16/04/13

Maleitas

O
- Então doutor, acha que é grave?
- O senhor tem estado em contacto com relvas?
- Porquê doutor?
- É que o senhor está com a doença da moda: falta de força anímica.
- E tem cura?
- Há paliativos, um conselho de administração de uma grande empresa, daquelas que têm muitos negócios com o Estado.
- Mas cura mesmo, não há?
- Há, mas é um processo muito doloroso.
- Intervenção cirúrgica?
- Não. Repetir a quarta classe dos adultos e tirar o “Dr” dos cheques antes do nome do titular da conta.
- Foscasse, mas isso é desumano doutor!
- Senhor Relaxoterapeuta, eu disse que o processo era muito doloroso.
- Então por favor prescreva-me um paliativo.
- Ok. Também precisa de vaselina? É que já está a decorrer a entrega do IRS…
- Ainda tenho alguma. Comprei uma lata de cinco quilos quando assinaram o memorando com a troika.

 

04/04/13

Dia-lugar

 
Com a delicadeza habitual, Lurdes Rata passou propositadamente com a esfregona impregnada de água e detergente por cima dos meus pés, deixando sapatos e calças molhados e um rasto a lavanda e lixívia.
- Levante lá as patinhas se faz favor que eu quero lavar o chão.
- Porra Lurdes, já não se pode ler sossegado nesta casa?
- Cale-se bem caladinho que a mim paga-me é para trabalhar. Tenho de me despachar que é quase meio-dia e tenho de ir dar o almoço aos garotos. E o que é que o varrão está a ler tão entretido? Deve ser de gajas nuas e poucas vergonhas, não é?
Ignorei a afronta e respondi ajeitando os óculos na ponta do nariz:
- Estou a reler o Sermão de Santo António aos Peixes, do António Vieira.
- Ah, o gajo do Benfica. Estes homens só vêem bola à frente, chiça.
- Padre António Vieira, santa ignorância.
- Ah ele agora é padre? Pois o do Porto é papa.
- Enfim, é o país que temos… - respondi enfastiado.
- Oiça cá, está para aí com merdas, o que é que esse Vieira diz a mais do que eu?
- Queres mesmo que te leia um bocadinho para perceberes a diferença entre um pensador do século XVII e uma mulher a dias do século XXI, queres? – respondi irritado.
Lurdes Rata empertigou-se e apoiando as mãos e o queixo no cabo da esfregona tomou pose ouvinte atento.
- Sou toda ouvidos, senhor doutor da mula russa.
Coloquei a voz e comecei a leitura, imaginando-me também a pregar aos peixes.
- Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut pisces invicem se devorantes: «Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros.» Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.
Aproveitando a minha pausa para respirar, Lurdes Rata interrompeu a leitura levantando a mão direita acima do ombro.
- Alto e para o baile! P’ra mim tá bom! P’ra mim tá bom! Chega de converseta lá do século não sei quantos. Vá-se lá quilhar mais esse Vieira e os peixes que eu tenho muito que fazer.
- Não percebeste patavina, pois não Lurdes?
- E era para perceber?
 

24/03/13

Doutores de Passareira*


Ao anúncio de regresso à RTP do estrangeirado Sócrates, num espaço de “comentário político” para optimizar audiências e exponenciar os engulhos ao anémico Seguro, respondeu de pronto uma legião de virgens ofendidas, com pateada, gritinhos pré-adolescentes e petições on e off line.
Se o problema é o da legitimidade de uma estação de serviço público dar tempo de antena a asnos e a coveiros atrevidos, então as virgens têm de calibrar o ponto de mira, pois não consta que em relação a outros mamíferos do mesmo quilate a protagonizarem semelhante papel, tenham usado do mesmo critério. Aliás, o serviço público está para a RTP como o Relvas para a política – pura ficção.
É-me por isso perfeitamente indiferente que Sócrates rinche uma vez por semana com dia e hora marcados, ao vivo e a cores, porque até ver cá em casa o comando da tv ainda obedece à minha vontade. Tal como acontece com o embargo que decretei aos pasquins de jornalistas imbecis e de opinantes de sarjeta, levam todos o mesmo tratamento – cá por mim os palermas ficam a falar sozinhos.

 
* passareira - aviário (tradução para os mais perguiçosos)
 

22/03/13

Agarrem-me senão eu bato-lhe!

