04/01/13

O silêncio dos inocentes

 
Casal da Formiga, vinte e nove de Dezembro de 2012.
 
Cinco minutos antes da hora marcada para o jantar, ouvi um grito descendo a chaminé seguido de um estrondo na lareira. Por entre uma nuvem de cinza e fuligem, a voz rouca de um ancião, entrecortada por uma tosse irritante provocada pelas partículas em suspensão, vociferava alguns impropérios – “Foscasse! C’um caraifo! Eu já não tenho idade p’ra estas m.... caraifos!”
Tentei afastar a poeirada agitando os braços com gestos largos e estendi a mão na direcção do Pai Natal. Ignorando o meu gesto levantou-se a custo e tentou compor a farpela e a aparência, ajustando o cinto à proeminente barriga e passando as mãos pelo fato amarrotado e pela barba em desalinho. Curiosamente, o barrete intacto e imaculado continuava no seu sítio, bem fixo à cabeça grande e redonda, deixando cair grossos caracóis de cabelo grizalho que emolduravam uma cara patusca e rosada.
- Obrigado por ter acedido ao meu convite para jantar, Pai Natal – disse-lhe eu em jeito de boas-vindas.
- De nada meu rapaz, é um prazer.
Sentámo-nos à mesa e começámos a depenicar pequenos pedaços de queijo e de presunto que a Lurdes Rata tinha cortado com a delicadeza de um lenhador. Servi-lhe um tinto alentejano e indique-lhe o cesto do pão.
- Diz lá meu rapaz, o que pretendes de mim? Não te esqueças que o orçamento está curto…
Franzi o sobrolho e atirei a matar, há muito que ninguém me tratava por “meu rapaz”.
- Em primeiro lugar quero que fique bem claro que não acredito em si! Não é de agora…
O Pai Natal engoliu uma côdea e tossicou. Levou o vinho aos lábios parecendo querer ganhar tempo para responder.
- Então por que é que me convidaste para jantar?
- Convidei-o porque sei que se sente só após a azáfama do Natal. Todos se lembram de si até dia 25, a partir daí é mais um velho para as estatísticas.
- Convidaste-me então por caridade…
Deixei escapar um sorriso maroto.
- Não se preocupe que não ponho fotografias do nosso jantar no facebook.
- Agradeço a tua sinceridade mas, se não acreditas em mim como é que poderemos ter um jantar agradável? Vamos permanecer calados?
Terminei um pedaço de queijo, limpei os lábios ao guardanapo e voltei a encher os copos, retomando o diálogo.
- O facto de não acreditar em si não quer dizer que não o estime. Sei que ainda faz muita gente feliz e por isso merece toda a minha consideração. Porém, outros há em quem não consigo acreditar, não lhes reservando qualquer estima.
Desta vez foi o Pai Natal a fazer um sorriso maroto.
- Referes-te ao Passos Coelho e à pandilha? Para que conste, esse tal Gaspar chegou a trabalhar para mim como duende. Era um bocado aldrabão... conheço-o muito bem!…
- Refiro-me a todos os vendedores de ilusões que nos fazem infelizes e descrentes. Há micro-deuses por todo o lado. Nem a minha cidade escapa.
- Enganar faz parte da natureza humana. Nunca enganaste ninguém?
Fiz um ar surpreendido, procurando bem no fundo da minha consciência semelhante culpa.
- Alguns maridos talvez - respondi com a inocência do miúdo que foi apanhado a ir ao frasco dos rebuçados – mas o meu problema não são essas pequenas bagatelas – retomei - o meu problema são outros, o futuro, a dignidade das pessoas, a confiança, a esperança, a felicidade. Tudo isso nos está a ser roubado por gente incompetente que nos engana de forma descarada. Vejo a mediocridade e a incompetência serem premiadas e os mais capazes a serem despejados borda fora. Vejo muitos idiotas cheios de ideias. Estou farto! Farto!
O Pai Natal passou os dedos compridos pela barba manchada de fuligem e retorquiu com os olhos semi-cerrados - mas tu acreditas que é possível viver num mundo em que as pessoas se preocupem mais com os outros do que com elas próprias? Que ponham o bem comum acima do bem individual? Que olhem para as suas capacidades como forma de ajudar os outros? Em que os mais capazes sejam os líderes?
- Acredito, porquê?
- Ho, ho, ho! Então deixa-me que te diga uma coisa meu rapaz, tu ainda acreditas no Pai Natal!… Ho, ho , ho!
Fixei os olhos no prato e não fui capaz de replicar. A crueldade das palavras do Pai Natal abateram-se sobre mim como um cutelo. Inadvertidamente tinha dado a última machadada na réstia de ingenuidade que ainda havia no “rapaz” de cabelos grisalhos com quem partilhava a refeição, e ele sentia-o. “A verdade é tanto mais cruel quanto maior a nossa consciência da realidade” – pensei.
Concluímos a refeição sem voltarmos a abrir a boca. Despedimo-nos.
Temendo novo embaraço, insisti para que saísse pela porta da frente. Anuiu. Levou os dedos à boca e assobiou. Volvidos poucos segundos três pares de renas puxando um trenó topo de gama estacionaram em frente ao portão pequeno. Acenou-me pela última vez e despareceu na noite do Casal da Formiga.
Voltei para dentro e rememorei a canção do Zé Mário Branco:
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda
Tomei os hipnóticos do sono e deitei-me. Dormi que nem um anjo. Sonhei toda a noite com guloseimas, chupa-chupas, rebuçados, chocolates, brincadeiras de criança. E com gajas.
 

21/12/12

Solstício da treta




(Casal da Formiga – 21 de Dezembro de 2012 – 10h27m48s)

 
- Oiça cá, hoje posso-me ir embora por volta das onze?
- Porquê Lurdes? Tá para aí roupa para passar que até dói…
- Porque o mundo vai acabar e parece que vão dar em directo na TVI.
- Não estarás a fazer confusão? O programa do Medina Carreira é às segundas à noite.
- Quem é esse gajo? Medina só conheço aquele pequenito que foi penhorar as cuecas da minha comadre Ivone, quando ela não pagou a conta do talho.
- Esquece.
- Posso ou não posso?
- Ganha juízo Lurdes, o mundo não acaba hoje!
- Ó carago, como é que você sabe?
- Não sei mas desconfio. Vá, agora vai lá passar aquela camisa nova a ferro que hoje à noite tenho um jantar com uma amiga.
- É solteira ou casada?
- E o que tens tu a ver com isso?
- É que se fosse solteira, o mundo estava para acabar…
- Não me chateies!

