28/02/13

Se eu hoje pudesse dar-te um abraço




Ainda não morri !

Ainda não morri!
Embora todos os dias
morra um pedaço
e seja cada vez mais duro
o esforço que faço
para me manter inteiro,
direito,
ainda que imperfeito.

Ainda não morri!
Mas todos os dias faleço
quando tomo consciência
dos cruéis e ignóbeis preços
que se pagam à demência
prá conquista do poder,
do dinheiro,
da vaidade,
do prazer,
da exaltação do egoísmo,
descarado e sem pudor
ou mascarado de altruísmo.

Ainda não morri!
Mas vou-me sentindo um estranho,
derivando neste mundo.
Não por achá-lo imundo,
mas por nele ter mergulhado
completamente nu,
desprovido de escudo
da minha salvaguarda. 

Ainda não morri!
Mas, dia a dia, é mais árdua
tão erecta caminhada...

 
Luis Filipe Cardona

 

25/02/13

Solução Final

Quando há uns anos contei a saga da minha ída ao mercado na antiga Resinagem, propus a mim mesmo não mais voltar à vaca fria, porque a experiência tinha sido traumática e porque neste tipo de assuntos a discussão é tudo menos séria.
Manda porém a razão e o bom senso que, controlados que foram alguns dos efeitos do stress pós-traumático do atribulado episódio, com a ajuda especializada duma psicóloga fogosa e habilidosa de mãos, que me devolveu a coragem de voltar a enfrentar uma “praça” de cabeça erguida, volte por instantes ao tema para sublinhar a honestidade intelectual e até a coragem com que o ex-vereador Armando Constâncio continua a defender que o mercado municipal seja instalado no Atrium.
E se dúvidas houvessem, o facto é que continua a ser uma das poucas pessoas (a outra talvez seja moi-même) que em oito anos, repito, oito anos, continua a apresentar uma solução para aquele espaço – dar-lhe o fim para o qual foi construído. Chiça-penico, que complicação…
A verdade é que sobre este, e outros assuntos, a esmagadora maioria dos opinantes fala de cor e salteado do que não sabe nem conhece, formando opinião com base no rigor científico dos bitaites de ilustres estudiosos do tema, como o investigador bolseiro do MCI e quejandos, figuras que incontornavelmente não têm qualquer reserva mental em relação ao assunto.
Mas mais grave. A bipolaridade atingiu (e atinge) contornos tais, que os mesmos que esconjuraram a solução das barracas e que denunciavam as manobras rasteiras para a não utilização do Atrium, como a providência à cautela e o célebre estudo cuja conclusão final era o próprio mote do mesmo, arrumaram a razão na gaveta que o tio Mário lhes legou em testamento, demitiram a inteligência sem lhe pagarem qualquer indeminização, e engrossaram a horda do folclore - prometeram numa campanha de mangas arregaçadas, o fim das barracas e um terceiro mercado novinho em folha, com corta-fitas boticário e churrasco de vacas magras à discrição.
Se quiserem discutir o assunto com seriedade, aceito. Se quiserem insistir nas considerações vagas e genéricas, faço-me desentendido. Porque mesmo admitindo que houve erros, o que é absolutamente verdade, deixo no ar a questão essencial: qual é o problema inultrapassável para pôr o mercado a funcionar no Atrium? Digam-me um, apena um, que eu saio de fininho e volto de novo a procurar apoio psicológico no divã da libidinosa discípula de Freud.
A ver se é desta que isto anima.

22/02/13

Chouriço de Cavalo


Os vestígios de carne de cavalo estão por todo o lado e desvendam-se à velocidade dum já-te-foste. Comer gato por lebre é o prato do dia, vezes sem conta, e sem que o chefe vacile ou pestaneje, enquanto escreve a letra de contornos rocócó, a rica ementa que irá saciar à míngua os distraídos comensais: “lebre de Mourão em cama de grelos, e aveludado de castanhas de Carrazedo de Montenegro, cozidas ao vapor de etílicos de eleição - Touriga Nacional e Trincadeira”. O gato era o da vizinha, os grelos estão amarelos, as castanhas são made-in China e o vinho é zurrapa do Soutocico.
Noutros tempos, nos ídos em que a palavra e a honra eram o sinete com que os Homens eram marcados à nascença, ser apanhado em falso era mais que motivo para a vergonha e para uma certidão de óbito por enforcamento, assinada pelo descrédito e pelo punho do enforcado. Mas isso eram outros tempos…
Agora, prioritário mesmo é elevar, com enlevo, à condição de querubins e serafins, as réplicas de nariz tumescente de Mestre Geppetto, produzidas em série pelas máquinas de injecção partidárias e pelas máquinas de insuflação dos egos e das vaidades da sociedade civil.
É por isso que Relvas tresanda a carne de cavalo e é por isso que governo e maioria vêm em defesa da sua honra, mais alva e imaculada que o lençol duma rameira. É preciso enunciar ao povo que entoa a senha da revolução de que quando um burro fala os outros devem permanecer de orelhas murchas? É bom que não se esqueçam que Relvas tem direitos constitucionais garantidos como, a liberdade de expressão, a liberdade de opinião, as licenciaturas por correspondência em feriados e dias santos de guarda, as passagens de ano em Copacabana com os irmãos Metralha, e até, sublinhe-se, e até, a balbuciar a Grândola Vila Morena com ar de cachaceiro e sorriso cínico, enquanto o povo violenta as suas aulas de sapiência. Mas Relvas tem mais, tem o direito constitucional de meter nojo e tem o direito divino de representar os mais nutritivos e ricos preparados de carne de vaca, produzidos a partir de equídeos das melhores origens e proveniências, tudo a bem dos mercados e da credibilidade que lhes é preciso afiançar. Não importa se o povo estrebucha ou se sucumbe, se se sente esganado, extorquido ou empalado, o importante é fazer-se silêncio enquanto as guitarras trinam e o fadista relincha.
Se eu fosse José Viegas mandaria Relvas tomar com chouriço de cavalo, mas como não sou, limito-me a constatar que a carne é fraca.

