22/06/11

O modo e o tempo


Embora desconfiando sempre do que os meus olhos enxergam, tendo em conta que já cá cantam três quartos de dioptria em cada farol, porque ando pela cidade de cabeça levantada, dei conta de uns quantos cartazes em outdoors e múpis que parecem indiciar estar em marcha uma campanha de promoção da grande Marinha. E digo “parece”, porque esses são os únicos sinais exteriores decifráveis, por associação com alguns eventos recentes da mesma natureza. Tal padrão parece corresponder a uma corrente de opinião que considera que a dinâmica da nossa cidade é muito mais do que aquilo que internamente se lhe reconhece, sobretudo nos domínios industrial e tecnológico, pelo que serviria tal reconhecimento como factor catalisador de dinamismo semelhante para outros domínios. A ideia até me agrada, pese embora que tal facto corresponda à assumpção de uma verdade irrefutável: o poder político local, por mais que se pavoneie com o empreendedorismo desta gente de trabalho que teima em arriscar, nem de perto nem de longe tem contribuído para esse sucesso, o que facilmente se demonstra à contrário, pela inércia e pela desastrosa gestão da coisa pública.
Contudo, como não estou certo de que esta minha percepção corresponda à realidade, tenho alguma dificuldade em perceber se a relação fundamental de uma equação desta natureza (custo/benefício), é ou não fracamente favorável. Deixo portanto essa análise para os mais entendidos. 
Nos cartazes, sob um fundo liso, pode ler-se a frase “A Marinha é Grande”, e por cima desta um arabesco que admito corresponder a uma figura estilizada, a qual varia de cartaz para cartaz.
Face à sobriedade da sua composição, estou certo de que quem produziu os referidos cartazes, fê-lo com a clara intenção de transformar a força da frase-trocadilho, na imagem de marca que se quer promover. Reparo contudo que a palavra “grande” começa com letra maiúscula, correspondendo por isso a um nome e não a um adjectivo, resultando assim na redundância de acrescentar à Marinha um nome que ela já tem. Curioso.
Por esta altura já alguns se interrogarão se hoje o fulano terá tomado os comprimidos. Esclareço desde já a dúvida, não estou certo se os tomei, mas serviu este pequeno jogo florar para transmitir os meus cepticismo e desapontamento em relação à forma como os dias vão correndo, sem grande rigor, sem grande percepção do real significado das coisas e dos actos. Pois não basta ter um Grande nome para se ser grande, nem tão pouco interpolar o verbo “ser” no presente do indicativo. Estou até em crer que, tendo em conta a fraca qualidade e prestação dos que nos têm conduzido na última meia dúzia de anos, mais se adequaria o tempo passado “foi”, com tudo o que daí advém como consequência para o tempo futuro “será”. E é este que é indubitavelmente o tempo da esperança: “a Marinha será grande”.  Se houver gente no presente a preparar o futuro. Com cartazes ou sem eles.


15/06/11

"Ideologia, não temos..."

Nado e criado na Marinha, o meu crescimento como homem, e a concomitante formação de personalidade, vieram em grande medida confirmar a regra de que o indivíduo (também) é produto do meio. Não é por isso estranho que, tendo nascido numa terra operária, fervilhante de homens e de mulheres com grande consciência social e de grandes lutadores antifascistas, que desde tenra idade me deliciasse com as pequenas tertúlias de acesa discussão política que por vezes se realizavam em casa dos meus pais, juntando alguns familiares e amigos. E como a ocasião faz o ladrão, até mesmo, ou por maioria de razão, em noites de modesta consoada, se discutia politica na sala, enquanto na cozinha as mulheres tentavam transformar o pouco que havia, num repasto que nos fizesse esquecer as privações.
Já mais tarde, na adolescência, recordo-me de percorrer a mata de bicicleta com o meu tio Zé e o Aurélio, discutindo e vincando abertamente os meus pontos de vistas, insuflado pelas convicções e pelas certezas que julgava ter, mas que não tinha, fruto das borbulhas, dos “pintelhos de leite” e das hormonas em ebulição. O tio Zé ria desbragadamente da minha pueril lenga-lenga de armado aos cucos, e vibrava de entusiasmo com a minha retórica oratória, dirigida aos pinheiros e às pinhocas – “é assim mesmo puto! É assim mesmo!”. Porém, a última palavra era sempre dele. Invocando a sua condição de homem maduro e de sindicalista convicto, aproveitava estes passeios para nos doutrinar, coisa que a minha mãe (sua irmã) nunca apreciou muito.
O tempo passou, a vida foi-nos moldando o carácter, e o carácter a vida, mas uma coisa para mim foi sempre absolutamente clara como a água que jorrava límpida e cristalina da fonte do Tremelgo, bebida em sôfregas golfadas após alguns quilómetros de bicicleta, na companhia do tio Zé e do Aurélio: “a ideologia é o sal da política”. Sem ela tudo se transforma numa amalgama de contradições, muitas vezes apelativas, sem dúvida, mas invariavelmente sem rumo. A política à la carte, destituída de qualquer conteúdo programático-ideológico, descaracteriza o modo de actuação dos partidos transformando-os em “mais um” entre outros, num casulo de possibilistas e de pseudo interessados no bem colectivo. É certo que assim se evita a coerência da prática face ao valor dos princípios, ou valorização da ética em detrimento do populismo saloio. Mas um dia, inevitavelmente todos farão a pergunta sacramental: - “então mas afinal o que é que os distingue?”