 

18/12/12

A vida é bela

O jantar da véspera tinha-se prolongado noite adentro. Levantei-me com a cabeça a latejar e a boca a saber a papel. O esófago ainda ardia do álcool ingerido, muito para além do recomendável. Dirigi-me ao lava-louça, servi-me dum copo de água e sentei-me à mesa. Em cima da toalha, tingida de nódoas de molho, de vinho e de excessos, permanecia uma pilha desordenada de louça suja, garrafas vazias e migalhas. Por entre as migalhas duas ou três formigas transportavam despreocupadas, alimento. Levantei a mão e com uma palmada certeira esmaguei-as – não tardaria que as três exploradoras se transformassem num carreiro de laboriosas recolectoras de desperdícios, justifiquei.
Fixei o olhos no vazio da cozinha e dei-me conta da tragédia humana. Uma lágrima grossa rolou inadvertidamente do olho esquerdo, o mais preguiçoso. Não somos nada, não valemos nada. Ainda há pouco três formigas passeavam por entre as migalhas, indiferentes à sua vulnerabilidade. A vida é um estado transitório e a morte é a outra face da moeda cujo valor não se afere, apenas se sente. E basta um momento, uma fracção de segundo, um frame. Fatal. E depois? Depois vem alguém sacudir as migalhas da toalha e lamentar os desperdícios. O amor permanece mas a ausência física é uma dor quase impossível de suportar. “Que grande porra!”
Dirigi-me de novo ao lava-louça, despejei a água que ainda enchia meio copo, abri uma garrafa de vinho e voltei a fazer o que tínhamos feito na véspera, vezes sem conta, brindei a todos os meus amigos, aos que estão e aos que gostariam de ainda estar. Ergui o copo e rememorei todos os momentos, um por um – “A vida é bela! À vossa…”

11/12/12

Pequeno Conto

 
Desde que fiz da rua, casa, após ter sido abandonado à minha sorte ainda muito jovem, que acordo invariavelmente com a mesma sensação de estomago vazio. É por isso que, há já um ror de anos - não sei precisar quantos - cumpro religiosamente o mesmo ritual ao dealbar do dia, quando os primeiros raios da manhã fundem o cizento-negro da noite, procuro no contentor mais próximo qualquer coisa para me matar a fome e para serenar os músculos rígidos e retesados do frio e da geada da noite.
Mas os tempos não estão fáceis. Até no lixo se nota que o país enfrenta uma grave crise. Encontrar côdeas de pão, ossos ou restos de comida é cada vez mais raro e mais disputado.
Tenho um amigo que diz gostar de ver as traseiras das casas e dos prédios, pois dessa forma compreende melhor como as pessoas são e como vivem. É um ponto de vista interessante. Apenas acrescentaria que no lixo também se percebe como as pessoas enfrentam o dia-a-dia. Em tempos de fartura o desperdício é uma coisa que vocês não imaginam.
Viver na rua não é fácil. Os olhos remelosos e o aspecto sujo e desleixado não abonam em meu favor e por isso, não raras vezes sou corrido pelo meu aspecto. Eu sei que nos dias de hoje a imagem é extremamente importante. Fundamental, até. Mas será que alguém já se questionou que, não tendo eu pedido para nascer, sou à partida prejudicado pelo que não tenho nem aparento? Mas, mais profundo. E será que alguém já se questionou se por detrás deste aspecto miserável não poderão existir atributos tão raros nos dias que correm como, a doçura, a cumplicidade, a lealdade?
Eu sei que pode parecer estranho alguém na minha condição ter este tipo de devaneios introspectivos. Distúrbios. Nada mais errado. São apenas pensamentos que fluem como flui o sangue, os dias ou até mesmo a fantasia.
Não tenho muitos amigos. Amigos mesmo – quero eu dizer. Uns dois ou três, talvez. Mas tenho um especial. É muito mais velho do que eu e diz que nunca trocaria a rua, a sua liberdade, pelo conforto de uma “prisão”. E eu, só para o picar, costumo perguntar-lhe – de que te serve a tua liberdade se tens fome, se passas frio, se és escorraçado por viveres na rua?- e ele, cioso dos seus princípios, costuma olhar-me com aquele ar superior de quem já passou muito na vida e responde  – de que serve não teres fome, nem frio e tudo o resto, se não tiveres liberdade?
Mas do que eu gosto mesmo é ir ver os velhos jogar às cartas nos bancos de pedra do jardim. Às vezes até me chego a eles. Nunca me maltrataram. A vida ensinou-lhes muito…
Inimigos? Tenho um! Pelo menos. Chama-se Gaspar e gosta de gozar comigo. Corre que se farta e nunca o consegui apanhar. Diz que tem sete vidas e talvez por isso pense que a forma desleixada como vive e age não tem consequências. Talvez um dia tenha azar.
Bom, agora vou ter de me ir embora. Vem aí o parvalhão Chico-Zé, um puto mimado e tolo que se costuma divertir a correr-me à pedrada. Um dia hei-de apanhá-lo desprevenido e mordo-lhe as canelas. Não me chame eu Faísca!...
Ser cão não é nada fácil. Vocês me dirão.
 