 

18/02/13

A um amigo


Desde quarta-feira que não o vejo. Deixou uma nota, com uma única palavra... e um poema de Vinícius de Morais. Se o virem deixem-lhe esta mensagem do Sérgio. Vai da minha parte, com um abraço.
 
(pelo B Fachada)
 
 
 
 
 

14/02/13

Em Desacordo Ortográfico


 
Francisco José Viegas avisou o seu ex-colega de governo Paulo Núncio que, caso fosse incomodado por um “fiscal das Finanças” à porta de um qualquer estabelecimento de restauração e bebidas ou de alterne, solicitando-lhe a factura do estrago, o convidaria a “tomar no cu”.
É evidente que Francisco José Viegas, que há já algum tempo, coincidente com a sua saída do governo,  não frequenta bordéis, só disse o que disse porque é um homem letrado e ex-Secretário de Estado da Cultura, defensor do novo acordo ortográfico, preferindo assim a forma brasileira aligeirada ao incisivo vernáculo lusitano. Obviamente que se fosse eu não mandaria o dito fiscal, o seu chefe e o chefe do seu chefe “tomarem no cu” mas sim “levarem no cú”. Em português suave.
 

Chamada Geral




Não se estarão a esquecer de alguém? É que isto é malta que come muito queijo...

11/02/13

A montanha pariu um Largo


Afinal, aquilo que pareciam ser diferenças programáticas fundamentais, normais numa democracia de gente com coluna aprumada e glândulas no escroto, transformou-se, num passe de prestidigitador estagiário, numa profissão de fé à visão estratégica dum líder anémico e pusilânime, confessada numa folha de papel azul de 25 linhas prontamente assinada de cruz pelos eméritos representantes dos inúmeros aspirantes a futuros lugar-tenente de carreira, a expensas da nação e esbulho do povo.
O que o país precisava era de políticos de costas largas, costas musculadas, dispostas a correr riscos e a dar o corpo às balas, sem calculismos, sem medo de pensar e de assumir que as crises se vencem pela massa cinzenta, pela coerência, pela perseverança, pelo bom senso - isso, pelo bom senso! – invertendo a lógica que afunda os partidos num abismo que só eles próprios ainda não perceberam. É que os líderes dos partidos, e mais que potenciais representantes dos cidadãos eleitores, não são os capazes nem os competentes, são antes os que conseguem ter a meia-dúzia de militantes concelhios num bolso e os restantes poderes instalados no outro. São os gajos que dominam o aparelho, que por vezes é tão pequeno, que bastaria meia excursão de reformados para eleger um líder concelhio, distrital ou nacional, putativo candidato a alcaide, tribuno ou mesmo chefe da governança. Se tivessem a coragem de se sujeitarem a primárias, haveriam de ver o que era doce.
Só que lá como cá os Largos estão pejados de ratos que chafurdam na gamela da politiquice rasteira e no lodo da intriga, mas que saltam borda fora logo que a bombordo ou a estibordo uma vaga de maiores dimensões ameaça alagar a casa das máquinas. E o mais irónico (e curioso), é que pelos vistos o povo gosta. Gosta e pede mais.
Uma vez mais a montanha pariu um Largo. De ratos.
 

07/02/13

JOAQUIM CORREIA (1920-2013)





Caminhada

    É para além do mar a ansiedade
    De se partir, de ir e não voltar!...
    É para além das ondas sem chegar,
    Que uma voz me chega de saudade...

    É para além do mar a eternidade
    Que o infinito tem para guardar!...
    É para além das ondas a chamar
    Que sonho a vida, toda f'licidade!...

    É para além da morte o horizonte
    Que o mistério nos guarda, toda a vida,
    Quando, em suave vento, sobre o monte,

    Olhando a caminhada percorrida,
    Eu possa descansar, beber da fonte,
    E estar, novamente, de partida!...
 

José Martins Saraiva

 

06/02/13

Teste de Stress

 

La semaine dernière, enquanto no parlamento os deputados se entretinham a preparar a grelha de programas para o Canal Relvas, de novo apostada em reconquistar a lavoura, por cá a “velha guarda” escrevinhava (em jeito de…) conselhos a pataco para a “rapaziada” que tomou as dores de pôr em movimento um, movimento. Não é que o assunto não tivesse por onde discorrer, o problema é que a mão da “velha guarda” tremeu – vá-se lá saber porquê! – e o tiro de canhoeira tosca saiu mais de meia milha náutica ao lado. Mas a tragédia podia ter sido bem pior pois, não satisfeita, a “velha-guarda” virou a arma para si própria, inspeccionando de forma displicente o cano ainda fumegante. Felizmente estava descarregada e não causou mossa de maior, para além da cara mascarrada e dos colarinhos da camisa alva, maculados do mesmo negro pólvora-seca.
Se a forma foi desastrada, revelando laivos de um pré-conceito moral de superioridade próprio de quem não tem pudor em “arregimentar” a favor do seu estatuto de conselheiro contas de outros rosários, as quais exigiriam a descrição e o recato de um bom samaritano, o conteúdo não o foi menos. Afinal de contas a maioria dos conselhos oferecidos em salva de prata, mas requintadamente temperados com essência de fel e extracto de bílis, serviriam que nem uma luva para um exame de auto-crítica. É que afinal não se percebe como é que alguém que anda na política há tanto tempo, militando num partido do arco do poder, useiro e vezeiro em promessas e garantias sem fundilhos, vem agora esconjurar as juras dos outros. É que afinal não se percebe como é que alguém que conviveu com gente sem escrúpulos sedenta de tachos e de lugarzinhos, apenas o revele quando supostamente esses “vira-casacas” se passam para o outro lado. É que afinal não se percebe como é que alguém que milita num partido do arco do poder e que para além disso ganha a vida na defesa dos outros, venha sugerir que o passado revela sempre o que será o futuro, pois que o currículo e o mérito são o salvo-conduto para um lugar na boa gestão da coisa pública, como se isso fosse verdade no seu próprio partido e revelando ainda que não acredita na reinserção e na regeneração dos indivíduos. É que afinal não se percebe como é que alguém que aconselha os outros a não dizer mal se entregue a um exemplar exercício genérico de má-língua, ainda que algum concorrente na arte o possa considerar arrasador.
Fica-me contudo uma dúvida. Se ainda agora os pardais se começaram a labuzar (de forma desastrada, no modo e no conteúdo, digo eu que não pesco uma…), com os primeiros milhos e já a “velha-guarda” vem à liça para marcar território, o que não será quando o cereal começar a jorrar a granel!?...
Vamos a ver quem é que aguenta o teste.
 

