumentário da publicidade paga para publicar textos abjectos com os quais diz não se identificar, está aberta não a Caixa de Pandora mas uma fossa asséptica. Na prática o que se diz é que o dinheiro pode comprar espaço supostamente informativo, formativo, de divulgação ou de opinião (responsável), tal qual compra coitos e malabarismos a mulheres de virtudes duvidosas.
Os falsos moralistas são assim, beatos compulsivos hiper-sensíveis ao que os rodeia, mas incapazes de perceber o alcance das suas miseráveis cumplicidades.


13/10/13

Trocadilhos




Como qualquer cidadão com o mínimo de decência, no passado dia 29 cumpri a minha obrigação e votei.
Das eleições saiu uma composição do executivo municipal que implica responsabilidade, clarividência, diálogo, compromissos e muito bom senso, para que o concelho possa ser governável.
Presumo que nesta altura as forças envolvidas se encontrem em processo de diálogo e de compromissos. Percebo que o segredo seja a alma do negócio.
Desejo contudo que o negócio não tenha segredos mas que tenha alma. E que os compromissos nos sejam transmitidos de viva voz, publicamente, e não por fontes anónimas. Nada mais descredibilizante para a política do que a informação ser enlameada nos mentideiros. Já que nos contactaram pessoalmente para pedir o voto, que nos olhem nos olhos e nos transmitam o que decidiram.
Hoje acordei assim, curioso.
 

11/10/13

Rato escondido com o rabo de fora




Com os olhos fixos no telefone, o senhor director entretinha-se nervosamente a roer as unhas da mão direita, que já iam no sabugo, tamborilando com os dedos da esquerda no tampo da secretária de cerejeira. Aguardava ansioso por uma chamada de Estocolmo.
Desde que se tornara bem sucedido, com evidente notoriedade no mundo académico, empresarial, dos midia, e com estatuto social que lhe permitia livre transito em tertúlias manhosas, reuniões de compras por catálogo e festarolas de pavões e piriguetes, que mantinha a razoável certeza de que um dia a academia de Estocolmo lhe reconheceria os méritos e lhe atribuiria o Nobel do Mais Lindo e Mais Espertinho.
À sua frente, Joaquim Alberto “O Candidato”, um produto cultural da sua infinita capacidade criativa e artística, sentado de forma desleixada num banco de pau, fazia trejeitos com a bigodaça e com os olhos, consultando de forma compulsiva, a cada cinco segundos, o relógio de grandes dimensões que usava no pulso esquerdo, quebrou o silêncio com a voz rouca que era uma das suas imagens de marca:
- Então senhor director? Essa coisa toca ou não toca, hã? Quer que lhe desfie o meu programa eleitoral para o entreter? Hã? – e colocando a voz começou - Se eu for eleito prometo uma estação de serviço no Tremelgo, a “Vareta do Vidreiro”, aberta 24 hora por dia, com mudanças de óleo e alinhamento da direcção a preços em conta…
Irritado o senhor director interrompeu-o, batendo com o punho cerrado na secretária:
- Cala-te Joaquim Alberto “O Candidato”! Tu aqui só falas quando eu mandar, percebeste? Eu é que te escrevo os textos e te dou vida e dimensão artística e cultural, por isso bico calado!
- Concerteza senhor director – respondeu Joaquim Alberto “O Candidato”, com um ligeiro assentimento de cabeça, em jeito de vénia.
- Quem é o maior Joaquim Alberto “O Candidato”? – questionou o senhor director para testá-lo.
- É o senhor, senhor director! Vossecelência é o maior!
- Muito bem Joaquim Alberto “O Candidato”, muito bem. Tu és como os outros, tem de ser rédea curta! Viste como eu os pus na linha nos debates que organizei? Viste?
- Vi sim senhor, senhor director! Vossecelência é o mais espertinho!
- Aqui quem dita as regras sou eu e “quem quer, quer, quem não quer, não quer”, Voltaire ou coisa assim do género. E viste como eu os interrompi para que tu, Joaquim Alberto “O Candidato”, pudesses parodiar com propostas sérias? E viste a reacção deles quando eu lhes perguntei se queriam comentar? E viste como eu me atirei aos candidatos com tiradas inteligentes e vistosas? Viste como eu os fiz tremer com a patroa e com a carta anónima, viste? Viste como eu sou bom e cruel? E viste como eu fui inteligente e subtil quando dei mais opiniões do que coloquei questões?
- Vi sim senhor, senhor director! Vossecelência é o mais lindo!
- Na verdade nem sei bem se esta terra me merece!… Mas um dia, Joaquim Alberto “O Candidato”, um dia ainda me hás-de ver a saudar o povo do alto da varanda, ou melhor, do cimo cubo de vidro, que é ainda mais alto. Quem é o maior Joaquim Alberto “O Candidato”?
- É o senhor, senhor director! Vossecelência é o mais cheiroso!
Subitamente o telefone tocou. O director empertigou-se para atender e fez sinal de silêncio a Joaquim Alberto “O Candidato”.
- God middag. Som jag har nöjet att tala?*
- Cruzes canhoto pá, só te reconheci pela voz. Tás com catarro ou quê? Queres que te arranje um chá?
- Oh, és tu Nando. Pensava que eram uns amigos suecos.
- Ainda se fossem umas amigas suecas eu até fazia de “tou cá eu”… Ah! Ah! Ah! Ouve lá, queres um chá ou não?
- Nunca bebi.
- Nem em pequenino?
- Não. Porquê?
 