 
Ao contrário do que seria de esperar, e não deixa de ser paradigmático dos tempos que vivemos, as últimas sondagens demonstram à saciedade que a oposição, sobretudo a do “arco do poder”, continua sem capitalizar a seu favor o descontentamento colectivo pelo estado calamitoso a que o nosso país chegou.
As respostas a este paradigma são diversas e encontram fortes razões em fenómenos sociológicos e políticos de natureza vária.
A uma cultura cívica de reduzida exigência em relação aos políticos e às instituições, de insipiente contestação popular, de reduzida expressão e participação eleitoral e política da esmagadora maioria da sociedade civil, poderemos juntar realidades tão simples e evidentes como a falta de entendimentos à esquerda, a cumplicidade de todos (embora em graus diferenciados) no estado da nação, a falta de classe das lideranças políticas, a teia de cumplicidades entre o estado e a economia pseudo-liberal, e por aí adiante.
Há contudo para mim uma causa que se sobrepõe a todas as outras e mede-se em quilogramas, ou fracção desta objectiva unidade de medida. Refiro-me obviamente ao tamanho (peso) dos tomates.
É claro que a decisão de apresentação de uma moção de censura, que o emérito Seguro fez ontem aprovar em conclave extraordinário, se destina mais à ovação interna do que ao legítimo e urgente exercício de uma alternativa de esperança. É fácil trocar palmadinhas nos Costas por gestos inconsequentes e redundantes, face há realidade nua e crua de um hemiciclo que maioritariamente defende um governo incompetente, que vê no Estado um papel meramente assistencialista e de pseudo-regulação. Porque se o emérito realmente tivesse vontade (e capacidade) para mudar o estado das coisas, exporia toda artilharia em cima da banca e indicaria de forma clarividente o que faria de modo diferente, para além das intenções genéricas de “negociação com a troika” e de “adopção de medidas para o crescimento” que vai apregoando com olhar vago e mortíço. Mas quais e como? Qual a estratégia? Aliás, a tibieza é tal que à complexidade da pergunta - “E promoveria a descida dos impostos?” - Seguro responde com clareza sintomática - “Não me comprometo”.
E no fim de tudo isto perguntar-me-ão: mas Seguro é papável? Obviamente que sim, em função da posição anedoticamente incontestada que ocupa no seu partido e da benção que os Espírito Santo e toda a nação de anjos e arcanjos calmamente instalados na banca celestial lhe parecem reservar, face às investidas brincalhonas dos Costas. Mas claramente que não, em função da falta de qualidades políticas que demonstra e da exígua falta de peso da fruta. As sondagens demonstram-no de forma evidente. Seguro não é papável porque este tipo de produtos são facilmente perecíveis e por isso mesmo de curtíssimo prazo de validade.
Mas duma coisa estou certo, embora a validação dessa convicção esbarre na impossibilidade de o provar. Se a moção de censura tivesse consequências traduzidas na queda do governo, Seguro jamais a apresentaria. É por isso que eu estou farto de líderes com tomates cherry.
 
 

13/03/13

Caderno de Encargos I - Exemplo Prático...


… do que não se deve fazer.

 
O caso dos Cheques-Bebé

A medida pode ser boa, desde que faça sentido. Atribuir incentivos à natalidade é uma forma de tentar inverter um problema gravíssimo -o envelhecimento da população. Mas a medida pode também constituir-se como uma forma de apoio social, desde que prestada a famílias que manifestamente apresentem carências económicas. Atente-se contudo ao argumentário do actual presidente da câmara e proto-candidato do PS às próximas eleições (logo no início do vídeo).
 


 



“Apesar do Concelho ser um concelho jovem, tanto no seu nascimento como da população activa, nós necessitamos de mais pessoas aqui a residir. Com o boom da construção ficaram muitas casas para vender e é uma medida de atractibilidade para todos aqueles que nos queiram escolher como local de sua residência.”

Afinal o estímulo à procriação municipalmente assistida, destina-se a promover a venda de imóveis, em português desleixado. O nascimento de bebés em barda assume assim uma forma meramente instrumental, para escoar produto em stock, funcionando como chamariz para casais em idade fértil.
Alguns dirão que por certo o que o senhor disse não era o que queria dizer. Concedo-lhe o benefício da dúvida. Tanto mais que ele tem interesses no comércio dos inibidores de fertilidade. Resta saber se as margens do leite em pó e das tetinas são inferiores ou superiores.


12/03/13

Caderno de Encargos I


- Pode dizer-me por favor que caminho devo seguir para sair daqui?
- Isso depende muito para onde queira ir - disse o Gato.
- Não me importo muito para onde vou - respondeu Alice.
- Então qualquer caminho serve - retorquiu o Gato.
.
(diálogo retirado do livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol)
  
NOTA PRÉVIA
Obviamente que conteúdo e forma constituem um todo indissociável para efeitos de valoração do projecto ao qual atribuirei o meu voto nas próximas eleições autárquicas. Quero contudo deixar claro que não tenho qualquer reserva mental relativamente à forma de organização que corporize os diferentes projectos “a concurso”. Mas, esclareço também, que será liminarmente desqualificada qualquer forma de organização que não se assuma de cariz político e que desvalorize preconceituosamente essa matriz de desempenho.
Governar um país, uma autarquia ou uma freguesia é na sua essência fazer política, escolhas, tomar decisões. Não faria por isso qualquer sentido escolher alguém para me representar e ocupar um cargo político que não compreenda o básico. Ser o representante político dos cidadãos deverá ser sempre visto como uma forma superior de servir os outros e nunca o seu contrário, sob pena de continuarmos a desvirtuar e a desacreditar as instituições e as pessoas de bem.
 
MATÉRIA DE FACTO
É evidente que não posso aceitar votar num projecto que não saiba definir objectivos e indicar quais os caminhos a percorrer nessa direcção. Aliás, o exemplo da gestão autárquica dos últimos oito anos, é a forma acabado dessa falta de sistematização e de visão estratégica que exijo para um projecto que queira conquistar o meu voto para as próximas autárquicas.
Assim, os projectos a concurso deverão definir de uma forma geral, mas não genérica, qual a visão estratégica que defendem para o Conselho, abarcando um horizonte temporal nunca inferior a 10 anos, sendo tão precisos quanto possível na identificação do modelo de desenvolvimento humano, económico e organizativo pretendido, justificando a escolha com argumentos que a possam sustentar. Será igualmente essencial que se quantifiquem indicadores gerais de desenvolvimento, qualidade de vida e de bem-estar que se pretendem alcançar nesse horizonte temporal, tomando-os como compromisso de metas a atingir.
As generalidades e banalidades meramente descritivas, inexequíveis, sem fundamentação e sem racionalidade argumentativa, serão por mim entendidas como falta de estratégia e/ou como publicidade enganosa, estando-lhes por isso reservado o caixote do lixo.
Talvez este meu primeiro ponto do caderno encargos possa parecer redutor, vago, básico ou até pueril. Não penso que assim seja uma vez que será a pedra basilar de toda a construção. E está mais do que visto que a esmagadora maioria dos anteriores projectos a concurso não partiu deste ponto. Simplesmente pôs-se a caminho sem saber para onde ia. Tal como a Alice no País das Maravilhas.
 