05/02/13

Drogaria do Sr. Leonel

 
- Bom dia Sr. Leonel.
- Bom dia menino Relaxoterapeuta. O que é que precisas?
- A minha mãe mandou-me comprar 50 gr de bicarbonato de sódio, 10 rolhas de cortiça e um piaçaba.
- Com certeza, é para já.
- Bom dia Sr. Leonel.
- Bom dia D. Efigénia. O que vai desejar?
- Acho que tenho um rato na padaria. Hoje dei conta de um saco de farinha ratado.
- Não se preocupe D. Efigénia, tenho aqui um produto novo que vai já tratar da saúde a esse malandro.
- Bom dia Sr. Leonel.
- Bom dia menina Marquinhas. Em que lhe posso ser útil?
- Queria verniz para as unhas.
- Nem de propósito menina Marquinhas. Chegou agora mesmo uma encomenda com cores lindíssimas.
 
São estes e outros diálogos que me trazem à memória um centro da cidade com vida, com gente boa, disponível, como o Sr. Leonel.
.
 @@@
.
É bom que pseudo-regedores, proto-regedores e putativos encalhados não percam a noção de que o problema do centro histórico se resolve com pessoas (e com as pessoas). Tudo o resto é conversa fiada e tempo perdido. Estamos conversados.
 

04/02/13

Alvitre - Mini Remodelação


Proponho para Secretário de Estado da Administração Patrimonial e Equipamentos do Ministério da Justiça o Dr. João Vale e Azevedo e para Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais um dos irmãos Metralha. A menos que o CDS não esteja de acordo.
.
.

25/01/13

ÁRVORES - Património (i)Material


 
 
Com a devida vénia ao seu autor (Pinhal do Rei), partilho convosco imagens que lamento profundamente. Também aqui se cumpriu o ciclo da vida...

 

23/01/13

No país da fantasia (outra vez)




Portugal, o Futebol Clube do Porto e a Lurdes Rata vão voltar aos mercados.
A Lurdes vai às barracas da Feira dos Porcos comprar "uma coivinha, duas crugetes e meio quilo de cenoiras, para fazer uma sopa para os garotos” e para se certificar que as tendas não voaram, que aguentaram estoicamente, um temporal como há muito não se via e mais quatro anos de desmando alvarista. Afinal um dos maiores alvos de chacota da anterior governação a dois tempos, passou de besta a bestial, de provisório a definitivo, enquanto o “mercado” do Atrium continua à sorte da rataria e da falta de imaginação e de vontade.
O Futebol Clube do Porto vai ao Brasil buscar um ponta-de-lança que pesa mais ou menos o mesmo que os legumes que a Lurdes Rata vai aviar, mas que resolve. Mais uma machadada na moral da lagartagem e mais uma camioneta de €uros para importar um jovem em fim de carreira. O que é preciso é apostar na produção nacional made in Brasil – não se esqueçam de que o homem é seleccionável…
E Portugal? Ah, Portugal, esse país de gente séria, trabalhadora e que sabe enfrentar as agruras com moderação, com ponderação, tirou a farpela domingueira da arca da aliança e, de súbito, vai aos mercados pedir fiado. “Há dúvidas que o país está bastante melhor com a terapia aplicada por suas eminências pardas?” – Claro que está! Claro que está!... Mas, não vá o diabo tecê-las, o melhor é pôr a bóia do patinho e umas braçadeiras por que se lhe falta o pé, nada como um sindicato bancário para assegurar que o esmoleiro não volta de mãos a abanar. "Então e se o sindicato engole um pirulito?" – perguntam os mais afoitos. No problem, uma mão lava a outra e as duas lavam o vesgo – o esmoleiro volta (mais uma vez) a esmifrar a tal gente séria, trabalhadora e moderada e resgata o sindicato - não é por acaso que eles às vezes se esquecem de declarar uns trocos que deixaram por esquecimento nas ilhas do Caimão, enquanto besuntavam de óleo de coco o alto e o baixo-ventre.
Mas, com tanta boa notícia, de que havemos nós de nos queixar? Eu não queria ser desmancha-prazeres mas, depois da papas e dos bolos, o que é que sobra? Eu digo-vos. Sobra um país em agonia, gente sem esperança, um governo que se contradiz constantemente e um “líder” da oposição que chama os jornalistas para fazer o número da foca, equilibrar uma bola na ponta do nariz enquanto bate efusivamente as barbatanas - “eu tinha razão, eu tinha avisado, era tempo de pedir mais tempo!”. Ah, já me esquecia… e sobra também um alcaide que andou quatro anos a arregaçar as mangas para pedir mais quatro, para, agora sim, mostrar o que vale. É como a dívida, precisa de mais tempo… 