28/11/12

O silêncio não tem preço






“Quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão”
(popular)
 
Há muito que se sabia, de viva voz, que o Sr. Silva passava privações. Os cortes aplicados aos parcos rendimentos do ex-professor, ex-alto quadro do Banco de Portugal, ex-primeiro-ministro, ex-colecionador de estigmas (do mar, da agricultura e da indústria), ex-político-que-nunca-foi-político, ex-coisa-nenhuma, entre outros números de circo, levaram-no a suspirar alto, há já algum tempo atrás, que o que recebia mal dava para pagar as despesas. C’um caneco! Aliás, os sinais exteriores de indigência já se tinham manifestado em 1993, aquando da construção da marquise da Travessa do Possolo, emblemática obra de fachada com direito a uma “atençãozinha” por parte do empreiteiro, uma acanhada mas funcional assoalhada forrada a azulejos Viúva Lamego, herméticamente fechada a alumínio lacado, com persianas em pvc antifúngico, destinada a acomodar Maria, que ao tempo costurava e passava a ferro para fora, como de forma de compor o rendimento familiar. Mais tarde dedicar-se-ia à venda de produtos da Avon, por catálogo.
Porém, a semana passada ficámos a saber muito mais. Ficámos a saber que o silêncio do sr. Silva é de ouro e por isso sujeito à cotação dos mercados. Upa, upa...
Como o seu amigo Mestre Gaspar (de cognome “O Caolho”), vidente diplomado e adivinho de reconhecidos méritos vaticinou que o preço do ouro irá subir em flecha a partir de meados de 2013, a par da recuperação da economia da colónia mais ocidental da Alemanha, o sovina Silva aguarda por melhores dias para vender o seu silêncio a peso d’ouro e fazer um bom pé-de-meia, já que o requentado António Sala, também abordado sobre um possível interesse na compra do vil mutismo, apenas oferecia uma bagatela. “Publicidade enganosa” – comentou o sr. Silva após a abordagem falhada ao antigo despertador da rádio.
Mas o mais irónico é que a semana passada o sr. Silva quebrou o precioso silêncio para explicar o próprio silêncio, através de um investimento de alto risco numa carreira de comediante, pondo em causa a sua credibilidade e a sua magistratura em troca de umas míseras gargalhadas desdenhosas, no Clube dos Jornalistas. Acto-contínuo, a cotação do seu silêncio desceu a pique e a decência perdeu-se na vulgaridade do texto, mal decorado, provavelmente encomendado ao mesmo guionista do emblemático filme de Marcelo “A Marcha dos Parolos”.
Silva falou para não dizer nada, avisou. Silva falou convencido que estava a ser engraçado, mas não teve piada. Silva não percebeu que a sua miserável interpretação do monólogo da reflexão esconde a mais cruel das realidades – o seu silêncio é cúmplice de um vergonhoso golpe de estado e de um despudorado atentado à democracia representativa e à Constituição da República. A “refundação do estado” levada a cabo administrativamente por funcionários subalternos do sindicato bancário que nos resgatou do lodo, com a cumplicidade de Passos & Ca., tem tanto de inaceitável como de perverso. Não perceber isto é não perceber os fundamentos do nosso estado democrático, e o sr. Silva, que aproveitou da democracia representativa para ser eleito, que jurou defender a Constituição, que berrou garantir o regular funcionamento das instituições e a representatividade institucional de todos os portugueses, diverte-se a postar à peça os seus estados de alma no facebook e a brincar aos aprendizes de entretainer.
É certo que a situação é muito delicada e que o país precisa de alguma serenidade para reflectir o que de bom urge replicar e o que de mau tem de eliminar. É um facto. Mas também é um facto que a redistribuição da riqueza, a assunção da responsabilidade por garantir as mais básicas condições de igualdade, a regulação do interesse privado face à preeminência do bem colectivo, tudo factores que permitem a coesão social e o estado de paz que temos vivido, não podem ser decididos em reuniões de avaliação com funcionários dos credores, pois que, ao contrário dos mercados, a democracia tem regras. Pena que o sr. Silva também ainda as não tenha percebido.
Se é pago para ser presidente, pois que se dedique a essas tarefas e deixe as piadolas de mau gosto para subalternos de quinta linha como eu. Se acha que ganha pouco para a função, pois que saia da sua zona de conforto e emigre.

 
 

26/11/12

Frontino



Dirigindo-se aos que têm defendido a renegociação do acordo com a troika e a quem afirma que já foi ultrapassado o limite para os sacrifícios impostos aos portugueses, Passos Coelho deixou uma mensagem clara:renegociar é sempre um mau negócio.
 
 
É claro que se o sr. Coelho pudesse, decretava que a palavra maldita (renegociar) fosse banida do dicionário e mandava fazer lápides de mármore, em barda, uma para cada contribuinte, com os seguintes  dizeres: “Aqui jaz mais um resistente à renegociação!”.
Se fosse “no meu tempo”, o sr. Coelho, que se julga um bom aluno mas que manifesta graves problemas de aprendizagem, enfrentaria o resto da classe com umas orelhas de burro, de dimensão generosa, a encimar a cabeçorra vacuosa que ostenta com a vaidade saloia de um pelintra euro-subordinado.
Mas, como os tempos são outros e a pedo-psicologia aconselha que a humilhação não faça parte do processo de integração dos cábulas, aconselho, para trabalho de casa, que escreva vinte vezes o seguinte texto, retirado de um site da sua subordinada CGD que, em relação ao sobreendividamento das famílias reza o seguinte:
.
O sobreendividamento acontece quando o devedor está impossibilitado de proceder ao pagamento de uma ou mais dívidas, pois o montante total de créditos contraídos é superior ao rendimento mensal. Tanto pode surgir em épocas de elevado crescimento económico e taxas de desemprego baixas, como em alturas de crise e défices orçamentais elevados, como a época actual em que nos encontramos.
Este fenómeno causa instabilidade nas famílias não só a nível financeiro, mas também a nível social e emocional.
O primeiro passo e o mais importante a fazer é dirigir-se ao banco onde contraiu o crédito, expor o seu problema e tentar renegociar algumas condições contratuais tais como: spread, valor da prestação mensal ou o prazo e chegar a acordo sobre um plano de pagamentos compatível com o seu vencimento. Nenhum banco tem interesse em deter crédito malparado nos seus balanços, por isso é do seu interesse e do interesse do cliente, encontrarem em conjunto um plano de regularização da dívida que seja exequível para ambas as partes.
 
Claro como água…
 

16/11/12

Entrelinhas





- Lurdes, estás chateada comigo?
- Não!
- De certeza?
- Outra vez? Foscasse! Sou da Várzea mas não sou pessoa de ficar a remoer as coisas.
-  Ó Lurdes, tu és mesmo rata...