06/03/13

Abrenuncia




 A procissão está no adro e desfila já a bom ritmo as novidades da próxima colecção primavera-verão-outono, exibindo em corpos Danone XXL, faustosas e berrantes casulas, luxuosas estolas e desproporcionadas mitras. Medalhas e comendas luzem.
A encabeçar o cortejo, montado no seu jerico de euro e pouco por semana, vai o flibusteiro da Trombeta do Demónio, um asnil descendente de Palma Cavalito em versão net – que os tempos são de vertigem comunicacional e os bufos bombam novidades a cada segundo - acolitado de  perto por uma rara ave de arribação, muito engraçada e folgazona, que em tempos já foi “de quase tudo” e que agora, assentada a poeira, abraçou as letras e a sofisticada arte do desmanche de carcaças de novilho e de cavalo.
A cada passo e meio lançam um foguete, a maioria de pólvora seca, recolhendo de seguida as canas para fazerem armadilhas. De quando em quando lançam nuvens de fumo e confetes, sorrindo soberba e distribuindo beijinhos de chocolate de culinária. Estão felizes e sentem-se aconchegados com a atenção que lhes dispensam.
Mais atrás os homens-bons vão-se perfilando, acotovelando, disputando a sombra do pálio, um lugar na fila da frente do consistório e a generosidade do povo que os aplaude sem entender o que se passa. O povo é assim, é generoso por natureza e não gosta de arriscar – mais vale um borracho na frigideira que dois papa-figos empoleirados na antena da televisão.
A festa promete fados e guitarradas, folclore e sevilhanas, banda filarmónica e quermesse, comes-e-bebes e benzeduras. Quanto ao resto, à árdua tarefa de fazer renascer o orgulho ferido de uma paróquia sem rumo certo e sem futuro pensado, talvez lá mais para as férias grandes, quando o povo estiver ainda mais distraído a comer tremoços e a beber minis nas Pedras Negras, pois o que interessa agora é quem vai ser o prior, o sacristão, o mordomo e o anjinho. Interessa definir com o rigor gasparino quem vai levar a bandeira, quem vai pedir esmola, tocar o sino, beijar as criancinhas e subir ao púlpito para nos maçar de tédio. O burro do presépio há muito que foi mandatado e o seu lugar não é discutível. Pena que não se enxergue, já que o pio Bento não o proscreveu tal como fez com a Cornélia.
Este filme já o vi vezes sem conta e o final não é feliz, invariavelmente traduz-se não em quem ganha mas sim em quem perde. Não se trata de mérito mas de falta dele. Por inércia, por inépcia, por falta de senso, por não se saber ver para além do umbigo untuoso e cheio de cotão. Manter as capelinhas é a maior das necessidades da alma e do corpo.
Mas eu cá por mim não vou dar abébias, não vou ser indulgente, vou fazer um caderno de encargos e dar a conhecer ponto-por-ponto o que me fará ter fé e acreditar num futuro melhor. Pois se me acusam de não ser exigente com aqueles em quem confiei, não será desta por falta de aviso. De hoje em diante vou-me dedicar a estabelecer os critérios que me farão decidir e vou dá-los a conhecer publicamente. Aqui! Não em retiros manhosos ou encontros à socapa. Aqui! À vista de todos! Aqui! Onde quem quiser pode entrar e partilhar. E depois sim, podemos ir aos Necas ou ao Fabioca mamar umas imperiais e chupar uns caracóis.
  

28/02/13

Se eu hoje pudesse dar-te um abraço




Ainda não morri !

Ainda não morri!
Embora todos os dias
morra um pedaço
e seja cada vez mais duro
o esforço que faço
para me manter inteiro,
direito,
ainda que imperfeito.

Ainda não morri!
Mas todos os dias faleço
quando tomo consciência
dos cruéis e ignóbeis preços
que se pagam à demência
prá conquista do poder,
do dinheiro,
da vaidade,
do prazer,
da exaltação do egoísmo,
descarado e sem pudor
ou mascarado de altruísmo.

Ainda não morri!
Mas vou-me sentindo um estranho,
derivando neste mundo.
Não por achá-lo imundo,
mas por nele ter mergulhado
completamente nu,
desprovido de escudo
da minha salvaguarda. 

Ainda não morri!
Mas, dia a dia, é mais árdua
tão erecta caminhada...

 
Luis Filipe Cardona

 

