Ainda o genérico não terminara e já a plateia de figurantes contratados dava urros e agitava cartazes, incentivada por um frenético e diligente assistente de produção baixote, de sorriso largo e apelido Relvas.
O ambiente estava ao rubro, a expectativa era grande e a onda orgásmica que se abateu sobre o pequeno auditório quando Júlia Pinheiro deu entrada em palco, embora previsível, superou todas as expectativas. “Bem-vindos ao PESO PESADO, o programa que ganha quem perde!” – gritou Júlia a plenos pulmões, ultrapassando de forma grosseira o limite de decibéis suportáveis ao ouvido humano. A plateia não se fez rogada e grunhiu empenhada a fórmula estafada: “Assim, se vê, a força da TV! Assim, se vê, a força da TV!”.
Júlia, experiente mulher da comunicação, com uma noção muito clara dos tempos televisivos, à revelia do baixote e sorridente assistente que insistia em manter a plateia a barrir, colocou um pouco de ordem na sala com dois esganiçados e calmantes “Obrigada! Obrigada!”, e lá continuou a função de forma segura e timbre afiado - “Bem-vindos ao PESO PESADO, um programa onde a coragem e a determinação, são a chave do sucesso para perder gorduras obscenas! E vamos já chamar os concorrentes!”. O assistente deu a deixa e a plateia respondeu pronta com palminhas. “Vem de Pernes, chama-se Pedro Estorninho e pesa 183 quilos. Peço uma salva de palmas para este pequeno cachalote que quer emagrecer em directo!” – gritou Júlia, na expectativa de que a sua voz fosse escutada em Freixo de Espada à Cinta.
Um a um lá foram entrando ofegantes, quilos e quilos de tecido adiposo, à medida que a plateia, em crescendo, parecia aguardar já com evidente impaciência o concorrente mais famoso, o tal que se fizera anunciar meses antes, jurando a pés juntos uma colossal cura de emagrecimento.
O momento estava próximo e Júlia sentia-o. Tossicou duas vezes, esticando as cordas vocais, e deu início ao clímax do programa, ir-se-ia certamente fazer história – “E agora, senhoras e senhores contribuintes, é com grande prazer que chamo a este palco o último concorrente, uma salva de palmas para o Estadooooo!!!”. A plateia levantou-se de imediato e agitando-se freneticamente, irrompeu numa histeria colectiva que contagiou a própria Júlia, a qual, já liberta dos sapatos de salto, acrescentava pulos de canguru aos gritos estridentes.
Porém, em vez de um tipo hiper-obeso, para estupefacção de quase todos e por indicação do assistente de produção, entrou timidamente em palco um individuo de compleição quase tísica e coloração anémica. A plateia mumificou de espanto e o assistente Relvas estendeu-lhe de pronto um microfone. Fez-se silêncio absoluto.
De forma monocórdica e sincopada, o individuo tomou a palavra para se explicar – “Boa noite a todos os contribuintes. Chamo-me Vítor Gaspar, mas podem-me tratar só por Vítor, que é como se deve fazer para poupar. Estou aqui, sem gravata, para poupar no ar condicionado, e para vos anunciar que o Estado ainda não está preparado para perder as gorduras. Mas, fiquem descansados, que estamos a tratar disso. Será prioritário em momento mais oportuno. Aproveito ainda a ocasião para apelar à vossa generosidade, uma vez que não queremos que o nosso rechonchudo passe privações antes de iniciar o tratamento. Por isso, decidimos tomar medidas preventivas, não por serem as mais fáceis mas por terem efeitos imediatos. Assim vamos acomodar o IVA do gás e da electricidade, mas os pobrezinhos podem ficar sossegados porque estamos a elaborar um programa de distribuição de sopinha e pãezinhos com mortadela.”
Júlia estava lívida e a plateia boquiaberta, parecia ter levado um murro no estômago. Um valente sopapo. Contudo, e sem que nada o fizesse prever, ao primeiro sinal do assistente de produção, a plateia contratada, composta por zelosos contribuintes das classes média-baixa, começou a balir de forma inusitada. E assim se manteve por longos minutos. Simplesmente a balir. Vá lá a gente perceber porquê…