15/11/12

Notas Finais



Acabada a festa pá, é hora de desmontar a tenda e de fazer os agradecimentos da praxe. (Vamos a ver se não me esqueço de ninguém!...)
Em primeiro lugar gostaria de agradecer à nossa Constituição o facto de ainda permitir o direito à greve. Até instruções em contrário, continua portanto muito generosa.
Depois, gostaria de agradecer ao Professor Doutor Silva, especialista em redes sociais e uma espécie de fiscal de linha da república (que vai sinalizando todos os perigos enquanto assobia aquela do “ó malhão, malhão”), o facto de ter trabalhado todo o santo dia, desdobrando-se em contactos com o seu homólogo da Colômbia no sentido de, no futuro, promover o aumento do produto (palavras dele). Aplaudo! Já eram horas do país largar os decadentes cogumelos alucinogéneos e apostar nas plantas medicinais colombianas.
Em terceiro, uma palavra muito especial para o professor Passos, nosso abençoado líder, que, de forma ponderada e avisada como é sempre seu timbre, enalteceu as virtudes do trabalho, teceu loas aos desempregados que expiam o pecado colectivo de termos vivido acima das nossas possibilidades, e que sobretudo nos recordou que as greves são como o consumo de álcool – pode ser, … mas com moderação. Com moderação. Juizinho.
Queria também agradecer aos energúmenos e aos agitadores que destruíram património público e privado, terem desviado as atenções do facto político do dia, oferecendo aos media as parangonas que vendem e as imagens que chocam. Muito, mas mesmo muito obrigado, suas bestas.
Ao senhor ministro da Administração Interna, que elogiou a descrição e a ternura com que os agentes da autoridade receberam durante cerca de duas horas, milhares de exemplares de calçada portuguesa, oferecidos por diligentes manifestantes como forma de compensar os simpáticos polícias pelos cortes nos subsídios de férias e de Natal.
E por último, gostaria também de agradecer ao governo a forma séria e auto-crítica como analisou esta manifestação de descontentamento, tirando dela as correspondentes conclusões, mas não posso. Não posso porque o governo não teve tempo para o fazer. Parece que os ministros estiveram entretidos a projectar cenários macro e a fazer projecções. Fiáveis. Em excel.
Será que me esqueci de alguém?

 

10/11/12

Concertação Disfuncional






Quarta-feira de manhã, deveriam ser umas oito e meia, nove horas, estava eu a vestir-me após a higiene matinal, quando, de supetão, Lurdes Rata me entra quarto-a-dentro, de aspirador, pano do pó e língua afiada, apanhando-me de chicharro pendurado. Procurei cobrir as vergonhas com o que tinha à mão, uma peúga.
- Então? Já não se bate à porta? – perguntei eu sentindo as bochechas roborizarem e a incomodidade do bicho que continuava ao léu em mais de um terço, espreitando com ar apalermado por de trás da peúga 42, de biqueira reforçada.
- Deixe lá, não se preocupe que estou habituada a ver misérias – respondeu pronta a sopeira, vigiando a fera adormecida pelo canto do olho. Não fosse o diabo tecê-las...
- Miséria? Miséria? Isso é na Grécia, nós cá não temos disso, quanto muito temos fome.
- Olha, olha… e a fome não é miséria? – retorquiu Lurdes com irritação.
Não cedi.
- Miséria é outra coisa. A fome mata-se, todos ajudam e a coisa fica resolvida – respondi procurando mostrar indiferença.
- Pois olhe, fique sabendo que aquilo que me paga é tão pouco que miséria é haver dias em que quero dar de comer aos meus garotos e não tenho. Você não sabe o que é a necessidade. Você ainda não percebeu que só o continuo a aturar porque preciso? Devia viver com o que eu vivo para saber o que era doce.
Matreira, Lurdes tentava conquistar-me um sentimento de pena. Ttinha de reagir sem vacilar - Se calhar querias comer bifes todos os dias, não? – retorqui.
Lurde virou-me costas. Não contendo as lágrimas ligou o aspirador, ignorando-me naquela triste figura.
Aproveitando a aberta, alcancei a toalha de cima da cama e cobri-me da cintura para baixo. Obviamente que o pranto de Lurdes era para me amaciar. As mulheres têm destas coisas, sabem como provocar sentimentos num homem. Contudo, a situação não se compadecia com momentos de fraqueza. Retomei o diálogo procurando que a concertação levasse Lurdes Rata a perceber o que realmente estava em causa. Procurei um registo melodramático e recomecei.
- Olha Lurdes, vê se percebes uma coisa. A vida está muito difícil para todos e se não te pago mais é porque não posso. Aliás, tenho… temos, queria eu dizer, de refund… ou melhor, reorganizar as taref… - Lurdes cortou-me a palavra, lançando-me um olhar de desdém.
- Gaste menos em viagens, em vinhos, em presuntos e nessas merdas todas, que já tem mais dinheiro para me pagar.
Lurdes não percebia o óbvio, tive de lhe explicar tentando manter a calma institucional e o registo monocórdico do professor que ensina o bê-á-bá aos putos.
- Não estás a compreender. Daquilo que eu recebo, isso que tu dizes são amendoins, a maior parte vai para te pagar. A maior parte da despesa que tenho é contigo. Se quero reduzir as despesas tenho de te pagar menos, poi há coisas de que não posso prescindir, tenho de manter alguma qualidade de vida. Se eu quero poupar para trocar de carro ou outra coisa do género, tenho de te pagar menos. Custa dizer isto mas é a verdade e, infelizmente,  a única alternativa. Percebes o que eu quero dizer?
- Não é não! Não é não! Há outra alternativa e sabe qual é? Passa você a fazer o comer, a lavar a roupa e a limpar a merda que faz. Percebeu o que eu disse?
Lurdes virou costas e deixou-me enrolado à toalha de chicharro pendurado. O pobre bicho parecia não perceber peva do que se estava a passar. Senti-me incompreendido. Estranhamente, um forte amargo a fel invadiu-me a boca e a alma. Corri à cozinha a abrir uma Pêra-Manca de 2005, para me tirar o gosto. Um vinho excepcional. Por momentos senti-me um pequeno burguês.
 
 

06/11/12

Afectos



 
Esta noite, enquanto aguardava pela Última Sessão da SIC Notícias com a película de suspanse "Até o Barack Abana", entretive-me a ver um programa onde figuravam, entre outros bitaiteiros, a Senhora Dona Manuela. À pergunta da sensual Ana Lourenço sobre se haveria alternativas para ultrapassar a crise, sem ser rumo ao precipício, Dona Manuela respondeu dixit: "Há sempre alternativas. Em democracia há sempre alternativas."
Quem diria que ao fim de todos estes anos eu iria sentir simpatia pela senhora. Abençoada crise...
 