25/02/13

Solução Final

Quando há uns anos contei a saga da minha ída ao mercado na antiga Resinagem, propus a mim mesmo não mais voltar à vaca fria, porque a experiência tinha sido traumática e porque neste tipo de assuntos a discussão é tudo menos séria.
Manda porém a razão e o bom senso que, controlados que foram alguns dos efeitos do stress pós-traumático do atribulado episódio, com a ajuda especializada duma psicóloga fogosa e habilidosa de mãos, que me devolveu a coragem de voltar a enfrentar uma “praça” de cabeça erguida, volte por instantes ao tema para sublinhar a honestidade intelectual e até a coragem com que o ex-vereador Armando Constâncio continua a defender que o mercado municipal seja instalado no Atrium.
E se dúvidas houvessem, o facto é que continua a ser uma das poucas pessoas (a outra talvez seja moi-même) que em oito anos, repito, oito anos, continua a apresentar uma solução para aquele espaço – dar-lhe o fim para o qual foi construído. Chiça-penico, que complicação…
A verdade é que sobre este, e outros assuntos, a esmagadora maioria dos opinantes fala de cor e salteado do que não sabe nem conhece, formando opinião com base no rigor científico dos bitaites de ilustres estudiosos do tema, como o investigador bolseiro do MCI e quejandos, figuras que incontornavelmente não têm qualquer reserva mental em relação ao assunto.
Mas mais grave. A bipolaridade atingiu (e atinge) contornos tais, que os mesmos que esconjuraram a solução das barracas e que denunciavam as manobras rasteiras para a não utilização do Atrium, como a providência à cautela e o célebre estudo cuja conclusão final era o próprio mote do mesmo, arrumaram a razão na gaveta que o tio Mário lhes legou em testamento, demitiram a inteligência sem lhe pagarem qualquer indeminização, e engrossaram a horda do folclore - prometeram numa campanha de mangas arregaçadas, o fim das barracas e um terceiro mercado novinho em folha, com corta-fitas boticário e churrasco de vacas magras à discrição.
Se quiserem discutir o assunto com seriedade, aceito. Se quiserem insistir nas considerações vagas e genéricas, faço-me desentendido. Porque mesmo admitindo que houve erros, o que é absolutamente verdade, deixo no ar a questão essencial: qual é o problema inultrapassável para pôr o mercado a funcionar no Atrium? Digam-me um, apena um, que eu saio de fininho e volto de novo a procurar apoio psicológico no divã da libidinosa discípula de Freud.
A ver se é desta que isto anima.

22/02/13

Chouriço de Cavalo


Os vestígios de carne de cavalo estão por todo o lado e desvendam-se à velocidade dum já-te-foste. Comer gato por lebre é o prato do dia, vezes sem conta, e sem que o chefe vacile ou pestaneje, enquanto escreve a letra de contornos rocócó, a rica ementa que irá saciar à míngua os distraídos comensais: “lebre de Mourão em cama de grelos, e aveludado de castanhas de Carrazedo de Montenegro, cozidas ao vapor de etílicos de eleição - Touriga Nacional e Trincadeira”. O gato era o da vizinha, os grelos estão amarelos, as castanhas são made-in China e o vinho é zurrapa do Soutocico.
Noutros tempos, nos ídos em que a palavra e a honra eram o sinete com que os Homens eram marcados à nascença, ser apanhado em falso era mais que motivo para a vergonha e para uma certidão de óbito por enforcamento, assinada pelo descrédito e pelo punho do enforcado. Mas isso eram outros tempos…
Agora, prioritário mesmo é elevar, com enlevo, à condição de querubins e serafins, as réplicas de nariz tumescente de Mestre Geppetto, produzidas em série pelas máquinas de injecção partidárias e pelas máquinas de insuflação dos egos e das vaidades da sociedade civil.
É por isso que Relvas tresanda a carne de cavalo e é por isso que governo e maioria vêm em defesa da sua honra, mais alva e imaculada que o lençol duma rameira. É preciso enunciar ao povo que entoa a senha da revolução de que quando um burro fala os outros devem permanecer de orelhas murchas? É bom que não se esqueçam que Relvas tem direitos constitucionais garantidos como, a liberdade de expressão, a liberdade de opinião, as licenciaturas por correspondência em feriados e dias santos de guarda, as passagens de ano em Copacabana com os irmãos Metralha, e até, sublinhe-se, e até, a balbuciar a Grândola Vila Morena com ar de cachaceiro e sorriso cínico, enquanto o povo violenta as suas aulas de sapiência. Mas Relvas tem mais, tem o direito constitucional de meter nojo e tem o direito divino de representar os mais nutritivos e ricos preparados de carne de vaca, produzidos a partir de equídeos das melhores origens e proveniências, tudo a bem dos mercados e da credibilidade que lhes é preciso afiançar. Não importa se o povo estrebucha ou se sucumbe, se se sente esganado, extorquido ou empalado, o importante é fazer-se silêncio enquanto as guitarras trinam e o fadista relincha.
Se eu fosse José Viegas mandaria Relvas tomar com chouriço de cavalo, mas como não sou, limito-me a constatar que a carne é fraca.

 

18/02/13

A um amigo


Desde quarta-feira que não o vejo. Deixou uma nota, com uma única palavra... e um poema de Vinícius de Morais. Se o virem deixem-lhe esta mensagem do Sérgio. Vai da minha parte, com um abraço.
 
(pelo B Fachada)
 
 
 
 
 

14/02/13

Em Desacordo Ortográfico


 
Francisco José Viegas avisou o seu ex-colega de governo Paulo Núncio que, caso fosse incomodado por um “fiscal das Finanças” à porta de um qualquer estabelecimento de restauração e bebidas ou de alterne, solicitando-lhe a factura do estrago, o convidaria a “tomar no cu”.
É evidente que Francisco José Viegas, que há já algum tempo, coincidente com a sua saída do governo,  não frequenta bordéis, só disse o que disse porque é um homem letrado e ex-Secretário de Estado da Cultura, defensor do novo acordo ortográfico, preferindo assim a forma brasileira aligeirada ao incisivo vernáculo lusitano. Obviamente que se fosse eu não mandaria o dito fiscal, o seu chefe e o chefe do seu chefe “tomarem no cu” mas sim “levarem no cú”. Em português suave.
 

Chamada Geral




Não se estarão a esquecer de alguém? É que isto é malta que come muito queijo...