06/06/11

Dr. Coelho dos Santos


Faleceu o Dr. Coelho dos Santos. Um homem bom, um exemplo. Não lhe soubemos prestar em vida, a justa e merecida homenagem. Estranha terra esta, que não ama os seus.
Ficamos mais pobres com a sua ausência, embora enriquecidos pelo seu legado de vida.
À família, o meu sentido abraço de gratidão.


03/06/11

Galopinagem (IV)



E agora, alguns dos termos mais populares do rico léxico da galopinagem:

Arruada - largada de galopins, emoldurada pelas respectivas claques (pagas ou não).

Jantar Comício – lombo assado com arroz e batatas (ou só arroz), seguido de discursos mais ou menos inflamados, tudo dependendo do teor alcoólico do vinho de mesa servido aos galopins e às claques.

Debate – peleja de ornejos entre galopins, normalmente com a presença de um ente moderador, que dás os tempos e interrompe, a propósito e a despropósito.

Listas – ordem de entrada em cena dos galopins, normalmente com base em lutas intestinas onde se exibe a crista e a falta de jeito.

Sondagens – estudo profundo de ordenação dos galopins, em função do que seria suposto o povo votar, em razão da vontade de quem paga o referido estudo.

Poder – faculdade de fazer e dizer disparates, legitimada pelo povo.

Urna – caixão de metal, acrílico, madeira ou qualquer outro material, onde jazem os votos com as respectivas promessas acopladas.

02/06/11

Galopinagem (III)




Há coisas que me tocam. Profundamente…

Porque por detrás de cada galopim há um homem ou uma mulher, compostos por um complexo sistema de neuros e de glândulas endócrinas, que reagem a estímulos, sensações e estados de alma, é que por vezes encontramos no meio de todo o ruído ensurdecedor das campanhas, momentos de uma ternura e beleza indescritíveis, como este:


Caro Feteira Pedrosa, gostei que tenha partilhado connosco este outro lado mais intimista da campanha mas, sentimentos e mariquices à parte, espero bem que tenha apresentado a factura a Pinto de Sousa, que esta coisa não está só para croquetes e rissóis.
Confesso contudo que fiquei sem perceber uma coisa, se o título do post se referia ao comício da Rodrigues Lobo, se a uma subtil auto-referência ao organizador do evento.


26/05/11

Galopinagem (II)




Continuo a seguir com redobrado desinteresse os galopins que, à semelhança do  pequeno Edmundo, se vão entretendo a brincar com as bolinhas. Será que também sabem de cor as respectivas idades?

25/05/11

Galopinagem (I)




Estou até convencido que qualquer economista, perdão, que qualquer aluno do primeiro ano de economia, percebe perfeitamente o que este senhor diz. A menos que o fulano seja mais um daqueles profetas da desgraça que Pinto de Sousa tanto gosta de exorcizar.

19/05/11

Contratação Colectiva

Uma vez que a popularucha Merkl pretende harmonizar a nível comunitário o período de férias e a idade da reforma, agradeço que inclua no pacote as gratificações pelo bom desempenho, já em vigor na Alemanha.


Hebdomadário (II)




O periódico urbano dá assim corpo (e estampa), à real noção que tem da notícia, enquanto elemento de forma e de conteúdo, às prioridades que elege na sua percepção da realidade comunitária, e ao voyeurismo que escolhe como trunfo promocional para despachar as tiragens.
Entre o casamento gay e os touros, dois temas ironicamente insolúveis, prefiro o do homem que mordeu o cão. Haja algum que morda também nas canelas do ardina.