 

03/11/12

VIDRO - Património Imaterial




 
Sobre esta notícia que há já alguns dias foi publicada no Região de Leiria, não ouvi um lamento, um comentário, um ai. Os autarcas mantiveram-se sossegados, os sindicatos mudos, a sociedade dita civil, tão generosa em comentários pífios na blogosfera e nas redes sociais, não pestanejou. Estamos apenas a um pequeno passo duma tragédia anunciada, estamos apenas a uma fração de tempo do abismo. Dentro em breve não restará entre nós um único mestre vidreiro, um único lapidário, um único pintor, um único colhedor, um único aprendiz. Apenas restarão memórias.
Quem não percebe da importância cultural deste precioso património que é a arte do vidro, não percebe a identidade deste povo. Não percebe que esta foi uma arte agregadora do nosso tecido social durante décadas, não percebe a dureza do trabalho que moldou consciências, não percebe o legado que foi transmitido com orgulho de pais para filhos, não percebe o significado da fusão dos materiais e do espírito criador, não percebe a nossa essência.
Sei que em grande medida as “leis de mercado” iniciaram o processo de extinção e que a estupidez dos homens fez o resto. Contudo, o património imaterial representado pela arte do vidro é um bem demasiado precioso para que dele possamos abdicar sem qualquer rebate de consciência.
Não tenho soluções milagrosas, mas considero ser uma obrigação de todos os Marinhenses tentarmos até ao limite preservar a nossa identidade colectiva. Por isso, esta era uma discussão que gostaria de ver alargada a todos, sobretudo em véspera dos bastidores se agitarem com galopins, curisoso e outros trampolineiros, peritos na boçal arte de encanar a perna à rã e de discutir o acessório.
É urgente fazer qualquer coisa. Ou será que já é tarde de mais?
 
 

31/10/12

Os comensais do costume

 

O orçamento fica hoje aprovado na generalidade, só falta atar e pôr ao fumeiro.
Podem chamar o Ulrich, o Espirito Santo, o Ricciardi, o Soares dos Santos e o resto da Confraria das Gorduras. Eles que lavem as mão e que se sentem à mesa, que o petisco não tarda a ser servido.
mas afinal onde é que pára o pessoal da Confraria dos Tomates?
Razão tinha o outro, “o povo é sereno”…
 

29/10/12

Auto-avaliação

 
Permitam-me que vos conte uma pequena história, sem grande importância.
Por volta de 77/78, não sei precisar ao certo, num vulgar dia de Outono, por sinal de intenso nevoeiro, fui abordado pelos vizinhos para liderar a Comissão de Moradores do Casal da Formiga. De imediato senti as duas habituais experiências físico-químicas que o ser humano experimenta nestas situações – uma tumescência no ego e uma lasciva vertigem (mais tarde um ajudante de farmácia explicou-me que se trata daquilo a que os cientistas do comportamento chamam de “vertigem do poder”, neste caso, de um micro-poder).
Ufano e a arfar confiança, assumi a modéstia dos predestinados e cumpri o protocolo, pedi uns dias “para pensar e para consultar a família”, família que à data se resumia a uma fulana das Trutas que trabalhava por turnos na Ricardo Galo e com quem eu mantinha uma picante e tórrida aventura extra-conjugal nas barbas do marido, e o meu fiel Bolinhas, um cão notável que ía comigo à caça e às gajas, e de quem tenho muitas saudades. Todo o resto da “família” estava de trombas comigo e já só me dirigiam a palavra para alguns mimos - de “camelo” para cima. Enfim, já um gajo não pode ser complicado…
É evidente que o convite me entusiasmou – “é porque viram em mim qualidades, porra!... Mas será que só isso chega? Porra!” Esta inquietação fez-me de facto pensar alguns dias e levou-me a recordar uma frase que o meu pai me segredou no primeiro dia que entrei nos portões da fábrica e que jamais esquecerei – “tem orgulho naquilo que fazes com competência, mas nunca te queiras fazer passar por aquilo que não és. Se és um bom cantoneiro, óptimo, é essa a tarefa que todos esperam que desempenhes com garbo! Se és um bom médico, óptimo, é esse o papel que todos esperam que desempenhes com generosidade. Se és um aldrabão, podes ser cantoneiro, médico ou regedor, pois a incompetência está ao alcance de qualquer atrevido!”
A equação tornou-se por isso mais simples, embora o processo de auto-avaliação não o fosse, apenas havia que ponderar se reunia o perfil, os predicados e as capacidades necessárias a um bom desempenho do cargo: capacidade de liderança, de decisão, de auscultação, de auto-crítica, de motivação, de visão estratégica, de planeamento táctico, de coordenação operacional, etc. Concluí que não reunia as condições mínimas, o que transmiti aos vizinhos, sugerindo que me teriam sobrestimado e que lhes estaria a fazer um grande favor em não aceitar o convite. Reafirmei contudo a minha disponibilidade para continuar a trabalhar na Comissão como até aí. Volvidos alguns dias o plenário de moradores elegeu um papagaio qualquer, um fulano pedante e bem-falante, casado com uma Florinda dos Outeirinhos, uma tipa de nariz empinado que o empurrou para o cargo e que lhe dizia a toda a hora o que deveria fazer.
Não sei porquê mas às vezes lembro-me destas histórias, sem grande importância.
 

25/10/12

Humor Funesto


O presidente da Associação Nacional de Empresas Lutuosas (ANEL), Carlos Almeida, afirmou que o subsídio por morte, com a redução anunciada no Orçamento do Estado para 2013, vai ser insuficiente para realizar um funeral «habitual».
«Os 1.200 euros de que se fala não chegarão para a maioria das pessoas que quer fazer um funeral dito mais habitual», disse à Lusa Carlos Almeida, quando hoje se inicia, em Lisboa, o salão internacional do sector funerário e arte sacra, de nome Ambifuner.
De acordo com a proposta de Orçamento do Estado para o próximo ano, o Governo quer cortar para metade o subsídio por morte, que é atribuído aos familiares a cargo dos aposentados por morte destes, limitando o valor a 1.257,66 euros.
(…)
O presidente da ANEL salientou que todas as funerárias têm nas suas tabelas de preços um funeral denominado social, actualizado todos os anos, que neste momento se encontra perto dos 400 euros.
Carlos Almeida sublinhou que o Ambifuner, que decorre até sábado no Centro de Congressos de Lisboa, em parceria com a Associação Industrial Portuguesa e com a editora LuaAzul, conta com uma quase totalidade de expositores nacionais, vários com capacidade exportadora.
«O objectivo é divulgar este sector, apesar de um ano de crise mostrar a dinâmica das empresas e tentar encontrar novos clientes, mostrar novas alternativas», disse à Lusa, por seu lado, o gestor do salão, Paulo Rodrigues.