11/02/13

A montanha pariu um Largo


Afinal, aquilo que pareciam ser diferenças programáticas fundamentais, normais numa democracia de gente com coluna aprumada e glândulas no escroto, transformou-se, num passe de prestidigitador estagiário, numa profissão de fé à visão estratégica dum líder anémico e pusilânime, confessada numa folha de papel azul de 25 linhas prontamente assinada de cruz pelos eméritos representantes dos inúmeros aspirantes a futuros lugar-tenente de carreira, a expensas da nação e esbulho do povo.
O que o país precisava era de políticos de costas largas, costas musculadas, dispostas a correr riscos e a dar o corpo às balas, sem calculismos, sem medo de pensar e de assumir que as crises se vencem pela massa cinzenta, pela coerência, pela perseverança, pelo bom senso - isso, pelo bom senso! – invertendo a lógica que afunda os partidos num abismo que só eles próprios ainda não perceberam. É que os líderes dos partidos, e mais que potenciais representantes dos cidadãos eleitores, não são os capazes nem os competentes, são antes os que conseguem ter a meia-dúzia de militantes concelhios num bolso e os restantes poderes instalados no outro. São os gajos que dominam o aparelho, que por vezes é tão pequeno, que bastaria meia excursão de reformados para eleger um líder concelhio, distrital ou nacional, putativo candidato a alcaide, tribuno ou mesmo chefe da governança. Se tivessem a coragem de se sujeitarem a primárias, haveriam de ver o que era doce.
Só que lá como cá os Largos estão pejados de ratos que chafurdam na gamela da politiquice rasteira e no lodo da intriga, mas que saltam borda fora logo que a bombordo ou a estibordo uma vaga de maiores dimensões ameaça alagar a casa das máquinas. E o mais irónico (e curioso), é que pelos vistos o povo gosta. Gosta e pede mais.
Uma vez mais a montanha pariu um Largo. De ratos.
 

07/02/13

JOAQUIM CORREIA (1920-2013)





Caminhada

    É para além do mar a ansiedade
    De se partir, de ir e não voltar!...
    É para além das ondas sem chegar,
    Que uma voz me chega de saudade...

    É para além do mar a eternidade
    Que o infinito tem para guardar!...
    É para além das ondas a chamar
    Que sonho a vida, toda f'licidade!...

    É para além da morte o horizonte
    Que o mistério nos guarda, toda a vida,
    Quando, em suave vento, sobre o monte,

    Olhando a caminhada percorrida,
    Eu possa descansar, beber da fonte,
    E estar, novamente, de partida!...
 

José Martins Saraiva

 

06/02/13

Teste de Stress

 

La semaine dernière, enquanto no parlamento os deputados se entretinham a preparar a grelha de programas para o Canal Relvas, de novo apostada em reconquistar a lavoura, por cá a “velha guarda” escrevinhava (em jeito de…) conselhos a pataco para a “rapaziada” que tomou as dores de pôr em movimento um, movimento. Não é que o assunto não tivesse por onde discorrer, o problema é que a mão da “velha guarda” tremeu – vá-se lá saber porquê! – e o tiro de canhoeira tosca saiu mais de meia milha náutica ao lado. Mas a tragédia podia ter sido bem pior pois, não satisfeita, a “velha-guarda” virou a arma para si própria, inspeccionando de forma displicente o cano ainda fumegante. Felizmente estava descarregada e não causou mossa de maior, para além da cara mascarrada e dos colarinhos da camisa alva, maculados do mesmo negro pólvora-seca.
Se a forma foi desastrada, revelando laivos de um pré-conceito moral de superioridade próprio de quem não tem pudor em “arregimentar” a favor do seu estatuto de conselheiro contas de outros rosários, as quais exigiriam a descrição e o recato de um bom samaritano, o conteúdo não o foi menos. Afinal de contas a maioria dos conselhos oferecidos em salva de prata, mas requintadamente temperados com essência de fel e extracto de bílis, serviriam que nem uma luva para um exame de auto-crítica. É que afinal não se percebe como é que alguém que anda na política há tanto tempo, militando num partido do arco do poder, useiro e vezeiro em promessas e garantias sem fundilhos, vem agora esconjurar as juras dos outros. É que afinal não se percebe como é que alguém que conviveu com gente sem escrúpulos sedenta de tachos e de lugarzinhos, apenas o revele quando supostamente esses “vira-casacas” se passam para o outro lado. É que afinal não se percebe como é que alguém que milita num partido do arco do poder e que para além disso ganha a vida na defesa dos outros, venha sugerir que o passado revela sempre o que será o futuro, pois que o currículo e o mérito são o salvo-conduto para um lugar na boa gestão da coisa pública, como se isso fosse verdade no seu próprio partido e revelando ainda que não acredita na reinserção e na regeneração dos indivíduos. É que afinal não se percebe como é que alguém que aconselha os outros a não dizer mal se entregue a um exemplar exercício genérico de má-língua, ainda que algum concorrente na arte o possa considerar arrasador.
Fica-me contudo uma dúvida. Se ainda agora os pardais se começaram a labuzar (de forma desastrada, no modo e no conteúdo, digo eu que não pesco uma…), com os primeiros milhos e já a “velha-guarda” vem à liça para marcar território, o que não será quando o cereal começar a jorrar a granel!?...
Vamos a ver quem é que aguenta o teste.
 

05/02/13

Drogaria do Sr. Leonel

 
- Bom dia Sr. Leonel.
- Bom dia menino Relaxoterapeuta. O que é que precisas?
- A minha mãe mandou-me comprar 50 gr de bicarbonato de sódio, 10 rolhas de cortiça e um piaçaba.
- Com certeza, é para já.
- Bom dia Sr. Leonel.
- Bom dia D. Efigénia. O que vai desejar?
- Acho que tenho um rato na padaria. Hoje dei conta de um saco de farinha ratado.
- Não se preocupe D. Efigénia, tenho aqui um produto novo que vai já tratar da saúde a esse malandro.
- Bom dia Sr. Leonel.
- Bom dia menina Marquinhas. Em que lhe posso ser útil?
- Queria verniz para as unhas.
- Nem de propósito menina Marquinhas. Chegou agora mesmo uma encomenda com cores lindíssimas.
 