 
* não se percebe porque é sueco (aconselho o Google Tradutor)
 

04/10/13

Idiossincrasias do eleitor médio




Convencido que passaria a perna à Lurdes Rata, lancei-lhe a rasteira:
- Então Lurdes, onde foste jantar na sexta-feira passada?
Lurdes fitou-me com aquele olho pisco de desconfiança, o mesmo com que recebe as Testemunhas de Jeová ao sábado à tarde. A resposta pronta surpreendeu-me:
- Fiz a rota do porco no espeto. Completa!
- Hum?
- Ordem, Picassinos, FAE, Figueiras... porquê? Quer saber em quem é que votei, não é?
Lurdes arrotou sem pudor. Quase uma semana depois o bafo exalado continuava marcado por acentuadas notas de porco no espeto, vinho barato, imperial mole, canela e frutos silvestres. (As notas de canela e frutos silvestre dão sempre um toque mais sofisticado a qualquer avaliação de aroma.)
- Sabes Lurdes, tenho sempre alguma curiosidade em saber como é o que o eleitor médio se posiciona, como reage à campanha, como avalia os resultados do anterior executivo, o quer para o futuro, no fundo, o que lhe passa pela cabeça quando tem de pôr a cruz no quadradinho. Curiosidade minha…
- Foscasse, você é muito complicado, não é?
- Porquê? Não pensas antes de decidires em quem votas?
- Não, como porco no espeto!
 

03/10/13

Diário de Pós-Campanha - Opinião (a minha)

 
 
 
 
Dos píncaros da sua inominável sabedoria, o povo ditou o rifão: os políticos que se entendam! Ou não… - os que tinham três levam dois; os que tudo queriam levam um; e tu, coração independente, que tanto te afligia dar um murro na mesa porque as crianças e os mais necessitados não vivem com duodécimos, ficas. Mas por pouco. Deixas de ser o fiel da balança e passas a caminhar na corda bamba como os outros, sem rede e sem cueiro.
O jogo está lançado e como jamais alguém ousou o 2x2x1x1x1, há que reinventar a natureza táctica da equação, sob pena de ninguém saber qual o seu lugar, embora de antemão se saiba que o campo é estreito e os jogadores duros de rins. Talvez umas cacetadas com bordão de peregrino fizessem quebrar o enguiço e tornar vergadiços os egos inchados, e periféricos os umbigos egocêntricos.
Cá por mim, que não risco nada, PS e CDU deveriam assumir em boas mãos o nosso destino nos próximos quatro anos, e os restantes, independentes, uma oposição de mangas arregaçadas e atitude construtiva. O raciocínio é simples. As duas forças com maior representatividade no concelho não estão assim tão distantes quanto ao essencial, quanto às prioridades, pelo que se o problema é de estilo e de perfil, que se quilhe o estilo e que se faça do diálogo a trave mestra do entendimento, já que em relação ao perfil não haverá muito a fazer, apenas se poderá escolher o ângulo mais favorável.
Em contraponto, a uma maior tarimba política que os partidos indubitavelmente têm, pela sua génese e pela sua história (para o bem e para o mal!), os independentes, em maior ou menor grau, poderiam demonstrar que uma visão mais descomprometida, menos sectarista e mais pragmática dos problemas, resultaria numa oposição mais racional e pró-activa. Seria também a oportunidade de provar que grupos de cidadãos com vontade, capacidade e coordenação, conseguem assumir um papel de relevo na construção de um futuro digno. Mas mais. É que de todos os adversários em contenda, foram os que demonstraram algumas diferenças de estratégia dignas de registo, pelo que não faria muito sentido a coexistência de perspectivas com pontos de ruptura evidentes.
Eu sei que a minha ingenuidade e bonomia são as de um cândido. Mas, afinal de contas durante a campanha não apelaram todos ao bom senso e aos superiores interesses do concelho? É que eu quero continuar a acreditar na boa vontade dos homens.