  

18/01/13

Posfácio 18 do 1




 A vida é feita de opções, de actos, de vontades, de coragem, de celebrações, de rituais, de tanta, tanta coisa. Das mais simples às mais complexas. Do mais profundo altruísmo ao mais repugnante cinísmo. Pouco me importa por isso, que os homens e mulheres do 18 de Janeiro fossem anarco-sindicalistas, comunistas ou socialistas. O que se releva foi o seu espírito de luta, de quererem mudar o rumo da história, pela liberdade e por uma vida digna, e a forma convicta e desinteressada como o fizeram. É sobre isso que no dia de hoje todos deveríamos ter reflectido e tomado o exemplo. É sobre estes fundamentos de carácter cívico que deveríamos começar, para construir uma sociedade mais fraterna. Infelizmente não é o que vejo. Ou será da minha vista cansada?
 
 

14/01/13

Alvitre




E agora, um bom exemplo de como na blogosfera marinhense se fazem coisas interessantes (via Folha Seca). 


 

09/01/13

No país da fantasia




Enquanto os donos dos carrosséis e outras diversões para miúdos reclamam a diminuição da taxa do IVA, os donos dos tribunais declaram que as diversões para os adultos são arte e, como tal, têm IVA à taxa reduzida. Acho bem. Os putos que brinquem com as putas. Sempre é mais artístico…
 
 

04/01/13

O silêncio dos inocentes

 
Casal da Formiga, vinte e nove de Dezembro de 2012.
 
Cinco minutos antes da hora marcada para o jantar, ouvi um grito descendo a chaminé seguido de um estrondo na lareira. Por entre uma nuvem de cinza e fuligem, a voz rouca de um ancião, entrecortada por uma tosse irritante provocada pelas partículas em suspensão, vociferava alguns impropérios – “Foscasse! C’um caraifo! Eu já não tenho idade p’ra estas m.... caraifos!”
Tentei afastar a poeirada agitando os braços com gestos largos e estendi a mão na direcção do Pai Natal. Ignorando o meu gesto levantou-se a custo e tentou compor a farpela e a aparência, ajustando o cinto à proeminente barriga e passando as mãos pelo fato amarrotado e pela barba em desalinho. Curiosamente, o barrete intacto e imaculado continuava no seu sítio, bem fixo à cabeça grande e redonda, deixando cair grossos caracóis de cabelo grizalho que emolduravam uma cara patusca e rosada.
- Obrigado por ter acedido ao meu convite para jantar, Pai Natal – disse-lhe eu em jeito de boas-vindas.
- De nada meu rapaz, é um prazer.
Sentámo-nos à mesa e começámos a depenicar pequenos pedaços de queijo e de presunto que a Lurdes Rata tinha cortado com a delicadeza de um lenhador. Servi-lhe um tinto alentejano e indique-lhe o cesto do pão.
- Diz lá meu rapaz, o que pretendes de mim? Não te esqueças que o orçamento está curto…
Franzi o sobrolho e atirei a matar, há muito que ninguém me tratava por “meu rapaz”.
- Em primeiro lugar quero que fique bem claro que não acredito em si! Não é de agora…
O Pai Natal engoliu uma côdea e tossicou. Levou o vinho aos lábios parecendo querer ganhar tempo para responder.
- Então por que é que me convidaste para jantar?
- Convidei-o porque sei que se sente só após a azáfama do Natal. Todos se lembram de si até dia 25, a partir daí é mais um velho para as estatísticas.
- Convidaste-me então por caridade…
Deixei escapar um sorriso maroto.
- Não se preocupe que não ponho fotografias do nosso jantar no facebook.
- Agradeço a tua sinceridade mas, se não acreditas em mim como é que poderemos ter um jantar agradável? Vamos permanecer calados?
Terminei um pedaço de queijo, limpei os lábios ao guardanapo e voltei a encher os copos, retomando o diálogo.
- O facto de não acreditar em si não quer dizer que não o estime. Sei que ainda faz muita gente feliz e por isso merece toda a minha consideração. Porém, outros há em quem não consigo acreditar, não lhes reservando qualquer estima.
Desta vez foi o Pai Natal a fazer um sorriso maroto.
- Referes-te ao Passos Coelho e à pandilha? Para que conste, esse tal Gaspar chegou a trabalhar para mim como duende. Era um bocado aldrabão... conheço-o muito bem!…
- Refiro-me a todos os vendedores de ilusões que nos fazem infelizes e descrentes. Há micro-deuses por todo o lado. Nem a minha cidade escapa.
- Enganar faz parte da natureza humana. Nunca enganaste ninguém?
Fiz um ar surpreendido, procurando bem no fundo da minha consciência semelhante culpa.
- Alguns maridos talvez - respondi com a inocência do miúdo que foi apanhado a ir ao frasco dos rebuçados – mas o meu problema não são essas pequenas bagatelas – retomei - o meu problema são outros, o futuro, a dignidade das pessoas, a confiança, a esperança, a felicidade. Tudo isso nos está a ser roubado por gente incompetente que nos engana de forma descarada. Vejo a mediocridade e a incompetência serem premiadas e os mais capazes a serem despejados borda fora. Vejo muitos idiotas cheios de ideias. Estou farto! Farto!
O Pai Natal passou os dedos compridos pela barba manchada de fuligem e retorquiu com os olhos semi-cerrados - mas tu acreditas que é possível viver num mundo em que as pessoas se preocupem mais com os outros do que com elas próprias? Que ponham o bem comum acima do bem individual? Que olhem para as suas capacidades como forma de ajudar os outros? Em que os mais capazes sejam os líderes?
- Acredito, porquê?
- Ho, ho, ho! Então deixa-me que te diga uma coisa meu rapaz, tu ainda acreditas no Pai Natal!… Ho, ho , ho!
Fixei os olhos no prato e não fui capaz de replicar. A crueldade das palavras do Pai Natal abateram-se sobre mim como um cutelo. Inadvertidamente tinha dado a última machadada na réstia de ingenuidade que ainda havia no “rapaz” de cabelos grisalhos com quem partilhava a refeição, e ele sentia-o. “A verdade é tanto mais cruel quanto maior a nossa consciência da realidade” – pensei.
Concluímos a refeição sem voltarmos a abrir a boca. Despedimo-nos.
Temendo novo embaraço, insisti para que saísse pela porta da frente. Anuiu. Levou os dedos à boca e assobiou. Volvidos poucos segundos três pares de renas puxando um trenó topo de gama estacionaram em frente ao portão pequeno. Acenou-me pela última vez e despareceu na noite do Casal da Formiga.
Voltei para dentro e rememorei a canção do Zé Mário Branco:
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda
Tomei os hipnóticos do sono e deitei-me. Dormi que nem um anjo. Sonhei toda a noite com guloseimas, chupa-chupas, rebuçados, chocolates, brincadeiras de criança. E com gajas.
 