16/05/11

Micro-deuses




Esquecido o melancólico e delico-doce episódio da fungada despedida do Mosteiro de São Bento da Saúde ao som de Sinatra, o ex-deputado Feteira Pedrosa, de acordo com o seu blogue de viagens e de pecados veniais, percorre agora ao ritmo de um galgo, as capelas, ermidas e absidíolas do distrito, prometendo à Sra. da Vieira de Leiria, virgem da sua particular devoção, vinte voltas de joelhos nus à Catedral da Luz e três tachadas de arrozinho de lampreia pela Pascoela, se a santinha interceder junto do Misericordioso, para que lhe seja concedida a ventura de mais um contrato a termo certo, por quatro anitos. A seu favor, abona o modesto ex-futuro-deputado, está uma medalha de mérito do município de Figueiró dos Vinhos, a qual lhe foi concedida em agraciamento pelo seus préstimos na construção de um itinerário complementar, distinção essa que se recusa a receber por pudicícia. Gostaria eu próprio, que não sou de romarias, que o município da cidade vidreira também o agraciasse com igual mesura, pelas prestimosas súplicas e preces a favor do alargamento do Casal da Lebre, mas ao que parece os únicos medalhões disponíveis são os de vitela, do Pingo Doce, esta semana a 7,95€ o quilo. E talvez não seja grande ideia, porque deixam nódoa.



______________________________
Nota de rodapé:
por alguma razão o Dr. Feteira Pedrosa não aceitou o meu repto e não deu à estampa a avaliação do mandato ora terminado. Paciência. Presumo contudo que a sua performance tenha sido bastante apreciada uma vez que subiu no ranking. No entanto, já que não quis auto avaliar-se, tratarei eu mesmo de tomar o assunto em mãos a 5 de Junho. Talvez não se escape de uma “raposa”.


14/05/11

Back Office


Por razões que obviamente me são alheias, de acordo com o meu assessor informático esta semana o Blogger parece que esteve com problemas no carborador. O dois posts anteriores estiveram temporariamente no limbo e voltaram hoje à luz do dia, só que desta vez sem os comentários.  Peço por isso desculpa a todos os que o tinham feito, até porque, pelo menos um dos comentários não o cheguei a ler.

12/05/11

Púbicidade Estática



Só espero é que o Sr. Almeida Catroga não considere que a discussão em torno da eliminação da taxa intermédia do IVA ou da diminuição da Taxa Social Única se incluam no monte-de-vénus.


11/05/11

E o futuro, pá?



Sacadura Cabral, PP para os frequentadores do mercado do Levante, com evidente contrariedade democrática, lá admitiu que tinha sido ele a comprar os submarinos, mas sublinhou, alto e bom som, que esse pequeno luxo apenas contribuíra para um aumento de 0,5% do endividamento do país, uma gota de água no oceano que se têm entretido a esbalgir. Apenas uns míseros 0,5%.
Pinto de Sousa, que sempre detestou gente gastadora e ronhosa, não se conteve e contra-atacou – “Sim foi o senhor que os comprou, mas fui eu que os paguei!”. É pá, não se faz!...