04/09/13

Diário de Campanha - Números

 
Tal como faço habitualmente, dei uma vista de olhos sobre as notícias do dia, incluindo obviamente as da nossa cidade.
O título chamou-me à atenção: “Câmara da Marinha investe 300 mil euros em refeições escolares”. Li a notícia, procurando perceber do seu alcance e da dimensão do “investimento”.
Acedi ao site da CMMG e confirmei a fonte, na área relativa às “Notícias” lá estava a mesma informação que havia lido no Diário de Leiria.
Insensível a grandes elaborações e conjecturas sobre as motivações humanas e sobre a bondade e o esforço do poder político em prole daqueles a quem deve servir, o meu cérebro estabeleceu de imediato o mais simplista e básico raciocínio, transformar o suculento título em números também básicos. Os números têm a vantagem de revelarem factos e a desvantagem de omitirem contextos. Cabe depois à inteligência e à boa vontade dos homens desvendar os números e revelá-los em conclusões objectivas, ou tortuosas distorções da realidade, que não é fria como os números, mas que é nua e crua para infortúnio de muitos.
Decidi por isso recorrer aos ensinamentos da primária e a uma das mais elementares operações matemáticas e de solidariedade fraterna – a divisão. Dividi o valor “investido” (“mais de 300 mil euros” - escolhi por hipótese, provavelmente próxima da realidade, 340.000€), pelo preciso número de refeições indicado na notícia – 257.020 (nem mais uma, nem menos uma, 257.020 refeições), tendo obtido o valor de 1,32€ por refeição. Não satisfeito voltei a recorrer às artes mágicas da divisão colocando no dividendo os tais 340.000€ e no divisor cerca de 30 milhões de euros, aproximadamente o valor que encontrei num jornal local relativo ao total do orçamento do município aprovado para 2013. O rácio foi de aproximadamente 1,1%.
Os números do investimento (nas nossas crianças) são frios, mas as conclusões da notícia revelam aquilo a que os especialistas da psicologia designam por procristinação, continua-se alegremente a adiar o futuro, suavemente embalados na fé do impacto favorável de títulos gordos de não notícias. Dá que pensar…
 

27/08/13

Alvitre


Com texto de António Torrado e ilustrações de Maria Keil, na sua versão original, O Macaco de Rabo Cortado, um conto tradicional que nos ídos de sessenta/setenta integrava os manuais da segunda classe, agora "recuperado" pelo Plano Nacional de Leitura. Muito engraçado...


 
 

 

Cadernos de Encargos III - Saneamento


Desta vez vou ser curto e grosso.
Há uns anos atrás (talvez oito), também em período de campanha para as autárquicas, ouvi um conhecido conterrâneo comentar que, em pleno séc. XXI, um concelho sem uma cobertura de saneamento próxima dos 100%, seria um concelho do terceiro mundo. Não posso estar mais de acordo. Acrescento até que é vergonhoso em 2013 ter de incluir esta questão no meu caderno de encargos.
Ficam assim excluídos da minha opção de voto quaisquer partidos ou movimentos que não considerem este assunto como prioritário, não sendo aceites meras intenções ou referências genéricas. Obviamente que exijo a respectiva calendarização e compromisso de realização.
 

 

21/08/13

Para bom entendedor...