21/12/12

Solstício da treta




(Casal da Formiga – 21 de Dezembro de 2012 – 10h27m48s)

 
- Oiça cá, hoje posso-me ir embora por volta das onze?
- Porquê Lurdes? Tá para aí roupa para passar que até dói…
- Porque o mundo vai acabar e parece que vão dar em directo na TVI.
- Não estarás a fazer confusão? O programa do Medina Carreira é às segundas à noite.
- Quem é esse gajo? Medina só conheço aquele pequenito que foi penhorar as cuecas da minha comadre Ivone, quando ela não pagou a conta do talho.
- Esquece.
- Posso ou não posso?
- Ganha juízo Lurdes, o mundo não acaba hoje!
- Ó carago, como é que você sabe?
- Não sei mas desconfio. Vá, agora vai lá passar aquela camisa nova a ferro que hoje à noite tenho um jantar com uma amiga.
- É solteira ou casada?
- E o que tens tu a ver com isso?
- É que se fosse solteira, o mundo estava para acabar…
- Não me chateies!

 

18/12/12

A vida é bela

O jantar da véspera tinha-se prolongado noite adentro. Levantei-me com a cabeça a latejar e a boca a saber a papel. O esófago ainda ardia do álcool ingerido, muito para além do recomendável. Dirigi-me ao lava-louça, servi-me dum copo de água e sentei-me à mesa. Em cima da toalha, tingida de nódoas de molho, de vinho e de excessos, permanecia uma pilha desordenada de louça suja, garrafas vazias e migalhas. Por entre as migalhas duas ou três formigas transportavam despreocupadas, alimento. Levantei a mão e com uma palmada certeira esmaguei-as – não tardaria que as três exploradoras se transformassem num carreiro de laboriosas recolectoras de desperdícios, justifiquei.
Fixei o olhos no vazio da cozinha e dei-me conta da tragédia humana. Uma lágrima grossa rolou inadvertidamente do olho esquerdo, o mais preguiçoso. Não somos nada, não valemos nada. Ainda há pouco três formigas passeavam por entre as migalhas, indiferentes à sua vulnerabilidade. A vida é um estado transitório e a morte é a outra face da moeda cujo valor não se afere, apenas se sente. E basta um momento, uma fracção de segundo, um frame. Fatal. E depois? Depois vem alguém sacudir as migalhas da toalha e lamentar os desperdícios. O amor permanece mas a ausência física é uma dor quase impossível de suportar. “Que grande porra!”
Dirigi-me de novo ao lava-louça, despejei a água que ainda enchia meio copo, abri uma garrafa de vinho e voltei a fazer o que tínhamos feito na véspera, vezes sem conta, brindei a todos os meus amigos, aos que estão e aos que gostariam de ainda estar. Ergui o copo e rememorei todos os momentos, um por um – “A vida é bela! À vossa…”

