Continuo a seguir com redobrado desinteresse os galopins que, à semelhança do pequeno Edmundo, se vão entretendo a brincar com as bolinhas. Será que também sabem de cor as respectivas idades?
26/05/11
25/05/11
Galopinagem (I)
Estou até convencido que qualquer economista, perdão, que qualquer aluno do primeiro ano de economia, percebe perfeitamente o que este senhor diz. A menos que o fulano seja mais um daqueles profetas da desgraça que Pinto de Sousa tanto gosta de exorcizar.
19/05/11
Contratação Colectiva
Uma vez que a popularucha Merkl pretende harmonizar a nível comunitário o período de férias e a idade da reforma, agradeço que inclua no pacote as gratificações pelo bom desempenho, já em vigor na Alemanha.
Hebdomadário (II)
O periódico urbano dá assim corpo (e estampa), à real noção que tem da notícia, enquanto elemento de forma e de conteúdo, às prioridades que elege na sua percepção da realidade comunitária, e ao voyeurismo que escolhe como trunfo promocional para despachar as tiragens.
Entre o casamento gay e os touros, dois temas ironicamente insolúveis, prefiro o do homem que mordeu o cão. Haja algum que morda também nas canelas do ardina.
16/05/11
Micro-deuses
Esquecido o melancólico e delico-doce episódio da fungada despedida do Mosteiro de São Bento da Saúde ao som de Sinatra, o ex-deputado Feteira Pedrosa, de acordo com o seu blogue de viagens e de pecados veniais, percorre agora ao ritmo de um galgo, as capelas, ermidas e absidíolas do distrito, prometendo à Sra. da Vieira de Leiria, virgem da sua particular devoção, vinte voltas de joelhos nus à Catedral da Luz e três tachadas de arrozinho de lampreia pela Pascoela, se a santinha interceder junto do Misericordioso, para que lhe seja concedida a ventura de mais um contrato a termo certo, por quatro anitos. A seu favor, abona o modesto ex-futuro-deputado, está uma medalha de mérito do município de Figueiró dos Vinhos, a qual lhe foi concedida em agraciamento pelo seus préstimos na construção de um itinerário complementar, distinção essa que se recusa a receber por pudicícia. Gostaria eu próprio, que não sou de romarias, que o município da cidade vidreira também o agraciasse com igual mesura, pelas prestimosas súplicas e preces a favor do alargamento do Casal da Lebre, mas ao que parece os únicos medalhões disponíveis são os de vitela, do Pingo Doce, esta semana a 7,95€ o quilo. E talvez não seja grande ideia, porque deixam nódoa.
______________________________
Nota de rodapé:
por alguma razão o Dr. Feteira Pedrosa não aceitou o meu repto e não deu à estampa a avaliação do mandato ora terminado. Paciência. Presumo contudo que a sua performance tenha sido bastante apreciada uma vez que subiu no ranking. No entanto, já que não quis auto avaliar-se, tratarei eu mesmo de tomar o assunto em mãos a 5 de Junho. Talvez não se escape de uma “raposa”.
14/05/11
Back Office
Por razões que obviamente me são alheias, de acordo com o meu assessor informático esta semana o Blogger parece que esteve com problemas no carborador. O dois posts anteriores estiveram temporariamente no limbo e voltaram hoje à luz do dia, só que desta vez sem os comentários. Peço por isso desculpa a todos os que o tinham feito, até porque, pelo menos um dos comentários não o cheguei a ler.
12/05/11
Púbicidade Estática
O Coordenador do programa eleitoral do PSD lamentou ontem, na SIC-Notícias, que a troca de acusações entre os líderes partidários domine a pré-campanha. Eduardo Catroga preferia ver os partidos políticos e os media a discutir questões estruturais em vez de "pentelhos". Concordo e vou mais longe, a discussão está pejada de chatos.
Só espero é que o Sr. Almeida Catroga não considere que a discussão em torno da eliminação da taxa intermédia do IVA ou da diminuição da Taxa Social Única se incluam no monte-de-vénus.
11/05/11
E o futuro, pá?
Sacadura Cabral, PP para os frequentadores do mercado do Levante, com evidente contrariedade democrática, lá admitiu que tinha sido ele a comprar os submarinos, mas sublinhou, alto e bom som, que esse pequeno luxo apenas contribuíra para um aumento de 0,5% do endividamento do país, uma gota de água no oceano que se têm entretido a esbalgir. Apenas uns míseros 0,5%.
Pinto de Sousa, que sempre detestou gente gastadora e ronhosa, não se conteve e contra-atacou – “Sim foi o senhor que os comprou, mas fui eu que os paguei!”. É pá, não se faz!...
Eu, que já suspeitava da irrelevância dos debates pré-eleitorais e de outras manifestações telúricas de dimensão semelhante, vejo confirmada a minha tese - o que continua a interessar às forças políticas são a táctica e a estratégia eleitorais e nunca a discussão séria e ponderada do que verdadeiramente está em causa. O guião está escrito e, tirando as frequentes dessincronizações resultantes de papéis mal decorados e da fraca performance de actores mal amanhados, vamos passar quase um mês a ouvir sistemática e constantemente os mesmos argumentos. É pena.