 
Inspirado pelo arraial do Pontal e pelos retemperadores banhos do infatigável Pedro, nas águas cálidas da Manta Rota, após umas generosas vacances decidi voltar à terra que me viu nascer, agora pejada de cartazes e de frases indecifráveis. Nota-se que, apesar de ainda gozar o direito constitucional ao descanso, a terra dos comunistas e das greves, começa lentamente a acordar para o folclore das campanhas eleitorais. Que saudades…
Viajei, descansei, li, comi, e fiz muitas outras coisas que me reservo no direito de não partilhar. Regressei a lugares de boa memória e a um Algarve que há muito não visitava. O Sotavento, que partilhei com o “nosso” Pedro, embora guardando uma aconselhável distância de segurança – uma espécie de cordão sanitário, longe das praias e da confusão, continua a oferecer lugares muito especiais, sobretudo lá para as bandas de Alcoutim ou de São Brás de Alportel.
Das esporádicas descidas ao litoral, foi com gosto que ao fim de muitos anos regressei a um pequeno restaurante junto à Ria Formosa, onde em tempos um velho com chapéu de marinheiro grelhava peixe logo à entrada, enchendo o ar com aromas divinos de sal e de mar. O velho, certamente descendente de Endovélico, deus lusitano da terra e da natureza, dera agora lugar a um rapazito de cara patusca e sorriso pronto que, com o mesmo chapéu e o no mesmo posto de trabalho, fazia sair a bom ritmo postas de cherne, sardinhas, ferreiras, salemas, espetadas de lula e muitas outras autênticas delicias do mar.
A principio desconfiei. Enquanto mastigava uma garfada de salada de tomate e orégãos, temperada com alma, perguntei a uma das empregadas pelo velho, e pelo novo – Então e moço, desenrasca-se?
O velho, fiquei a saber, está vivo e de boa saúde. Reformou-se ao fim de muitos e bons anos de verdadeiro serviço à comunidade, dando lugar aos mais novos. Por vezes ainda lá passa, transmitindo saber e simpatia. Já quanto ao novo, ouvi o comentário da colega e guardei a prova final para mim. Toda a desconfiança inicial se desvaneceu à primeira garfada de peixe assado no ponto. Suculento, fumado, saboroso. De pronto contrariei o instinto e atribui o bom trabalho do moço à qualidade e frescura do peixe e aos ensinamentos do mestre – Hum… há aqui dedo do velho!... De certeza!
Volvidos longos minutos de puro prazer e já aconchegado pelo café expresso e pela estimulante aguardente de medronho com que finalizei o repasto, dei por mim a palmilhar a calçada em ritmo de passeio, junto à ria, discutindo com os meus botões que se mostravam algo agastados com a minha postura – Então e moço, não tem nenhum mérito? – Anui. Afinal de contas se o velho com chapéu de marinheiro nunca tivesse começado, nunca teria tido oportunidade de fazer o que tão bem foi fazendo ao longo da vida.
É bem certo, a experiência resolve-se com o tempo. Já quanto ao bom senso, é mais complicado - “burro velho não aprende línguas”.

26/07/13

Pequenos gestos

A pôr a escrita em dia, no blog de amigo destas andanças, dei de caras com uma declaração pública de amor que não consigo ignorar. De um pai para uma filha.
Pela forma corajosa como foi escrita e por todo o dramatismo que encerra, fez-me sentir que a dimensão do amor é um traço dos Homens corajosos, que a dimensão dos dramas pessoais nos faz relativizar os nossos próprios “dramas”, e que nada nos deverá desviar do essencial. Não sei se teria a coragem de me desnudar e de revelar aquele turbilhão de sentimentos e de “fragilidades”. Por isso relevo a sua atitude que me tocou profundamente. Pela dignidade com que o fez.
É por isso que tenho a certeza que a filha do meu amigo estará extremamente orgulhosa do pai, e que sentirá ter recebido a melhor prenda que ele alguma vez lhe poderia dar – o seu amor incondicional.
A compreensão destes pequenos gestos não cabe nos memorandos de entendimento, nem nas crises da coligação, nem nas trapalhadas do sr. presidente, nem na insensatez das máquinas partidárias. Mas devia. Pois é sempre a vida das pessoas que está em causa. Pessoas de carne e osso, que amam, que riem, que choram, que sofrem com a incerteza dos dias.
Embora não possa partilhar com esse amigo a vivência da paternidade, partilho a solidariedade do momento com um forte abraço (mesmo que virtual), e a emoção incontida do amor que tudo alcança, que tudo vence. Mesmo naqueles momentos em que a vida nos parece escorrer por entre os dedos. Coragem, em frente é que é o caminho!
 