11/12/12

Pequeno Conto

 
Desde que fiz da rua, casa, após ter sido abandonado à minha sorte ainda muito jovem, que acordo invariavelmente com a mesma sensação de estomago vazio. É por isso que, há já um ror de anos - não sei precisar quantos - cumpro religiosamente o mesmo ritual ao dealbar do dia, quando os primeiros raios da manhã fundem o cizento-negro da noite, procuro no contentor mais próximo qualquer coisa para me matar a fome e para serenar os músculos rígidos e retesados do frio e da geada da noite.
Mas os tempos não estão fáceis. Até no lixo se nota que o país enfrenta uma grave crise. Encontrar côdeas de pão, ossos ou restos de comida é cada vez mais raro e mais disputado.
Tenho um amigo que diz gostar de ver as traseiras das casas e dos prédios, pois dessa forma compreende melhor como as pessoas são e como vivem. É um ponto de vista interessante. Apenas acrescentaria que no lixo também se percebe como as pessoas enfrentam o dia-a-dia. Em tempos de fartura o desperdício é uma coisa que vocês não imaginam.
Viver na rua não é fácil. Os olhos remelosos e o aspecto sujo e desleixado não abonam em meu favor e por isso, não raras vezes sou corrido pelo meu aspecto. Eu sei que nos dias de hoje a imagem é extremamente importante. Fundamental, até. Mas será que alguém já se questionou que, não tendo eu pedido para nascer, sou à partida prejudicado pelo que não tenho nem aparento? Mas, mais profundo. E será que alguém já se questionou se por detrás deste aspecto miserável não poderão existir atributos tão raros nos dias que correm como, a doçura, a cumplicidade, a lealdade?
Eu sei que pode parecer estranho alguém na minha condição ter este tipo de devaneios introspectivos. Distúrbios. Nada mais errado. São apenas pensamentos que fluem como flui o sangue, os dias ou até mesmo a fantasia.
Não tenho muitos amigos. Amigos mesmo – quero eu dizer. Uns dois ou três, talvez. Mas tenho um especial. É muito mais velho do que eu e diz que nunca trocaria a rua, a sua liberdade, pelo conforto de uma “prisão”. E eu, só para o picar, costumo perguntar-lhe – de que te serve a tua liberdade se tens fome, se passas frio, se és escorraçado por viveres na rua?- e ele, cioso dos seus princípios, costuma olhar-me com aquele ar superior de quem já passou muito na vida e responde  – de que serve não teres fome, nem frio e tudo o resto, se não tiveres liberdade?
Mas do que eu gosto mesmo é ir ver os velhos jogar às cartas nos bancos de pedra do jardim. Às vezes até me chego a eles. Nunca me maltrataram. A vida ensinou-lhes muito…
Inimigos? Tenho um! Pelo menos. Chama-se Gaspar e gosta de gozar comigo. Corre que se farta e nunca o consegui apanhar. Diz que tem sete vidas e talvez por isso pense que a forma desleixada como vive e age não tem consequências. Talvez um dia tenha azar.
Bom, agora vou ter de me ir embora. Vem aí o parvalhão Chico-Zé, um puto mimado e tolo que se costuma divertir a correr-me à pedrada. Um dia hei-de apanhá-lo desprevenido e mordo-lhe as canelas. Não me chame eu Faísca!...
Ser cão não é nada fácil. Vocês me dirão.
 

28/11/12

O silêncio não tem preço






“Quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão”
(popular)
 
Há muito que se sabia, de viva voz, que o Sr. Silva passava privações. Os cortes aplicados aos parcos rendimentos do ex-professor, ex-alto quadro do Banco de Portugal, ex-primeiro-ministro, ex-colecionador de estigmas (do mar, da agricultura e da indústria), ex-político-que-nunca-foi-político, ex-coisa-nenhuma, entre outros números de circo, levaram-no a suspirar alto, há já algum tempo atrás, que o que recebia mal dava para pagar as despesas. C’um caneco! Aliás, os sinais exteriores de indigência já se tinham manifestado em 1993, aquando da construção da marquise da Travessa do Possolo, emblemática obra de fachada com direito a uma “atençãozinha” por parte do empreiteiro, uma acanhada mas funcional assoalhada forrada a azulejos Viúva Lamego, herméticamente fechada a alumínio lacado, com persianas em pvc antifúngico, destinada a acomodar Maria, que ao tempo costurava e passava a ferro para fora, como de forma de compor o rendimento familiar. Mais tarde dedicar-se-ia à venda de produtos da Avon, por catálogo.
Porém, a semana passada ficámos a saber muito mais. Ficámos a saber que o silêncio do sr. Silva é de ouro e por isso sujeito à cotação dos mercados. Upa, upa...
Como o seu amigo Mestre Gaspar (de cognome “O Caolho”), vidente diplomado e adivinho de reconhecidos méritos vaticinou que o preço do ouro irá subir em flecha a partir de meados de 2013, a par da recuperação da economia da colónia mais ocidental da Alemanha, o sovina Silva aguarda por melhores dias para vender o seu silêncio a peso d’ouro e fazer um bom pé-de-meia, já que o requentado António Sala, também abordado sobre um possível interesse na compra do vil mutismo, apenas oferecia uma bagatela. “Publicidade enganosa” – comentou o sr. Silva após a abordagem falhada ao antigo despertador da rádio.
Mas o mais irónico é que a semana passada o sr. Silva quebrou o precioso silêncio para explicar o próprio silêncio, através de um investimento de alto risco numa carreira de comediante, pondo em causa a sua credibilidade e a sua magistratura em troca de umas míseras gargalhadas desdenhosas, no Clube dos Jornalistas. Acto-contínuo, a cotação do seu silêncio desceu a pique e a decência perdeu-se na vulgaridade do texto, mal decorado, provavelmente encomendado ao mesmo guionista do emblemático filme de Marcelo “A Marcha dos Parolos”.
Silva falou para não dizer nada, avisou. Silva falou convencido que estava a ser engraçado, mas não teve piada. Silva não percebeu que a sua miserável interpretação do monólogo da reflexão esconde a mais cruel das realidades – o seu silêncio é cúmplice de um vergonhoso golpe de estado e de um despudorado atentado à democracia representativa e à Constituição da República. A “refundação do estado” levada a cabo administrativamente por funcionários subalternos do sindicato bancário que nos resgatou do lodo, com a cumplicidade de Passos & Ca., tem tanto de inaceitável como de perverso. Não perceber isto é não perceber os fundamentos do nosso estado democrático, e o sr. Silva, que aproveitou da democracia representativa para ser eleito, que jurou defender a Constituição, que berrou garantir o regular funcionamento das instituições e a representatividade institucional de todos os portugueses, diverte-se a postar à peça os seus estados de alma no facebook e a brincar aos aprendizes de entretainer.
É certo que a situação é muito delicada e que o país precisa de alguma serenidade para reflectir o que de bom urge replicar e o que de mau tem de eliminar. É um facto. Mas também é um facto que a redistribuição da riqueza, a assunção da responsabilidade por garantir as mais básicas condições de igualdade, a regulação do interesse privado face à preeminência do bem colectivo, tudo factores que permitem a coesão social e o estado de paz que temos vivido, não podem ser decididos em reuniões de avaliação com funcionários dos credores, pois que, ao contrário dos mercados, a democracia tem regras. Pena que o sr. Silva também ainda as não tenha percebido.
Se é pago para ser presidente, pois que se dedique a essas tarefas e deixe as piadolas de mau gosto para subalternos de quinta linha como eu. Se acha que ganha pouco para a função, pois que saia da sua zona de conforto e emigre.