São estes e outros diálogos que me trazem à memória um centro da cidade com vida, com gente boa, disponível, como o Sr. Leonel.
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 @@@
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É bom que pseudo-regedores, proto-regedores e putativos encalhados não percam a noção de que o problema do centro histórico se resolve com pessoas (e com as pessoas). Tudo o resto é conversa fiada e tempo perdido. Estamos conversados.
 

04/02/13

Alvitre - Mini Remodelação


Proponho para Secretário de Estado da Administração Patrimonial e Equipamentos do Ministério da Justiça o Dr. João Vale e Azevedo e para Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais um dos irmãos Metralha. A menos que o CDS não esteja de acordo.
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25/01/13

ÁRVORES - Património (i)Material


 
 
Com a devida vénia ao seu autor (Pinhal do Rei), partilho convosco imagens que lamento profundamente. Também aqui se cumpriu o ciclo da vida...

 

23/01/13

No país da fantasia (outra vez)




Portugal, o Futebol Clube do Porto e a Lurdes Rata vão voltar aos mercados.
A Lurdes vai às barracas da Feira dos Porcos comprar "uma coivinha, duas crugetes e meio quilo de cenoiras, para fazer uma sopa para os garotos” e para se certificar que as tendas não voaram, que aguentaram estoicamente, um temporal como há muito não se via e mais quatro anos de desmando alvarista. Afinal um dos maiores alvos de chacota da anterior governação a dois tempos, passou de besta a bestial, de provisório a definitivo, enquanto o “mercado” do Atrium continua à sorte da rataria e da falta de imaginação e de vontade.
O Futebol Clube do Porto vai ao Brasil buscar um ponta-de-lança que pesa mais ou menos o mesmo que os legumes que a Lurdes Rata vai aviar, mas que resolve. Mais uma machadada na moral da lagartagem e mais uma camioneta de €uros para importar um jovem em fim de carreira. O que é preciso é apostar na produção nacional made in Brasil – não se esqueçam de que o homem é seleccionável…
E Portugal? Ah, Portugal, esse país de gente séria, trabalhadora e que sabe enfrentar as agruras com moderação, com ponderação, tirou a farpela domingueira da arca da aliança e, de súbito, vai aos mercados pedir fiado. “Há dúvidas que o país está bastante melhor com a terapia aplicada por suas eminências pardas?” – Claro que está! Claro que está!... Mas, não vá o diabo tecê-las, o melhor é pôr a bóia do patinho e umas braçadeiras por que se lhe falta o pé, nada como um sindicato bancário para assegurar que o esmoleiro não volta de mãos a abanar. "Então e se o sindicato engole um pirulito?" – perguntam os mais afoitos. No problem, uma mão lava a outra e as duas lavam o vesgo – o esmoleiro volta (mais uma vez) a esmifrar a tal gente séria, trabalhadora e moderada e resgata o sindicato - não é por acaso que eles às vezes se esquecem de declarar uns trocos que deixaram por esquecimento nas ilhas do Caimão, enquanto besuntavam de óleo de coco o alto e o baixo-ventre.
Mas, com tanta boa notícia, de que havemos nós de nos queixar? Eu não queria ser desmancha-prazeres mas, depois da papas e dos bolos, o que é que sobra? Eu digo-vos. Sobra um país em agonia, gente sem esperança, um governo que se contradiz constantemente e um “líder” da oposição que chama os jornalistas para fazer o número da foca, equilibrar uma bola na ponta do nariz enquanto bate efusivamente as barbatanas - “eu tinha razão, eu tinha avisado, era tempo de pedir mais tempo!”. Ah, já me esquecia… e sobra também um alcaide que andou quatro anos a arregaçar as mangas para pedir mais quatro, para, agora sim, mostrar o que vale. É como a dívida, precisa de mais tempo… 

  

18/01/13

Posfácio 18 do 1




 A vida é feita de opções, de actos, de vontades, de coragem, de celebrações, de rituais, de tanta, tanta coisa. Das mais simples às mais complexas. Do mais profundo altruísmo ao mais repugnante cinísmo. Pouco me importa por isso, que os homens e mulheres do 18 de Janeiro fossem anarco-sindicalistas, comunistas ou socialistas. O que se releva foi o seu espírito de luta, de quererem mudar o rumo da história, pela liberdade e por uma vida digna, e a forma convicta e desinteressada como o fizeram. É sobre isso que no dia de hoje todos deveríamos ter reflectido e tomado o exemplo. É sobre estes fundamentos de carácter cívico que deveríamos começar, para construir uma sociedade mais fraterna. Infelizmente não é o que vejo. Ou será da minha vista cansada?
 
 

14/01/13

Alvitre




E agora, um bom exemplo de como na blogosfera marinhense se fazem coisas interessantes (via Folha Seca). 


 

09/01/13

No país da fantasia




Enquanto os donos dos carrosséis e outras diversões para miúdos reclamam a diminuição da taxa do IVA, os donos dos tribunais declaram que as diversões para os adultos são arte e, como tal, têm IVA à taxa reduzida. Acho bem. Os putos que brinquem com as putas. Sempre é mais artístico…
 
 

04/01/13

O silêncio dos inocentes

 
Casal da Formiga, vinte e nove de Dezembro de 2012.
 