11/07/13

O Estado da Nação – um governo, uma maioria, um presidente e vinho à discrição…

 
Tentar manter a higiene mental nos dias que correm, é talvez o maior exercício de cidadania a que nos podiam sujeitar. Por isso tenho tentado condicionar os impulsos de repulsa e de nojo que me têm revirado as entranhas. Verbalizar, ou neste caso, escrever o que me vai nos neurónios por estes dias, seria, para além de tarefa inglória, um desaconselhável exercício de esquizofrenia e de incapacidade de utilização de linguagem pejorativa severa. Expressões como #%&$£?  #$  &§@% ou mesmo &  €@§@%&  #%$  &#  %&@£, seriam brandas e até eventualmente elogiosas para certos finórios encastados.
A crise, transversal e patológica, não é económica, nem política, nem de valores, nem de confiança, nem endémica. É isso tudo e muito mais. É uma espécie de ácido incolor e inodoro que vai corroendo de forma permanente e eficaz tudo e todos – pessoas, instituições, estados, nações.
A espiral de terror e de espanto deslocalizou-se do grande ecrã para o cenário real, em que todos participamos como actores e como figurantes. E quando se pensa que o pior já passou, abre-se uma nova porta ou uma nova janela, a partir da qual somos projectados para um cenário de conteúdo terrífico incomensuravelmente superior ao cenário anterior, em crescendo. Dantesco! As imagens, os cheiros e os sons podem assumir sempre novas formas de decomposição e de putrefacção quem nunca imaginámos existirem. Descer aos infernos não se fica pelo piso -623, o último a que o elevador desce, ainda há uma frágil escadinha de tubo galvanizado, serpenteando em caracol, que se perde na escuridão do buraco.
Sá Carneiro tinha sonhado um projecto político para Portugal, que passaria pelo domínio absoluto do poder político e legislativo, através do controlo dos órgãos de soberania sujeitos a sufrágio universal e directo - um governo, uma maioria e um presidente – os quais permitiriam, como corolário, a “estabilidade política” necessárias à plena aplicação da social-democracia. Nunca lhe ocorreu porém que a equação original contivesse uma quantidade tão grande de variáveis incontroláveis, quer de carácter endógeno quer exógeno. Só que nestas coisas das ciências humanas não há simuladores, laboratórios de experimentação ou aplicação em escala reduzida. Prognósticos só mesmo no fim do jogo e a realidade actual demonstra à saciedade que a bondade que se presume para um modelo perfeito é em si mesma o maior motivo para a sua própria perversão. A falta de mecanismos de controlo eficaz e eficiente dão o empurrão e a falta de consciência crítica (vulgo “vergonha na cara”) fazem o resto. Pior do que não se saber para onde ir, é não ter consciência disso.
Penso que o estado a que chegámos, muito próximo do ponto de ebulição e de não retorno, merece muito mais do que indignação, merece uma acção individual de intransigência, manifestada colectivamente de forma destemida e intrépida. Neste momento deveríamos estar todos na rua a exigir a demissão do governo, a dissolução da assembleia da república e a aposentação compulsiva do decrépito Silva.
O que se passou ontem ao serão com a conversa em família, do pai Silva para os filhos da nação, foi o maior exercício de afirmação e do seu contrário a que já alguma vez assisti em vida. Em vida sim, porque me cheguei convencer que tinha finado e que aguardava nervoso na sala de espera do consultório do capeta, na presença de companhia pouco aconselhável.
Tudo porque o Sr. Silva, ainda não tendo tomado plena consciência da sua falta de dimensão politica e da sua insignificância enquanto Homem de Estado, decidiu inscrever à força o seu nome no mais bizarro compendio da nossa história colectiva, subvertendo a magistratura de influência num estranho caldo de peixe com ossos de calção e caril, usurpando funções de juiz desembargador e continuando a aumentar a farta lista de heterónimos que criou ao longo de todos este anos em que, por esquecimento, foi político profissional (O Batatinha, O Banana, O Casca de Banana, O Tabu, O Devoto, O Biqueiro, O Homem do Leme, o Avô Cantigas, etc, etc, etc…).
Quando o mais alto magistrado da nação acha que o exercício da democracia participativa e o respeito pela constituição e pelo seu espírito provocam tensão pós-mestrual nos mercados, estamos conversados. Aliás, o Sr. Silva tem tanta dificuldade em compreender a realidade que, só para esbardalhar, conseguiu fazer o pleno: enervar as casas de apostas, juntar esquerda e direita num “ahhhh!” de espanto, fazer a irrevogabilidade de decisão de Portas parecer uma simples birra de puberdade e provocar o riso cínico aos agiotas de serviço e à concubina Gaspar. Só não conseguiu uma coisa básica dos manuais de decência, provocar a demissão do primeiro-ministro mais idiota que o país alguma vez suportou.
Mas façamos um simples exercício de hiprocrisia e admitamos por segundos que as propostas do chefe Silva são bondosas. Apliquemos pois o teste do algodão – faz aos outros aquilo que admites para ti próprio. Estão a imaginar o fulano como primeiro-ministro a aceitar semelhantes propostas de um qualquer chefe de estado, não estão? O algodão não engana…
É por tu isto que hoje fica muito mais claro porque que é que o ministério público decidiu não levar Sousa Tavares a tribunal, por suposta ofensa ao inquilino de Belém.
O ar está viciado e saturado. As concentrações de vapores etílicos são tão altas que já não se consegue respirar. Deixem o país arejar por favor – ELEIÇÕES, JÁ!
 