Eu, que já suspeitava da irrelevância dos debates pré-eleitorais e de outras manifestações telúricas de dimensão semelhante, vejo confirmada a minha tese - o que continua a interessar às forças políticas são a táctica e a estratégia eleitorais e nunca a discussão séria e ponderada do que verdadeiramente está em causa. O guião está escrito e, tirando as frequentes dessincronizações resultantes de papéis mal decorados e da fraca performance de actores mal amanhados, vamos passar quase um mês a ouvir sistemática e constantemente os mesmos argumentos. É pena.
A mim, cidadão reformado do Casal da Formiga e inveterado coleccionador de sonhos, o que me interessa verdadeiramente neste momento é o futuro, já que o passado está nú e crú e o presente hipoteca grande parte das nossas expectativas, já que a soberania se resume a um “mero” caso de virgindade perdida – já era.
A ajuda financeira que aí vem, suportada por imposições que não deixam grande margem para malabarismos e que enxotam a legitimidade democrática para debaixo do tapete, absorvem a parte de leão dos futuros programas de governo – é claro que me refiro apenas aos partidos que vêem essa ajuda como inevitável – pelo que a discussão sobre os cortes e aumentos, em grande medida, é foguetório. Então e o que sobra? Sobram algumas opções sobre os tais cortes na despesa e no aumento da receita, e sobra (sobretudo) o futuro!
É evidente que para mim, pacato cidadão do Casal da Formiga que sempre gastou menos do que aquilo que tinha e que sempre contribuiu com o seu quinhão para redistribuir, e para o resto, gostaria que os partidos discutissem a forma e o modo como pretendem fazer inverter uma situação que ainda nos poderá levar ao abismo, gostaria que os políticos discutissem como vamos criar riqueza para pagar a factura, e para o resto, como vamos assumir que somos um país de e com futuro.
É evidente que para mim, pacato cidadão do Casal da Formiga que apenas pretende ser feliz, esta discussão só faz sentido se for rigorosa, se dispensar dislates e arrufos de lampinhos, e sobretudo (sublinho: sobretudo!) se tiver uma natureza vincadamente ideológica, pois de nada serve trilhar caminhos paralelos que levam a nenhures se podemos inventar o progresso e o futuro fazendo escolhas, opções políticas, arriscando apostar que não é uma inevitabilidade ter nascido português suave. E por favor, poupem-me à lenga-lenga das culpas e dos desculpados, dos bons e dos maus rapazes, pois todos têm submarinos no armário. E TGV’s também. Sejam sérios por uma vez!


06/05/11

Hebdomadário (I)




Os EUA anunciaram ao mundo a morte de Bin Laden. Os mercado reagiram e os homens também.
Poderia dizer que o assunto é incómodo, mas prefiro sair da incomodidade do silêncio a não revelar o que a minha consciência dita. Este não é um mero exercício do contraditório, mas antes uma questão de princípio que assumo em relação a Bin(es), Pinochet(s), Hitler(es), Estalin(es) e outras criaturas semelhantes que disseminaram e vulgarizaram a barbárie, o terror e o ódio.
Sei que não vivo num mundo ideal, sei que as relações entre os estados se baseiam nos interesses circunstanciais e estratégicos, na hipocrisia, no maquiavelismo económico e no pragmatismo da diplomacia de influência, termo inocente, em português suave, que dissimula a maioria das vezes interesses obscuros e não raramente tenebrosos.
Também sei que nunca me senti confrontado com a angústia de ter perdido familiares ou amigos num atentado terrorista, que não conhecia nenhum ser humano que estivesse nas torres gémeas, no metro de Madrid, em Aden, em Nairobi ou em Tikrit, que não vivo marcado pelo medo nem pela angústia da insegurança, que não tenho de me preocupar com questões de segurança individual ou colectiva, que não tenho de tomar decisões.
Mas nem mesmo assim, ou talvez por isso, eu consiga perceber que alguém se possa regozijar pela morte de alguém. Nem mesmo que essa morte seja a do nosso maior inimigo, pois não acredito que a verdadeira humanidade se construa a tiro.
Talvez o defeito seja meu, mas vou ter de viver com ele.

04/05/11

Eles andam aí


Esta manhã a Lurdes Rata irrompeu de forma extemporânea e inadvertida pelo meu quarto adentro, gritando como se não houvesse amanhã – “Patrãozinho, patrãozinho, já viu o pacote da troika?”
Estremunhado e assarapantado com o inusitado alvoroço, não consegui discernir a mensagem da mulher-a-dias e respondi-lhe com azedume, voz rouca e olhos arremelgados, o que me veio à cabeça, ao mesmo tempo que me virava para o lado contrário procurando posição para continuar o repouso – “Nem o pacote nem as maminhas! Deixa-me mas é sossegado que ainda é madrugada!”.
O raio da mulher não percebeu a interjeição e, acto contínuo, atirou a esfregona ao focinho do patrãozinho, deixando-me a cabeça à razão de juros. A que taxa? Não sei. Só sei que o FMI acabara de fazer a sua primeira vítima.

03/05/11

Horário Nobre




Pinto de Sousa aguardou que o árbitro desse por concluída a primeira parte do Barcelona – Real Madrid para falar ao país. Não o cheguei a ouvir. Aproveitei o intervalo do jogo para fazer uma mija e beber uma mini. Eu e mais uns quantos portugueses.
Este é mais um facto que revela a forma como os merketers da política tratam a carneirada: as questões maiores são despachadas nos intervalos dos jogos da bola.
E ainda agora a campanha vai no adro...