 
 

26/11/12

Frontino



Dirigindo-se aos que têm defendido a renegociação do acordo com a troika e a quem afirma que já foi ultrapassado o limite para os sacrifícios impostos aos portugueses, Passos Coelho deixou uma mensagem clara:renegociar é sempre um mau negócio.
 
 
É claro que se o sr. Coelho pudesse, decretava que a palavra maldita (renegociar) fosse banida do dicionário e mandava fazer lápides de mármore, em barda, uma para cada contribuinte, com os seguintes  dizeres: “Aqui jaz mais um resistente à renegociação!”.
Se fosse “no meu tempo”, o sr. Coelho, que se julga um bom aluno mas que manifesta graves problemas de aprendizagem, enfrentaria o resto da classe com umas orelhas de burro, de dimensão generosa, a encimar a cabeçorra vacuosa que ostenta com a vaidade saloia de um pelintra euro-subordinado.
Mas, como os tempos são outros e a pedo-psicologia aconselha que a humilhação não faça parte do processo de integração dos cábulas, aconselho, para trabalho de casa, que escreva vinte vezes o seguinte texto, retirado de um site da sua subordinada CGD que, em relação ao sobreendividamento das famílias reza o seguinte:
.
O sobreendividamento acontece quando o devedor está impossibilitado de proceder ao pagamento de uma ou mais dívidas, pois o montante total de créditos contraídos é superior ao rendimento mensal. Tanto pode surgir em épocas de elevado crescimento económico e taxas de desemprego baixas, como em alturas de crise e défices orçamentais elevados, como a época actual em que nos encontramos.
Este fenómeno causa instabilidade nas famílias não só a nível financeiro, mas também a nível social e emocional.
O primeiro passo e o mais importante a fazer é dirigir-se ao banco onde contraiu o crédito, expor o seu problema e tentar renegociar algumas condições contratuais tais como: spread, valor da prestação mensal ou o prazo e chegar a acordo sobre um plano de pagamentos compatível com o seu vencimento. Nenhum banco tem interesse em deter crédito malparado nos seus balanços, por isso é do seu interesse e do interesse do cliente, encontrarem em conjunto um plano de regularização da dívida que seja exequível para ambas as partes.
 
Claro como água…
 

16/11/12

Entrelinhas





- Lurdes, estás chateada comigo?
- Não!
- De certeza?
- Outra vez? Foscasse! Sou da Várzea mas não sou pessoa de ficar a remoer as coisas.
-  Ó Lurdes, tu és mesmo rata...


15/11/12

Notas Finais



Acabada a festa pá, é hora de desmontar a tenda e de fazer os agradecimentos da praxe. (Vamos a ver se não me esqueço de ninguém!...)
Em primeiro lugar gostaria de agradecer à nossa Constituição o facto de ainda permitir o direito à greve. Até instruções em contrário, continua portanto muito generosa.
Depois, gostaria de agradecer ao Professor Doutor Silva, especialista em redes sociais e uma espécie de fiscal de linha da república (que vai sinalizando todos os perigos enquanto assobia aquela do “ó malhão, malhão”), o facto de ter trabalhado todo o santo dia, desdobrando-se em contactos com o seu homólogo da Colômbia no sentido de, no futuro, promover o aumento do produto (palavras dele). Aplaudo! Já eram horas do país largar os decadentes cogumelos alucinogéneos e apostar nas plantas medicinais colombianas.
Em terceiro, uma palavra muito especial para o professor Passos, nosso abençoado líder, que, de forma ponderada e avisada como é sempre seu timbre, enalteceu as virtudes do trabalho, teceu loas aos desempregados que expiam o pecado colectivo de termos vivido acima das nossas possibilidades, e que sobretudo nos recordou que as greves são como o consumo de álcool – pode ser, … mas com moderação. Com moderação. Juizinho.
Queria também agradecer aos energúmenos e aos agitadores que destruíram património público e privado, terem desviado as atenções do facto político do dia, oferecendo aos media as parangonas que vendem e as imagens que chocam. Muito, mas mesmo muito obrigado, suas bestas.
Ao senhor ministro da Administração Interna, que elogiou a descrição e a ternura com que os agentes da autoridade receberam durante cerca de duas horas, milhares de exemplares de calçada portuguesa, oferecidos por diligentes manifestantes como forma de compensar os simpáticos polícias pelos cortes nos subsídios de férias e de Natal.
E por último, gostaria também de agradecer ao governo a forma séria e auto-crítica como analisou esta manifestação de descontentamento, tirando dela as correspondentes conclusões, mas não posso. Não posso porque o governo não teve tempo para o fazer. Parece que os ministros estiveram entretidos a projectar cenários macro e a fazer projecções. Fiáveis. Em excel.
Será que me esqueci de alguém?