08/07/13

Alvitre



 
A fábrica Escola Irmãos Stephens foi instalada na Marinha Grande, em 1769, por dois irmãos ingleses, Guilherme e Diogo Stephens. A Marinha Grande cresceu com a fábrica. Os cristais tornaram-se conhecidos em Portugal e no mundo. Os Stephens empregaram gerações e contribuiram para a educação da população. Em 1826, a fábrica é doada ao estado português e por mais de século e meio esteve nas mãos dos poderes políticos. Sobreviveu a várias crises, passou por vários tipos de gestão mas acabou por fechar portas em 1992 atirando cerca de 400 pessoas para o desemprego.
 
 (SIC)

01/07/13

Mas o que é que eles querem pá?



Têm uma taxa de desemprego que é quase metade da nossa. Têm uma economia que não está em recessão. Têm um território belo e riquíssimo. Têm petróleo. Têm belas praias. Têm samba. Têm carnaval. Têm mulheres fantásticas. Têm caipirinha. Têm magníficos poetas. Têm fabulosos músicos. Têm o melhor futebol do mundo. Têm uma selecção campeã. Mas o que raio é que estes gajos querem mais? Lutar pelo direito à saúde e à  educação? Lutar contra a corrupção? Esqueçam manos, papai noel não existe mais.
O Sr. Silva é que tem razão – apesar de tudo, somos um povo socialmente coeso. Socialmente submisso. Uma carneirada. Porque já não acreditamos no pai natal, nem no futuro, e adoramos carregar na vaselina. Ai aguenta, aguenta!...
Quem me dera que soprasse de lá uma brisa.
 
lá faz primavera pá
cá estou doente
manda urgentemente
algum cheirinho de alecrim
 

25/06/13

O fim do complexo de Édipo


 


Encavalitado numa espessa nuvem de fumo de SO2, NO2 e NOx, vomitada para a atmosfera pela chaminé duma moderna vidreira de embalagem, a uns bons cento e vinte metros de altura, Édipo olhou uma última vez para baixo, procurando na terra dos comunistas, insaciáveis marxistas-leninistas a perseguirem deliciosas criancinhas, suculentas, tostadinhas - sim, que os comunistas pela manhã têm um apetite voraz e uma tumescência de micção que dá má fama à terra. Aliás, não fora o 18 de Janeiro e a terra até poderia ter sido o lugar escolhido para o 13 de Maio, ou não fora o Marquês de Pombal e os fleumáticos irmãos Catita, e a terra até poderia ter sido a capital do móvel de pinho ou do caracol à Bulhão Pato.
Porém, não alcançando à vista desarmada qualquer ogre vermelho, Édipo decidiu cumprir a lenda e partiu para matar o pai e casar com a mãe dando assim o mote, para Freud formular um famoso complexo que baptizou com o seu nome, e para o diácono Remédios escrever uma rançosa crónica de pasquim provinciano, em que decretou o fim do complexo, mas da canhota.
Felizmente que, para todos nós, filhos, enteados ou meros habitantes da “terra” (como alguns primatas curiosamente lhe chamam), as garrafarias investiram a tempo e modernizaram-se, os tempos foram rodando, o conceito purificando e as pessoas evoluindo. Não fora isso e ainda hoje seríamos conhecidos pela “terra do vidro e dos comunistas”, o que não auguraria nada de bom para as próximas autárquicas. Nem para a indústria de moldes em particular. Sabiam que, sobretudo no estrageiro, já se começa a ouvir dizer que a Marinha Grande é a terra dos moldes? Caramba pá, mais do que nunca é preciso mandar descansar os ogres vermelhos e o capuchinho rosa. O que é preciso é uma nova via de unidade na acção. Ponto!
Eu sei que a prosa hoje está um pouco desconexa e até capaz de causar alguns episódicos fenómenos de dislexia. É que o edipiano sentimento de amor-ódio que me inspirou, toldou-me a moleirinha e saiu isto. Felizmente que não tenho grandes responsabilidades e que o Conto do Vigário é de pequena tiragem. Livra!...
Adeus Édipo. Adeus esquerda. Adeus capital do vidro.
 