 

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Face à clarividência das palavras do gato-pingado da Associação Nacional das Empresas Lutuosas, não me restam senão três pequena notas sobre o sector:
- penso que não há razão para alarme, as medidas tomadas pelo governo do Senhor dos Passos e do seu acólito Gaspar, vão claramente no sentido de aumentar exponencialmente o número de clientes finais, o que poderá compensar o esmagamento das margens;
– penso ainda que a internacionalização pode ser uma boa aposta, sobretudo através da penetração em mercados de elevado potencial como sejam, Iraque, Afeganistão, Síria, Líbia, Sudão, etc, tudo países que fazem parte das chamadas ELE – Economias Lutuosas Emergentes;
vejo aqui claramente uma janela de oportunidade para as cimenteiras. A menos que os ambientalistas queiram dar um ar da sua graça.
Contudo uma coisa é certa, até a indústria lutuosa está pela hora da morte...
 
 

23/10/12

Revisão Constitucional




Lamentavelmente a política continua a ser produzida através de sound bites, uma espécie de bitaites coloridos, debitados por quem é suposto manter algum arrière-pensée antes de abrir a boca. E os jornalistas, comentaristas e outros artistas da hermenêutica, ávidos de matéria-prima fedegosa, lá amplificam a desleixada bufa, elevando-a à condição de sinfónico fofó.
Seguro de si próprio e do seu papel de líder oposicionista desbotado, António José colocou a voz, compôs o nó da gravata e, encarnando na sua melhor pose do pierrô com lágrima ao canto do olho,  lançou o trunfo – “Há que diminuir o número de deputados, que só em torresmos, iogurtes gregos, papel higiénico de folha-dupla e Renaults Clios, esses desavergonhados custam uma pequena fortuna ao reino! É preciso perceber que em tempos de crise o país não se pode dar ao luxo de esbanjar com as mordomias da democracia representativa!”. E ficou quieto a aguardar os ecos dos seus ventos interiores.
Porém, como os nervos andam à flor da pouca pele, já que o pantomineiro Gaspar se tem encarregue de a esfolar delicadamente, camada após camada, ninguém esteve para lhe aturar garotices e o fofó num ápice se esfumou, a democracia lá se livrou (por agora) da lipoaspiração representativa e o pierrô encarnou o papel soprado pelos assessores, nem sim, nem não, antes um suponhamos – “Obviamente que de momento este assunto não é uma preocupação da esquerda dita democrática, mas também não é um tema tabu!”. Ficou registado. Seguramente que as suas intenções eram as mais cândidas, sobretudo do ponto de vista da outra esquerda dita de extrema. Contudo, alguém lhe deveria ter explicado que o nobre gesto em favor da redução do défice redundou numa pregão popularucho contra uma classe política sem classe, a necessitar urgentemente de quem a credibilize e de quem a recupere para patamares de excelência, de confiança, de rigor, de coiso. Como faz, por exemplo, aquele senhor, o Silva dos pastéis, que nos contacta via facebook sempre que do alto do seu palácio pretende derramar sobre o povo bordões de sapiência económica-social, psicotrópica, telúrica, apologética de novos rumos e de novos caminhos - do mar que sempre ignorou, das pescas que desmantelou, do olival que pagou para abater, da vinha que mandou arrancar, da produção de bens transacionáveis que mandou encerrar - recolocando o debate no patamar em que deve estar, uns centrimetros acima do baixo ventre e um niquinho abaixo do umbigo.
Esta breve reflexão teve contudo um mérito, desvendou-me uma maravilhosa ideia que fará as delicias do camarada (dito) Seguro. Seguramente. E porque não rever a constituição e passarmos a eleger o presidente da república através de “likes” no facebook? O candidato criava uma conta no facebook, mandava escrever uns zurros e quem tivesse mais “likes” ganhava uma estadia grátis de cinco anos no palácio cor de rosa, o país sempre poupa uns trocos com actos eleitorais e merdices desse género e o resultado final era o mesmo. E que tal António José? Seguras-te? Vais ver que o pessoal adere melhor do que àquela de recambiar o Feteira Pedrosa para a Praia da Vieira. Vais ver... 


19/10/12

E daí, talvez...


 
O despertador marcava 4:23. Nas últimas duas horas e três quartos assistira de olho arregalado à passagem de cada minuto, como quem desfia dolorosamente as contas de um rozário, implorando ao divino a graça da fé. Ou pelo menos a Graça cabeleireira, que é bem-boa.
A malvada insónia e as palavras do Pinheiro de Azevedo martelando-me na cabeça, estavam a transformar o merecido tempo de repouso numa angústia quase igual à vertigem de... um... discurso... de... Vitor... Gaspar. Com a breca, o Pinheiro de Azevedo tinha toda a razão  - "Estou farto de brincadeiras, ok? ... fui sequestrado, já duas vezes, já chega. Não gosto de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia. " E a mim também me chateia Pinheiro, não gosto de ser sequestrado e muito menos de untar o vesgo de vazelina esterilizada, orçamento após orçamento. Sobretudo quando é o próprio arquitecto do miraculoso programa de emagrecimento e rejuvescimento, o frenético... ministro... Vitor... Gaspar,  a confirmar que Portugal continua a esbanjar sem critério, desvendando que o país investiu na sua educação uma pipa de massa. Da grossa. Tá bom de ver, mais um péssimo investimento, mais um negócio ruinoso para um país demasiado generoso. Antes o dinheiro tivesse sido gasto em bolota que assim sempre lhe punhamos um presunto ao fumeiro e já nos sentíamos ressarcidos, uma vez que o vagaroso alfário insiste em retribuir o que ruminou durante algumas décadas. Mas fique sabendo caro... Gaspar, que por mim pode deixar-se de mesuras e de cerimónias, vá andando que não me deve absolutamente nada desses anos em que se deliciou em prados verdejantes. Chô! Chô!
Não sei se foi da noite mal dormida, se de me sentir sequestrado, ou se da greve dos padeiros, e daí talvez. A verdade é que senti de novo uma enorme vontade de... é pá, desculpem lá mas agora vou almoçar!...
 