Cinco minutos antes da hora marcada para o jantar, ouvi um grito descendo a chaminé seguido de um estrondo na lareira. Por entre uma nuvem de cinza e fuligem, a voz rouca de um ancião, entrecortada por uma tosse irritante provocada pelas partículas em suspensão, vociferava alguns impropérios – “Foscasse! C’um caraifo! Eu já não tenho idade p’ra estas m.... caraifos!”
Tentei afastar a poeirada agitando os braços com gestos largos e estendi a mão na direcção do Pai Natal. Ignorando o meu gesto levantou-se a custo e tentou compor a farpela e a aparência, ajustando o cinto à proeminente barriga e passando as mãos pelo fato amarrotado e pela barba em desalinho. Curiosamente, o barrete intacto e imaculado continuava no seu sítio, bem fixo à cabeça grande e redonda, deixando cair grossos caracóis de cabelo grizalho que emolduravam uma cara patusca e rosada.
- Obrigado por ter acedido ao meu convite para jantar, Pai Natal – disse-lhe eu em jeito de boas-vindas.
- De nada meu rapaz, é um prazer.
Sentámo-nos à mesa e começámos a depenicar pequenos pedaços de queijo e de presunto que a Lurdes Rata tinha cortado com a delicadeza de um lenhador. Servi-lhe um tinto alentejano e indique-lhe o cesto do pão.
- Diz lá meu rapaz, o que pretendes de mim? Não te esqueças que o orçamento está curto…
Franzi o sobrolho e atirei a matar, há muito que ninguém me tratava por “meu rapaz”.
- Em primeiro lugar quero que fique bem claro que não acredito em si! Não é de agora…
O Pai Natal engoliu uma côdea e tossicou. Levou o vinho aos lábios parecendo querer ganhar tempo para responder.
- Então por que é que me convidaste para jantar?
- Convidei-o porque sei que se sente só após a azáfama do Natal. Todos se lembram de si até dia 25, a partir daí é mais um velho para as estatísticas.
- Convidaste-me então por caridade…
Deixei escapar um sorriso maroto.
- Não se preocupe que não ponho fotografias do nosso jantar no facebook.
- Agradeço a tua sinceridade mas, se não acreditas em mim como é que poderemos ter um jantar agradável? Vamos permanecer calados?
Terminei um pedaço de queijo, limpei os lábios ao guardanapo e voltei a encher os copos, retomando o diálogo.
- O facto de não acreditar em si não quer dizer que não o estime. Sei que ainda faz muita gente feliz e por isso merece toda a minha consideração. Porém, outros há em quem não consigo acreditar, não lhes reservando qualquer estima.
Desta vez foi o Pai Natal a fazer um sorriso maroto.
- Referes-te ao Passos Coelho e à pandilha? Para que conste, esse tal Gaspar chegou a trabalhar para mim como duende. Era um bocado aldrabão... conheço-o muito bem!…
- Refiro-me a todos os vendedores de ilusões que nos fazem infelizes e descrentes. Há micro-deuses por todo o lado. Nem a minha cidade escapa.
- Enganar faz parte da natureza humana. Nunca enganaste ninguém?
Fiz um ar surpreendido, procurando bem no fundo da minha consciência semelhante culpa.
- Alguns maridos talvez - respondi com a inocência do miúdo que foi apanhado a ir ao frasco dos rebuçados – mas o meu problema não são essas pequenas bagatelas – retomei - o meu problema são outros, o futuro, a dignidade das pessoas, a confiança, a esperança, a felicidade. Tudo isso nos está a ser roubado por gente incompetente que nos engana de forma descarada. Vejo a mediocridade e a incompetência serem premiadas e os mais capazes a serem despejados borda fora. Vejo muitos idiotas cheios de ideias. Estou farto! Farto!
O Pai Natal passou os dedos compridos pela barba manchada de fuligem e retorquiu com os olhos semi-cerrados - mas tu acreditas que é possível viver num mundo em que as pessoas se preocupem mais com os outros do que com elas próprias? Que ponham o bem comum acima do bem individual? Que olhem para as suas capacidades como forma de ajudar os outros? Em que os mais capazes sejam os líderes?
- Acredito, porquê?
- Ho, ho, ho! Então deixa-me que te diga uma coisa meu rapaz, tu ainda acreditas no Pai Natal!… Ho, ho , ho!
Fixei os olhos no prato e não fui capaz de replicar. A crueldade das palavras do Pai Natal abateram-se sobre mim como um cutelo. Inadvertidamente tinha dado a última machadada na réstia de ingenuidade que ainda havia no “rapaz” de cabelos grisalhos com quem partilhava a refeição, e ele sentia-o. “A verdade é tanto mais cruel quanto maior a nossa consciência da realidade” – pensei.
Concluímos a refeição sem voltarmos a abrir a boca. Despedimo-nos.
Temendo novo embaraço, insisti para que saísse pela porta da frente. Anuiu. Levou os dedos à boca e assobiou. Volvidos poucos segundos três pares de renas puxando um trenó topo de gama estacionaram em frente ao portão pequeno. Acenou-me pela última vez e despareceu na noite do Casal da Formiga.
Voltei para dentro e rememorei a canção do Zé Mário Branco:
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda
Tomei os hipnóticos do sono e deitei-me. Dormi que nem um anjo. Sonhei toda a noite com guloseimas, chupa-chupas, rebuçados, chocolates, brincadeiras de criança. E com gajas.
 