14/06/13

Santos da casa

 
Ao contrário do que é habitual, hoje Lurdes Rata estava de bom humor, quase eufórica. Enquanto limpava o pó a bom ritmo, trauteava a compasso uma marcha com letra bizarra – “lá vai o povo cantando e rindo / de braço dado com a alegria / não temos pão mas temos vinho / para animar o nosso dia“ – lembrei-me logo d’o Botas e da famigerada frase “beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”. Senti náuseas…
- O que é que se passa contigo, Lurdes?
- Logo à noite vou marchar! – respondeu prontamente com um sorriso tão largo que deixava a descoberto o espaço vazio que em tempos fora preenchido pelos molares.
- Como assim? – questionei.
- Não me diga que não sabe que hoje começam as marchas populares!? Não vai ver?
- Cruzes canhoto!
- Porquê? – perguntou indignada.
- Sabes Lurdes, sou um acérrimo defensor das tradições e da preservação dos usos e costumes. A cultura popular é um dos bens mais preciosos que podemos possuir e, tal como qualquer tesouro que se recebe, deve ser cuidado para que não se perca, por respeito a quem no-lo legou, mas também por respeito às gerações vindouras. Mas diz-me lá Lurdes, o que é que essa coisa das marchas populares tem a ver com a nossa Marinha Grande? Desde quando é que os Santos Populares são uma tradição na nossa terra? Sabes o que é que me custa, sabes? O que me custa é olhar para esta cidade e perceber que cada dia que passa aquilo que era genuinamente nosso se vai perdendo, esfumando na espuma dos dias, sem que ninguém pareça importar-se muito com isso. Tudo o que tem a ver com a cultura vidreira, com o pinhal, com o património industrial, com a nossa identidade, está a transformar-se numa quimera, numa vaga memória, e as memórias apagam-se ao ritmo do ciclo da vida. Os teus filhos sabem o que é um mestre vidreiro? Um lapidário? Um pintor? Os teus filhos já ouviram falar em colher, fechar o molde, levar acima, roçar? Os teus filhos sabem o que é o bojo ou a marisa? Alguma vez explicaste aos teu miúdos o significado de apanhar a espiga? Eles sabem o que é o penisco? Alguma vez se lambuzaram com um bolo de pinhão? Os teus filhos alguma vez olharam para uma bicicleta como um meio de transporte? – as palavras saiam-me de jorro, quase me impedindo de respirar – Alguma vez lhes contaste que o avô deles, e o bisavô deles, e o avô do bisavô, faziam nascer obras de arte de uma bola incandescente? Quantas vezes é que já fizeste uma sopa do vidreiro para a janta dos garotos? E quantas vezes é que já foste com eles ao Mac Donald’s? Vá, diz-me!?
Lurdes olhou-me de alto a baixo e retorquiu – Você passou-se. Enfim. O que me interessa é que hoje à noite vou marchar mais os meus garotos, no estádio. Essa é que é essa!
Senti-me angustiado. Dei meia volta e fui ver do rafeiro que no patim destruía o terceiro vaso de buganvílias numa semana. Há muito que tinha esta espinha entalada na garganta. Não resolvi nada, mas pelo menos desabafei. Sou mesmo vacão - a espinha continua atravessada. Inadvertidamente deixei que duas grossas lágrimas rolassem. O rafeiro lambeu-as, despreocupado.
 