 

03/09/11

Micro-deuses







Agora sim, está na hora de parar com o falatório e de unir esforços e vontades. De dizer mal. Está na hora de trazer à Fonte Santa o Toni Carreira, o Tiririca e o que resta do polvo Paul. Está na hora dos poucos que trabalham no duro emergirem sobre a imperial, o tremoço e o rendimento mínimo garantido. Está na hora de desmascarar as negociatas confidenciais, empalar os paneleirinhos e mandar os ciganos para Auschwitz. É agora! Finalmente chegou o tempo dos micro-desuses e das suas cruzadas justicialistas, amplificadas pelas rotativas e pelo maravilhoso mundo da internet. Viva a democratização da palavra. Nem que seja para, no fim das exultantes homilias, voltar a dizer mal de qualquer coisa ou de alguém. Amém.


31/08/11

Benchmarking – “Dar de Volta” - o exemplo dos manuais escolares


Apresentada inicialmente pelo dr. Feteira Pedrosa como um dos afrodisíacos para promover o aumento da natalidade, ainda bem antes da campanha eleitoral, a oferta de manuais escolares pela nossa autarquia a todas as crianças do primeiro ciclo, em resultado de uma promessa eleitoral (sublinhe-se!), volta a acontecer em 2011, embora enquadrada como medida de apoio social.
Seja como afrodisíaco ou como apoio social, o que nasceu torto provavelmente torto ficará, em resultado da falta de… bom senso. (Estive tentado a dizer “falta de… «sensibilidade cognitiva»”, mas contive-me a tempo.)
Se o argumento é o do cumprimento de uma promessa eleitoral, não cola. Há tantas promessas boas que ficam por cumprir que, deixar para as calendas uma de alcance duvidoso, talvez nem fosse má ideia, antes uma evolução para um outro estádio de desenvolvimento da moleirinha dos nossos decisores – a utilização racional dos recursos que, como é sabido e apregoado à saciedade, são escassos.
O que está uma vez mais em causa (em minha opinião), é a estratégia e a relação custo benefício, e não é preciso ser muito inteligente para perceber que a medida é avulsa e que a dita relação não parece pender para o lado que mais convinha - a do benefício. Nem sequer vou perder tempo a discutir o critério francamente imoral de tratar de forma igual famílias com rendimentos desiguais, tendo como consequência validar o princípio (errado) de que os filhos dos riscos andam todos nas escolas e colégios particulares que existem no concelho (os únicos que não beneficiam da medida).
Embora este fosse um bom ponto de partida para a discussão, já que se trata de uma medida de apoio social, que considero de descriminação negativa, nem sequer vou por aí. Apenas recordo que a simples devolução dos manuais não parece ter sido considerada, com todas as vantagens daí decorrente, quer em termos de poupança, quer em termos ambientais. Esta seria também uma forma de responsabilizar as famílias beneficiárias em relação ao esforço colectivo decorrente da atribuição desses manuais. Mas não. Em vez de se promoverem princípios de solidariedade social, espalha-se dinheiro sem critério, e isso tem um nome: d-e-s-p-e-r-d-í-c-i-o!
Talvez este seja um bom exemplo de como deveriam proceder lideres com debilidades interpretativas da realidade (actual e futura), terem a humildade de procurar nos bons exemplos o modelo para aquilo que não conseguem desenhar nem com rigor, nem tão pouco como esboço - um modelo coerente de desenvolvimento estratégico.
É por isso que peço encarecidamente a quem por aqui passe, o favor de disponibilizar este número de telefone ao dr. Marques Pereira (210 976 100). Pode ser que ele fique tentado a ligar.


26/08/11

Pensamento do Dia



Nunca me poderia sentir desiludido com o que vejo, quando à partida não tinha quaisquer expectativas na inconsequente liderança. O voluntarismo e o amadorismo são a nota dominante, não se encontrando um fio condutor de qualquer estratégia coerente. E isso é muito mau, porque tempo perdido jamais será recuperado. Infelizmente não me equivoquei. "Vocês sabem do que é que eu estou a falar"…


25/08/11

Contributo para a Redução do Défice


Quando há dois dias atrás ouvi o secretário Moedas espremer a sua pálida mas esforçada capacidade argumentativa, explicando o grande esforço do governo para conter o défice, o desvio colossal entre os pontos B e C de dois segmentos de recta com um ângulo de aproximadamente qualquer-coisa-muito-grande*, e outras bojardas de igual quilate, senti-me tocado por uma espécie de luz divina que me soprava com voz abafada de trovão: “Dá o teu contributo para reduzir o défice! Dá o teu contributo para reduzir o défice!”. E mais tocado fiquei quando o dito senhor Moedas explicou que o governo estava a tomar medidas ao mesmo ritmo que eu tomo a porra dos comprimidos para a tensão arterial - e que gostaria também que a outra tensão se revelasse em todo o seu esplendor às companheiras de fruição – uma por dia! Nem mais.
Como não podia ficar indiferente a tanto toque, reflecti e disse cá para os meus botões – “Relaxoterapeuta, como cidadão responsável que queres ser, contribui lá com alguma ideia generosa, que essa coisa de só criticar, não é nada!” - ao que os meus botões responderam com rudeza e com incontida irritação: “Não te chega a talhada no subsídio de Natal e mais o resto?”. Sacaninhas dos meus botões, sempre a desconversar, sempre a desconversar, irra!!!
Meditei, meditei, e meditei, e, descobri: se entregarmos o Kadhafi à oposição Líbia, embolsamos um milhão e picos, o que já é uma boa maquia para aliviar o défice e para evitar que até ao fim do ano o governo passe a tributar as gajas que usam fio dental e botas de cano alto no pino do verão. Ora aqui está uma boa ideia. E vocês perguntam: “e isso não tem custos?”. É óbvio que não! Com a quantidade de perdigueiros que têm entrado para os ministérios, descobrir Kadhafi (ou o que resta dele) em Tripoli (ou o que resta dela), é mais fácil do que descobrir um polícia (ou o que resta dele) na Cova da Moura. É que quando toca a graveto, esta bicharada tem um faro muito apurado...