01/05/11

A Trilogia dos éFes (III) - Fado




Na sala sumptuosamente decorada com reposteiros de damasco de cor púrpura, porcelanas das Índias, tapeçarias persas e um opulento contador do século XV, laboriosamente trabalhado em madeira de ébano, soaram os primeiros trinados. O fadista, ignorando as resmas de facturas e contas por pagar que atafulhavam o secular contador, e os credores que do lado de fora da sala esfregavam as mãos de gulosos, fechou os olhos, inspirou fundo e fez soar com paixão estudada uma voz canora de pretendente a arcanjo celestial. O fado era conhecido e a letra rezava mais ou menos assim:

    Que triste fado o meu
    Tudo fiz p’ra te salvar
    Deus sabe o que sofri
    P’ra não chamar o FMI
    E não te deixar afundar

    As culpas que eu não tenho
    Outros por certo as terão
    Pois nesse dia atribulado
    O PEC não foi aprovado
    Por vingança e ambição

    Estou disposto a perdoar
    A quem tanto mal nos quis
    Não é uma união nacional
    Mas apenas um sinal
    P’ra salvar este país

… e assim por diante, enquanto por detrás do fadista um coro de diligentes pavões pupilava a melancólica melodia, lembrando o lamento lôbrego do cativeiro, cantado das entranhas de um barco negreiro.
Terminada a função, sem grande brilho, a guitarrista guardou o instrumento no saco e partiu para umas bodas reais na ilha Britânica, enquanto que o modesto fadista, evidentemente satisfeito com a sua prestação, recolheu a dormir o sono dos justos, deixando a luz da sala acesa e as janelas escancaradas ao pupilar dos pavões.
Não muito longe dali, numa outra tertúlia fadista de não menos fausto e jactância, um marujo alto e espadaúdo procurava cativar uma plateia pejada de serafins e querubins, gente letrada e finória que derramava medidas e sabedoria a rodos, e que em uníssono lhe pediam de forma incessante por outro conhecido fado – “Queremos sociedade - queremos mais sociedade! Queremos sociedade – queremos mais sociedade!”.
Imperturbável, o viçoso fadista levantava a mão em gesto de assentimento e retorquia com um subtil sorriso nos lábios e uma piscadela de olho ao guitarrista - “Calma, calma, chega para todos. Anda Catroga!”


25/04/11

Do Marquês ao Rossio



De braço dado descemos a Avenida. À frente os que restam dos bravos Capitães, seguidos por magotes de gente anónima. Em trinta e sete anos muitos partiram e muitos chegaram. Tal como as angústias e as alegrias daquela noite de setenta e quatro, tal como os sonhos e as ilusões que ousamos inventar e projectar na tela do tempo.
A cada passo vou memoriando amigos e camaradas de armas, enquanto à minha volta se canta a Grândola Vila Morena, Avenida abaixo. Se me perguntarem porque estou comovido, responderei que é por saudade. Se me perguntarem porque estou mesto, responderei que é por Abril. Se me perguntarem o que espero, responderei que não sei. Só sei que hoje desci do Marquês ao Rossio, rodeado de gente que só deseja ser feliz!

25 x 37 = ?

QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS
(Natália Correia)


Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte

20/04/11

A Trilogia dos éFes (II) - Futebol



O adjunto, um tipo pequenito com nome de gramínea, tinha dado o mote – “o mister vai dar show, mas sem direito a perguntas, ok?”.
E assim foi. O mister pré-anunciado como salvador da pátria entrou a passos firmes na sala de imprensa, seguindo de perto pelo séquito e pelo tal adjunto pequenito, um tipo saltitante e de verbo fácil – em todo o lado há um fulano destes que transmitem em energia o que lhes falta em miolo.
Sempre atento aos detalhes, o pequenote adiantou-se ao líder da equipa técnica para ajeitar o microfone de serviço e de seguida olhou-o com ternura fazendo um pequeno aceno com a cabeça, quase imperceptível - “Está tudo a postos mister, show time!”.
O mister, colocando um ar confiante e grave, arregalou o olho azul pestanudo em direcção aos flashes e fez uma pausa pré-estudada para se deixar fotografar. Era evidente que na mise-en-scène havia trabalho de casa. Era notório que estudara o adversário ao pormenor tentando recrear-lhe os tiques e os toques, martelados até à exaustão por diligentes assessores de imagem.
Vinte e três segundos volvidos, o exacto tempo estabelecido para o momento Pepsodente, o mister tossicou duas vezes, passou os dedos pelos cabelos sedosos e iniciou a palestra, acentuado cada palavra com um exuberante movimento de braços e de mãos:
- “O projecto de Portugal, mas já estamos a falar os dois, eu e o FMI, vamos jogar, como eles sempre jogaram: PEC 5, 6, 7. Muitas vezes em casa, como eles também jogaram na Grécia e na Irlanda, vamos aplicar o PEC 8, 9, 10.
O plantel vai estar com 19 jogadores e mais um. Vários jogadores de futuro, que é para verem a nossa linha, mais ou menos, vai ser esta. Vou dar alguns nomes, esta é a nossa linha. Mendes Bota, Loulé, selecção Algarvia. Alberto J. Jardim, Madeira, é um jogador que tem partido a loiça toda, é um ponta de lança. Alberto J. Jardim. Fernando Nobre. Fernando Nobre, porquê? Fernando Nobre para mim é um jogador fantástico! Fantástico! É um jogador que ora joga à esquerda, ora à direita, ora ao centro, é um jogador fantástico! É o campeão da cidadania e costuma sair com brinde – aí uns seiscentos mil votitos.”
Subitamente o mister foi distraído por um jornalista que regurgitava o pesado almoço de cozido à portuguesa, reagindo à inconveniente eructação com visível irritação:
- “Sócio, por favor… peço-lhes por favor, senão paro, estou aqui concentradíssimo, por favor!”
Retomando o controlo da situação, o mister continuou a discorrer sobre o ardiloso projecto:
- “Quem vai ser o vigésimo jogador? O que é que Portugal tem de fazer com a situação económica que está? Tentar buscar dinheiro! Atão, o vigésimo jogador vai ser o melhor jogador líbio da actualidade. Porquê? Temos de ir buscar sponsers! Porquê? Porque se vem o melhor jogador líbio pr’aqui, vai vir charters todas as semanas de quatrocentos, quinhentos militares das forças aliadas para apanhar o fulano e bombardeá-lo. Portugal vai ter comissão nos charters, nas bombas, nas bifanas, etc, etc, etc. Vamos só abrir um departamento para este jogador líbio e aproveitamos para aumentar o IVA, privatizar a Caixa, plafonar os descontos para a Segurança Social, etc, etc, etc. Portugueses, isto é o projecto para irmos para a frente, não há outro. Vamos ganhar, vamos estar lá em cima outra vez! Portugal não pode nunca mais voltar à situação que está hoje!”


19/04/11

Ubíquo




Em entrevista ontem à noite à menina Campos Ferreira, o senador Freitas Amaral afirmou vezes sem conta que tem orgulho em ter feito parte do primeiro governo de Pinto de Sousa, e que este, a dada altura, porventura coincidente com a sua saída – digo eu, tinha mudado e passado a ser outra pessoa. Afinal de contas nada que não tivesse já acontecido ao próprio senador Amaral.
Nada tenho contra as pessoas que mudam de opinião. Só acho é que essa mudança deveria ser acompanhada de adequado período de nojo.

15/04/11

A Trilogia dos éFes (I) - Fátima





O Facebook está para o Sr. Silva como a azinheira da Cova da Iria estava para a Sra. Fátima (a do Céu - não confundir com a de Felgueiras). De quando em vez transcende-se e faz umas aparições na rede social para dar sermões e pregar à nação.
Demos graças por termos um presidente tão empenhado e tão comunicativo. E acreditem que descer do pedestal de luz para falar aos humanos não é tarefa nada fácil para um boliqueimense sobrecelestial que paira acima de qualquer questiúncula temporal.
Só lhe desejo sorte, que não esmoreça e que o Facebook não lhe corte o pio.