05/06/13

Os ratos do sistema

Li ontem na imprensa que o Barómetro Eldeman Trust indica que a “banca é o sector que inspira menos confiança em Portugal”.
O mesmo estudo revela ainda que “o valor geral da confiança nas instituições governamentais desacelerou no país”.
Recordei de imediato uma entrevista que José Gomes Ferreira fez ao Presidente do Instituto de Gestão do Crédito Público, João Moreira Rato, que vi há pouco tempo na SIC Notícias.
Confesso que em determinados momentos senti a vergonha que o entrevistado não sentiu, apesar do embaraço evidente que foi tentando disfarçar.
O excerto que se segue é apenas um bom exemplo da forma como a banca “elimina a concorrência” através da acção do próprio Estado, colocando nos centros de poder os seus representantes, de forma absolutamente despudorada, com a conivência dos eleitos.
Penso que vale a pena ver o vídeo e ler o currículo do jovem entrevistado. As conclusões finais ficam para a caixa de comentários, se vos aprouver. Sem acanhamentos.

24/05/13

Caderno de Encargos II - H2O

 
Se eu fosse erudito começaria por invocar Sócrates* – só sei que nada sei. Mas como sou apenas atrevido, invoco Anibal Silva** - raramente me engano e nunca tenho dúvidas. Isto sou eu a reinar, claro está.
O assunto é sério e delicado, mas para mim está e estará na ordem dia, no que respeita às prioridades imediatas e de sustentabilidade a médio/longo prazo – a água.
A questão da água será para mim central nas próximas eleições autárquicas, ficando assim excluídos da minha opção de voto quaisquer partidos ou movimentos que não tenham sobre o tema uma posição clara e inequívoca, uma estratégia com pés e cabeça e a não considerem como uma prioridade.
Felizmente que até hoje, salvo casos pontuais, a sede do concelho não tem tido grandes problemas, quer quanto à qualidade, quer quanto ao abastecimento. Porém, se nada for feito corremos o sério risco de arranjar uma carga de trabalhos.
Por uma questão de princípio sou contra a privatização dos sistemas de abastecimento de água e da sua gestão. A absoluta importância deste elemento para a nossa existência e qualidade de vida, a sua escassez em termos de qualidade e de quantidade, a necessidade imperiosa do seu controlo e gestão, quer em termos qualitativos quer em termos quantitativos, são para mim motivos mais do que suficientes para considerar que a sua tutela deverá manter-se na esfera pública, com o que tudo isso implica de vantajoso (naturalmente exigindo-se da gestão da coisa pública critérios de rigor, racionalidade e parcimónia que, por definição, lhe deverão estar subjacentes). A água, enquanto elemento básico de sobrevivência, nunca poderá ser tratada como uma qualquer mercadoria, não podendo a sua gestão subordinar-se unicamente aos princípios do mercado cuja “livre concorrência” bem conhecemos de outras andanças (GALP, EDP, etc).
Feita esta declaração de princípios, reconheço que a resolução do problema não é fácil, sobretudo porque um sistema de abastecimento adequado às necessidades actuais e futuras de todo o concelho, racional e sustentável, implica grandes investimentos e dinheiro é coisa que também não abunda. Daí que me pareça que o assunto deva ser tratado com pinças, mas também com determinação, seriedade e criatividade.
É claro que o recurso ao fornecimento via Águas de Portugal poderá ser uma solução a encarar, se bem que na minha opinião de leigo poderá representar num futuro próximo a dependência em relação ao sector privado (não é preciso ser bruxo para adivinhar que o mais certo é a privatização a breve prazo daquela empresa pública). Por outro lado, sabendo-se como se sabe que o concelho dispõe de importantes reservas subterrâneas, seria um desperdício não rentabilizar a favor de todos, um recurso natural estratégico de que dispomos, ao contrário de outros que não têm sequer essa opção à partida.
Gostaria contudo de saber muito mais sobre a matéria e de conhecer todas as soluções técnicas disponíveis, incluindo as de natureza financeira, que permitiriam a concretização dos investimentos necessários para encarar-mos o futuro com confiança, já que quanto à decisão política, em primeira instância, é minha, através do meu voto. E disso não abdico!
 
 
* filosofo grego do séc. IV AC (não confundir com o bolseiro de Paris e delegado de propaganda médica, nosso contemporâneo).
** ficou conhecido por ter sido o primeiro homem a ter feito uma orquiectomia preventiva (remoção cirúrgica dos tintins), de forma a justificar a falta de coragem política (chamemos-lhe assim). Face à idade avançada o caso teve pouco impacto mediático, quando comparado com outros casos em que a cirurgia preventiva resultou de efectivos actos de coragem.