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* deve ser lido com sotaque vincadamente madeirense

24/08/11

Pensamento do Dia




Nos EUA e em França, alguns milionários pedem ao Estado para pagarem mais impostos.
Em Portugal o Estado pede aos milionários para não pagarem mais impostos, mas é implacável quanto ao essencial – é expressamente proibido o uso de gravatas!
Ser milionário em Portugal, não é fácil... 

18/08/11

Lipossolúvel


Ainda o genérico não terminara e já a plateia de figurantes contratados dava urros e agitava cartazes, incentivada por um frenético e diligente assistente de produção baixote, de sorriso largo e apelido Relvas.
O ambiente estava ao rubro, a expectativa era grande e a onda orgásmica que se abateu sobre o pequeno auditório quando Júlia Pinheiro deu entrada em palco, embora previsível, superou todas as expectativas. “Bem-vindos ao PESO PESADO, o programa que ganha quem perde!” – gritou Júlia a plenos pulmões, ultrapassando de forma grosseira o limite de decibéis suportáveis ao ouvido humano. A plateia não se fez rogada e grunhiu empenhada a fórmula estafada: “Assim, se vê, a força da TV! Assim, se vê, a força da TV!”.
Júlia, experiente mulher da comunicação, com uma noção muito clara dos tempos televisivos, à revelia do baixote e sorridente assistente que insistia em manter a plateia a barrir, colocou um pouco de ordem na sala com dois esganiçados e calmantes “Obrigada! Obrigada!”, e lá continuou a função de forma segura e timbre afiado - “Bem-vindos ao PESO PESADO, um programa onde a coragem e a determinação, são a chave do sucesso para perder gorduras obscenas! E vamos já chamar os concorrentes!”. O assistente deu a deixa e a plateia respondeu pronta com palminhas. “Vem de Pernes, chama-se Pedro Estorninho e pesa 183 quilos. Peço uma salva de palmas para este pequeno cachalote que quer emagrecer em directo!” – gritou Júlia, na expectativa de que a sua voz fosse escutada em Freixo de Espada à Cinta.
Um a um lá foram entrando ofegantes, quilos e quilos de tecido adiposo, à medida que a plateia, em crescendo, parecia aguardar já com evidente impaciência o concorrente mais famoso, o tal que se fizera anunciar meses antes, jurando a pés juntos uma colossal cura de emagrecimento.
O momento estava próximo e Júlia sentia-o. Tossicou duas vezes, esticando as cordas vocais, e deu início ao clímax do programa, ir-se-ia certamente fazer história – “E agora, senhoras e senhores contribuintes, é com grande prazer que chamo a este palco o último concorrente, uma salva de palmas para o Estadooooo!!!”. A plateia levantou-se de imediato e agitando-se freneticamente, irrompeu numa histeria colectiva que contagiou a própria Júlia, a qual, já liberta dos sapatos de salto, acrescentava pulos de canguru aos gritos estridentes.
Porém, em vez de um tipo hiper-obeso, para estupefacção de quase todos e por indicação do assistente de produção, entrou timidamente em palco um individuo de compleição quase tísica e coloração anémica. A plateia mumificou de espanto e o assistente Relvas estendeu-lhe de pronto um microfone. Fez-se silêncio absoluto.
De forma monocórdica e sincopada, o individuo tomou a palavra para se explicar – “Boa noite a todos os contribuintes. Chamo-me Vítor Gaspar, mas podem-me tratar só por Vítor, que é como se deve fazer para poupar. Estou aqui, sem gravata, para poupar no ar condicionado, e para vos anunciar que o Estado ainda não está preparado para perder as gorduras. Mas, fiquem descansados, que estamos a tratar disso. Será prioritário em momento mais oportuno. Aproveito ainda a ocasião para apelar à vossa generosidade, uma vez que não queremos que o nosso rechonchudo passe privações antes de iniciar o tratamento. Por isso, decidimos tomar medidas preventivas, não por serem as mais fáceis mas por terem efeitos imediatos. Assim vamos acomodar o IVA do gás e da electricidade, mas os pobrezinhos podem ficar sossegados porque estamos a elaborar um programa de distribuição de sopinha e pãezinhos com mortadela.”
Júlia estava lívida e a plateia boquiaberta, parecia ter levado um murro no estômago. Um valente sopapo. Contudo, e sem que nada o fizesse prever, ao primeiro sinal do assistente de produção, a plateia contratada, composta por zelosos contribuintes das classes média-baixa, começou a balir de forma inusitada. E assim se manteve por longos minutos. Simplesmente a balir. Vá lá a gente perceber porquê…


13/08/11

(im)Pausa




Recém-chegado do retiro termal que o doutor do nervos me encomendou “por razões meramente profiláticas”, lá para as bandas de S. Pedro do Sul, apenas uma saudação e uma pequena nota para vos dar conta do complemento ao tratamento, uma experiência a que me submeti por vontade própria e sem resmungos, embora num primeiro momento tenha duvidado dos efeitos higiénicos do “suposto placebo”: três semanas sem televisão, jornais, internet e telemóvel. Três semanas de reencontro com o mundo interior, comigo, olhar para dentro e ver os pulmões, o coração o fígado, as entranhas, e perceber que um dia vão parar (pode até ser hoje…). “Será que tenho dado o melhor de mim?“
Às vezes é preciso dar prioridade ao silêncio e questionarmo-nos sobre as nossas próprias prioridades. Pode parecer egoísmo, mas não. Trata-se apenas de uma necessidade básica – é tão fácil criticar os outros, mas tão difícil ter capacidade de auto-crítica.
Para o bem e para o mal, é com indisfarçável saudade que volto sempre à cidade que me viu nascer. Agora com os nervos recauchutados, alguns decilitros de providencial Dão no bucho e com uns quilitos a menos, na carteira. Mas volto sempre, como diria o Zé Mário – “…muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para [escrever] e para o resto”.