12/04/11

Professor Bambo


Nos dias que (es)correm, viscosos e purulentos, marcados pela vertigem da sucessão de episódios recambolescos e pelas habilidades de uma classe política incônscia e maioritariamente composta por gaiatos de idade adulta, escrever algumas linhas sobre o drama que estamos a viver é tão arriscado como partir de férias para a Líbia ou ser piolho na farta cabeleira que a Dra. Manuela Eanes ostentava nos idos da década de oitenta – uma autêntica aventura. Mesmo assim, arrisco, depois de um prudente silêncio a que me auto submeti.
Ora se dúvidas houvessem de que as eleições de 5 de Junho são uma pura perda de tempo e de recursos, com a entrada de rompante da troika FMI/BCE/CE e com a confirmação de que o ponto de partida para a negociação é o famoso PEC IV, rejeitado cirurgicamente pelo Sr. Passos, essas dúvidas ficam esclarecidas e confirmada também a falta de tacto político e de tomates do Sr. Silva. Neste contexto os programas eleitorais são uma quase mera ficção e a discussão passa a centrar-se praticamente e tão só nos protagonistas e numa qualidade que infelizmente tem acompanhado a evolução do crescimento da economia lusitana – o carácter. A confiança, ou a falta dela, parecem assim ensombrar as eleições mais complicadas da nossa vida democrática. O que pensar de gente que parece olvidar o essencial e que omite a situação real? O que dizer de gente que se contradiz à mesma velocidade que Berlusconi papa regazzas? O que pensar de um país em que já nem numa simples lata de salsichas se pode confiar? O que pensar?
É por tudo isto que estou a atingir o ponto de ebulição, de saturação e de explosão, e que cada vez que oiço os (ir)responsáveis políticos, em comunicações e em directos e indirectos induzidos e deduzidos por uma comunicação social ávida de gordura e de colesterol, me lembro deste cavalheiro. Afinal de contas nem o discurso nem os resultados são assim tão diferentes, pois não?


08/04/11

A ler nas cartas



Acho que vou ter de mudar de baralho – as cartas estão-me sempre a dizer o mesmo…
Mas como estamos na Quaresma, vou tentar não dizer (muito) mal do Pinto de Sousa, se me prometerem, é claro, que se vão todos confessar e que não nos voltam a mentir, combinados? 

05/04/11

Assinergia


Ontem, a dado passo da entrevista a Pinto de Sousa, face à incontida irritação do precário e ao frenesim da jornalista, que mostrava sinais evidentes de ter sido tomada de assalto por um exército de pulgas, ao mesmo tempo que era possuída pela alma penada de Margarida Marante, cheguei a temer o pior – “é agora, apagam a luzes de S. Bento e ligam o sistema de rega”. Ou como dizia a vendedeira do Bulhão: “o quadro foi-se abaixo”.
Felizmente os mercados estão atentos e não precisam de grandes estímulos. É sempre a facturar. "O último a sair que apague as luzes".


03/04/11

Repto



A dissolução do parlamento começa a provocar os primeiros estados de alma, polvilhados pelo aceno de lenços brancos e algumas, poucas, fungadelas.
O deputado João Pedrosa, natural do nosso concelho e eleito pelo circulo eleitoral de Leiria, já iniciou as despedidas (?) ao som do tema Time to Say Goodbay, ao qual acrescentou a frase inócua de conteúdo frívolo e aveludado - “a vida é assim, feita de partidas e chegadas, de idas e vindas, o que para uns são partidas para outros chegadas” - uma frase que poderia ter sido debitada mecanicamente por um qualquer futebolista no final de uma partida de resultado desfavorável. Talvez tenha ficado por dizer: “agora há que levantar a cabeça e começar a trabalhar para o próximo jogo”.
Aproveitando o embale de fim de ciclo induzido pelo nosso (de Leiria) deputado, sugiro-lhe que utilize o seu blog para fazer uma avaliação do mandato em que representou o eleitores deste distrito, dando-nos conta do que correu bem e menos bem ao longo deste ano e tal. Seria um excelente serviço que prestava à democracia, num país em que os políticos têm uma imagem muito desgastada e em que a maioria parece cultivar um distanciamento considerável em relação aos seus eleitores.
Fica lançado o desafio com a certeza (minha!) de que se não for acolhido é porque a carta não chegou a Garcia, ou por manifesta falta de agenda.


01/04/11

Cavaco foi "macaco"