21/12/12

Solstício da treta




(Casal da Formiga – 21 de Dezembro de 2012 – 10h27m48s)

 
- Oiça cá, hoje posso-me ir embora por volta das onze?
- Porquê Lurdes? Tá para aí roupa para passar que até dói…
- Porque o mundo vai acabar e parece que vão dar em directo na TVI.
- Não estarás a fazer confusão? O programa do Medina Carreira é às segundas à noite.
- Quem é esse gajo? Medina só conheço aquele pequenito que foi penhorar as cuecas da minha comadre Ivone, quando ela não pagou a conta do talho.
- Esquece.
- Posso ou não posso?
- Ganha juízo Lurdes, o mundo não acaba hoje!
- Ó carago, como é que você sabe?
- Não sei mas desconfio. Vá, agora vai lá passar aquela camisa nova a ferro que hoje à noite tenho um jantar com uma amiga.
- É solteira ou casada?
- E o que tens tu a ver com isso?
- É que se fosse solteira, o mundo estava para acabar…
- Não me chateies!

 

18/12/12

A vida é bela

O jantar da véspera tinha-se prolongado noite adentro. Levantei-me com a cabeça a latejar e a boca a saber a papel. O esófago ainda ardia do álcool ingerido, muito para além do recomendável. Dirigi-me ao lava-louça, servi-me dum copo de água e sentei-me à mesa. Em cima da toalha, tingida de nódoas de molho, de vinho e de excessos, permanecia uma pilha desordenada de louça suja, garrafas vazias e migalhas. Por entre as migalhas duas ou três formigas transportavam despreocupadas, alimento. Levantei a mão e com uma palmada certeira esmaguei-as – não tardaria que as três exploradoras se transformassem num carreiro de laboriosas recolectoras de desperdícios, justifiquei.
Fixei o olhos no vazio da cozinha e dei-me conta da tragédia humana. Uma lágrima grossa rolou inadvertidamente do olho esquerdo, o mais preguiçoso. Não somos nada, não valemos nada. Ainda há pouco três formigas passeavam por entre as migalhas, indiferentes à sua vulnerabilidade. A vida é um estado transitório e a morte é a outra face da moeda cujo valor não se afere, apenas se sente. E basta um momento, uma fracção de segundo, um frame. Fatal. E depois? Depois vem alguém sacudir as migalhas da toalha e lamentar os desperdícios. O amor permanece mas a ausência física é uma dor quase impossível de suportar. “Que grande porra!”
Dirigi-me de novo ao lava-louça, despejei a água que ainda enchia meio copo, abri uma garrafa de vinho e voltei a fazer o que tínhamos feito na véspera, vezes sem conta, brindei a todos os meus amigos, aos que estão e aos que gostariam de ainda estar. Ergui o copo e rememorei todos os momentos, um por um – “A vida é bela! À vossa…”

11/12/12

Pequeno Conto

 
Desde que fiz da rua, casa, após ter sido abandonado à minha sorte ainda muito jovem, que acordo invariavelmente com a mesma sensação de estomago vazio. É por isso que, há já um ror de anos - não sei precisar quantos - cumpro religiosamente o mesmo ritual ao dealbar do dia, quando os primeiros raios da manhã fundem o cizento-negro da noite, procuro no contentor mais próximo qualquer coisa para me matar a fome e para serenar os músculos rígidos e retesados do frio e da geada da noite.
Mas os tempos não estão fáceis. Até no lixo se nota que o país enfrenta uma grave crise. Encontrar côdeas de pão, ossos ou restos de comida é cada vez mais raro e mais disputado.
Tenho um amigo que diz gostar de ver as traseiras das casas e dos prédios, pois dessa forma compreende melhor como as pessoas são e como vivem. É um ponto de vista interessante. Apenas acrescentaria que no lixo também se percebe como as pessoas enfrentam o dia-a-dia. Em tempos de fartura o desperdício é uma coisa que vocês não imaginam.
Viver na rua não é fácil. Os olhos remelosos e o aspecto sujo e desleixado não abonam em meu favor e por isso, não raras vezes sou corrido pelo meu aspecto. Eu sei que nos dias de hoje a imagem é extremamente importante. Fundamental, até. Mas será que alguém já se questionou que, não tendo eu pedido para nascer, sou à partida prejudicado pelo que não tenho nem aparento? Mas, mais profundo. E será que alguém já se questionou se por detrás deste aspecto miserável não poderão existir atributos tão raros nos dias que correm como, a doçura, a cumplicidade, a lealdade?
Eu sei que pode parecer estranho alguém na minha condição ter este tipo de devaneios introspectivos. Distúrbios. Nada mais errado. São apenas pensamentos que fluem como flui o sangue, os dias ou até mesmo a fantasia.
Não tenho muitos amigos. Amigos mesmo – quero eu dizer. Uns dois ou três, talvez. Mas tenho um especial. É muito mais velho do que eu e diz que nunca trocaria a rua, a sua liberdade, pelo conforto de uma “prisão”. E eu, só para o picar, costumo perguntar-lhe – de que te serve a tua liberdade se tens fome, se passas frio, se és escorraçado por viveres na rua?- e ele, cioso dos seus princípios, costuma olhar-me com aquele ar superior de quem já passou muito na vida e responde  – de que serve não teres fome, nem frio e tudo o resto, se não tiveres liberdade?
Mas do que eu gosto mesmo é ir ver os velhos jogar às cartas nos bancos de pedra do jardim. Às vezes até me chego a eles. Nunca me maltrataram. A vida ensinou-lhes muito…
Inimigos? Tenho um! Pelo menos. Chama-se Gaspar e gosta de gozar comigo. Corre que se farta e nunca o consegui apanhar. Diz que tem sete vidas e talvez por isso pense que a forma desleixada como vive e age não tem consequências. Talvez um dia tenha azar.
Bom, agora vou ter de me ir embora. Vem aí o parvalhão Chico-Zé, um puto mimado e tolo que se costuma divertir a correr-me à pedrada. Um dia hei-de apanhá-lo desprevenido e mordo-lhe as canelas. Não me chame eu Faísca!...
Ser cão não é nada fácil. Vocês me dirão.