 

10/11/12

Concertação Disfuncional






Quarta-feira de manhã, deveriam ser umas oito e meia, nove horas, estava eu a vestir-me após a higiene matinal, quando, de supetão, Lurdes Rata me entra quarto-a-dentro, de aspirador, pano do pó e língua afiada, apanhando-me de chicharro pendurado. Procurei cobrir as vergonhas com o que tinha à mão, uma peúga.
- Então? Já não se bate à porta? – perguntei eu sentindo as bochechas roborizarem e a incomodidade do bicho que continuava ao léu em mais de um terço, espreitando com ar apalermado por de trás da peúga 42, de biqueira reforçada.
- Deixe lá, não se preocupe que estou habituada a ver misérias – respondeu pronta a sopeira, vigiando a fera adormecida pelo canto do olho. Não fosse o diabo tecê-las...
- Miséria? Miséria? Isso é na Grécia, nós cá não temos disso, quanto muito temos fome.
- Olha, olha… e a fome não é miséria? – retorquiu Lurdes com irritação.
Não cedi.
- Miséria é outra coisa. A fome mata-se, todos ajudam e a coisa fica resolvida – respondi procurando mostrar indiferença.
- Pois olhe, fique sabendo que aquilo que me paga é tão pouco que miséria é haver dias em que quero dar de comer aos meus garotos e não tenho. Você não sabe o que é a necessidade. Você ainda não percebeu que só o continuo a aturar porque preciso? Devia viver com o que eu vivo para saber o que era doce.
Matreira, Lurdes tentava conquistar-me um sentimento de pena. Ttinha de reagir sem vacilar - Se calhar querias comer bifes todos os dias, não? – retorqui.
Lurde virou-me costas. Não contendo as lágrimas ligou o aspirador, ignorando-me naquela triste figura.
Aproveitando a aberta, alcancei a toalha de cima da cama e cobri-me da cintura para baixo. Obviamente que o pranto de Lurdes era para me amaciar. As mulheres têm destas coisas, sabem como provocar sentimentos num homem. Contudo, a situação não se compadecia com momentos de fraqueza. Retomei o diálogo procurando que a concertação levasse Lurdes Rata a perceber o que realmente estava em causa. Procurei um registo melodramático e recomecei.
- Olha Lurdes, vê se percebes uma coisa. A vida está muito difícil para todos e se não te pago mais é porque não posso. Aliás, tenho… temos, queria eu dizer, de refund… ou melhor, reorganizar as taref… - Lurdes cortou-me a palavra, lançando-me um olhar de desdém.
- Gaste menos em viagens, em vinhos, em presuntos e nessas merdas todas, que já tem mais dinheiro para me pagar.
Lurdes não percebia o óbvio, tive de lhe explicar tentando manter a calma institucional e o registo monocórdico do professor que ensina o bê-á-bá aos putos.
- Não estás a compreender. Daquilo que eu recebo, isso que tu dizes são amendoins, a maior parte vai para te pagar. A maior parte da despesa que tenho é contigo. Se quero reduzir as despesas tenho de te pagar menos, poi há coisas de que não posso prescindir, tenho de manter alguma qualidade de vida. Se eu quero poupar para trocar de carro ou outra coisa do género, tenho de te pagar menos. Custa dizer isto mas é a verdade e, infelizmente,  a única alternativa. Percebes o que eu quero dizer?
- Não é não! Não é não! Há outra alternativa e sabe qual é? Passa você a fazer o comer, a lavar a roupa e a limpar a merda que faz. Percebeu o que eu disse?
Lurdes virou costas e deixou-me enrolado à toalha de chicharro pendurado. O pobre bicho parecia não perceber peva do que se estava a passar. Senti-me incompreendido. Estranhamente, um forte amargo a fel invadiu-me a boca e a alma. Corri à cozinha a abrir uma Pêra-Manca de 2005, para me tirar o gosto. Um vinho excepcional. Por momentos senti-me um pequeno burguês.
 
 

06/11/12

Afectos



 
Esta noite, enquanto aguardava pela Última Sessão da SIC Notícias com a película de suspanse "Até o Barack Abana", entretive-me a ver um programa onde figuravam, entre outros bitaiteiros, a Senhora Dona Manuela. À pergunta da sensual Ana Lourenço sobre se haveria alternativas para ultrapassar a crise, sem ser rumo ao precipício, Dona Manuela respondeu dixit: "Há sempre alternativas. Em democracia há sempre alternativas."
Quem diria que ao fim de todos estes anos eu iria sentir simpatia pela senhora. Abençoada crise...
 
 

03/11/12

VIDRO - Património Imaterial




 
Sobre esta notícia que há já alguns dias foi publicada no Região de Leiria, não ouvi um lamento, um comentário, um ai. Os autarcas mantiveram-se sossegados, os sindicatos mudos, a sociedade dita civil, tão generosa em comentários pífios na blogosfera e nas redes sociais, não pestanejou. Estamos apenas a um pequeno passo duma tragédia anunciada, estamos apenas a uma fração de tempo do abismo. Dentro em breve não restará entre nós um único mestre vidreiro, um único lapidário, um único pintor, um único colhedor, um único aprendiz. Apenas restarão memórias.
Quem não percebe da importância cultural deste precioso património que é a arte do vidro, não percebe a identidade deste povo. Não percebe que esta foi uma arte agregadora do nosso tecido social durante décadas, não percebe a dureza do trabalho que moldou consciências, não percebe o legado que foi transmitido com orgulho de pais para filhos, não percebe o significado da fusão dos materiais e do espírito criador, não percebe a nossa essência.
Sei que em grande medida as “leis de mercado” iniciaram o processo de extinção e que a estupidez dos homens fez o resto. Contudo, o património imaterial representado pela arte do vidro é um bem demasiado precioso para que dele possamos abdicar sem qualquer rebate de consciência.
Não tenho soluções milagrosas, mas considero ser uma obrigação de todos os Marinhenses tentarmos até ao limite preservar a nossa identidade colectiva. Por isso, esta era uma discussão que gostaria de ver alargada a todos, sobretudo em véspera dos bastidores se agitarem com galopins, curisoso e outros trampolineiros, peritos na boçal arte de encanar a perna à rã e de discutir o acessório.
É urgente fazer qualquer coisa. Ou será que já é tarde de mais?