.
A par de outros símios, curiosos e galos de Barcelos que por aí regurgitam fel e acidez, cavalgando a insofismável onda estrutural do descontentamento colectivo, nos recentes episódios que desaguaram no pedido de escusa de Pinto de Sousa, assinalado com foguetório e bombinhas de mau cheiro por alguns inconsequentes angariadores de autógrafos sempre disponíveis para uma vendetta, o professor presidente recém-empossado portou-se à altura dos seus pergaminhos. Uma nódoa.
Com medo de que os recentes rancores coleccionados na campanha para Belém começassem a ganhar ranço, não se fez rogado e no dia em que iniciava funções de garante da estabilidade, subiu ao mais alto da tribuna do mosteiro de S. Bento da Saúde para lançar DDT sobre a pulgaria, ignorando por completo os danos colaterais das descuidadas patadas de elefante em loja de enxovais para noiva - mais de metade dos serviços de cristal e das porcelanas de Cantão ficaram em cacos, o noivo e a noiva desiludiram-se e a torpedeada credibilidade do Estado baixou dois furos no cinto, passando à notação de pré-comatoso. Estava dado o mote e confirmada a tremenda argúcia e intuição políticas do mais alto magistrado da nação.
Acto contínuo, Pinto de Sousa, ingenuamente ressabiado, procurou uma vez mais conforto no colo da Sra. Merkel e vai a jogo sem dar cavaco ao próprio e ao parceiro da oposição, piamente convencido de que o engomadinho Passos não haveria de tugir nem de mugir. Pinto de Sousa, não por táctica, mas por vingança, sem sequer imaginar o desfecho da malandrice, acabava de fazer cheque ao rei e papar a rainha.
E o que fez o presidente Silva? Básico: o que seria de esperar da sua postura de estadista apolítico - deitou óleo na fervura, saboreou com vagar duas delícias da pastelaria do lado, recebeu Passos para lhe segredar “vai-te a ele que eu não vi nada!”, e já estafado de tanto procurar soluções, tratou de difundir através dos canais preferenciais (na rede, of course…), a inexistência de “margem de manobra”. Olha a novidade - que o Sr. Silva tem pouca brecagem, já todos o sabíamos.
E foi assim, sem grande espanto, que ao fim de quinze dias a encanar a perna à rã, a beber chás com os partidos de responsabilidade limita e infusões com os sábios e descomprometidos conselheiros de Estado, o presidente anunciou ao país o que há muito estava anunciado – aceitou a vitimização de Pinto de Sousa, dissolveu o parlamento em dois decilitros e meio de champanhe sem gás, marcou nova falsa partida para 5 de Junho e lançou na chaga do desemprego temporário, governantes, deputados e uma resma incontável de primos, primas, amantes e umas figurinhas délficas que dão pelo curioso nome de “assessores”.
Não estou seguro de que baralhar, partir e voltar a dar venha trazer algo de novo, uma vez que o baralho já não tem trunfos e os jogadores são useiros e vezeiros no bluff e na batota. Também não estou certo de que o Sr. Silva tivesse conseguido resolver a questão por sua iniciativa, apelando a todos para se comportarem como homenzinhos e para porem acima de tudo os mais elevados interesses do país. Mas caramba, pelo menos podia ter tentado!... Podia ter mostrado que, para além da vasta bagagem e experiência que alardoou ao longo da boçal campanha, tem inteligência e coragem para enfrentar um dos mais complicados momentos da nossa existência enquanto Estado-Nação. Ao menos podia ter tentado…
Não fosse hoje o dia das mentiras e tudo o que acabo de escrever seria um insuportável pesadelo.


26/03/11

Passos perdidos




 
Mas afinal, o que é que eu percebo de política? Tal como de futebol – nada!!! É por isso que no fim de um entrevista, ou de uma jogatana, quando ouço os comentadores encartados embevecerem-se nas suas mais profundos dissertações analíticas, fico sempre com a sensação de ter visto outra coisa completamente diferente. Mas como eles é que são os entendidos, ámen…


23/03/11

Absíntio

Hoje senti pena de Pinto de Sousa. Dele e de Cavaco, de Passos, de Louçã, de Jerónimo, de Portas. Do país. Não por comiseração ou compaixão, mas por confirmar a pequenez destes líderes e dos seus séquitos. Por confirmar que não estão à altura dos cargos que desempenham. Por confirmar que, por mais evidentes que sejam as consequências dos caminhos escolhidos, ninguém, repito – ninguém! - se sente responsável por absolutamente nada.
Hoje senti-me responsável e senti vergonha. Tenho subestimado os deveres e sido complacente com os direitos. Não tenho sido exigente para com aqueles em quem tenho confiado, para não me sentir obrigado a ser rigoroso.
Hoje senti que as minhas dúvidas estão a dar lugar ao desalento e que me resta muito pouco em que confiar.
Hoje procurei respostas, procurei compreender o que vai acontecer amanhã, mas ninguém ousou arriscar. Apenas o Instituto de Meteorologia vaticina – períodos de céu muito nublado. Chuva e aguaceiros. Condições favoráveis à ocorrência de trovoada e granizo. Que merda. Pensava eu que a primavera tinha chegado.