A mim, cidadão reformado do Casal da Formiga e inveterado coleccionador de sonhos, o que me interessa verdadeiramente neste momento é o futuro, já que o passado está nú e crú e o presente hipoteca grande parte das nossas expectativas, já que a soberania se resume a um “mero” caso de virgindade perdida – já era.
A ajuda financeira que aí vem, suportada por imposições que não deixam grande margem para malabarismos e que enxotam a legitimidade democrática para debaixo do tapete, absorvem a parte de leão dos futuros programas de governo – é claro que me refiro apenas aos partidos que vêem essa ajuda como inevitável – pelo que a discussão sobre os cortes e aumentos, em grande medida, é foguetório. Então e o que sobra? Sobram algumas opções sobre os tais cortes na despesa e no aumento da receita, e sobra (sobretudo) o futuro!
É evidente que para mim, pacato cidadão do Casal da Formiga que sempre gastou menos do que aquilo que tinha e que sempre contribuiu com o seu quinhão para redistribuir, e para o resto, gostaria que os partidos discutissem a forma e o modo como pretendem fazer inverter uma situação que ainda nos poderá levar ao abismo, gostaria que os políticos discutissem como vamos criar riqueza para pagar a factura, e para o resto, como vamos assumir que somos um país de e com futuro.
É evidente que para mim, pacato cidadão do Casal da Formiga que apenas pretende ser feliz, esta discussão só faz sentido se for rigorosa, se dispensar dislates e arrufos de lampinhos, e sobretudo (sublinho: sobretudo!) se tiver uma natureza vincadamente ideológica, pois de nada serve trilhar caminhos paralelos que levam a nenhures se podemos inventar o progresso e o futuro fazendo escolhas, opções políticas, arriscando apostar que não é uma inevitabilidade ter nascido português suave. E por favor, poupem-me à lenga-lenga das culpas e dos desculpados, dos bons e dos maus rapazes, pois todos têm submarinos no armário. E TGV’s também. Sejam sérios por uma vez!
06/05/11
Hebdomadário (I)
Os EUA anunciaram ao mundo a morte de Bin Laden. Os mercado reagiram e os homens também.
Poderia dizer que o assunto é incómodo, mas prefiro sair da incomodidade do silêncio a não revelar o que a minha consciência dita. Este não é um mero exercício do contraditório, mas antes uma questão de princípio que assumo em relação a Bin(es), Pinochet(s), Hitler(es), Estalin(es) e outras criaturas semelhantes que disseminaram e vulgarizaram a barbárie, o terror e o ódio.
Sei que não vivo num mundo ideal, sei que as relações entre os estados se baseiam nos interesses circunstanciais e estratégicos, na hipocrisia, no maquiavelismo económico e no pragmatismo da diplomacia de influência, termo inocente, em português suave, que dissimula a maioria das vezes interesses obscuros e não raramente tenebrosos.
Também sei que nunca me senti confrontado com a angústia de ter perdido familiares ou amigos num atentado terrorista, que não conhecia nenhum ser humano que estivesse nas torres gémeas, no metro de Madrid, em Aden, em Nairobi ou em Tikrit, que não vivo marcado pelo medo nem pela angústia da insegurança, que não tenho de me preocupar com questões de segurança individual ou colectiva, que não tenho de tomar decisões.
Mas nem mesmo assim, ou talvez por isso, eu consiga perceber que alguém se possa regozijar pela morte de alguém. Nem mesmo que essa morte seja a do nosso maior inimigo, pois não acredito que a verdadeira humanidade se construa a tiro.
Talvez o defeito seja meu, mas vou ter de viver com ele.
04/05/11
Eles andam aí
Esta manhã a Lurdes Rata irrompeu de forma extemporânea e inadvertida pelo meu quarto adentro, gritando como se não houvesse amanhã – “Patrãozinho, patrãozinho, já viu o pacote da troika?”
Estremunhado e assarapantado com o inusitado alvoroço, não consegui discernir a mensagem da mulher-a-dias e respondi-lhe com azedume, voz rouca e olhos arremelgados, o que me veio à cabeça, ao mesmo tempo que me virava para o lado contrário procurando posição para continuar o repouso – “Nem o pacote nem as maminhas! Deixa-me mas é sossegado que ainda é madrugada!”.
O raio da mulher não percebeu a interjeição e, acto contínuo, atirou a esfregona ao focinho do patrãozinho, deixando-me a cabeça à razão de juros. A que taxa? Não sei. Só sei que o FMI acabara de fazer a sua primeira vítima.
O raio da mulher não percebeu a interjeição e, acto contínuo, atirou a esfregona ao focinho do patrãozinho, deixando-me a cabeça à razão de juros. A que taxa? Não sei. Só sei que o FMI acabara de fazer a sua primeira vítima.
03/05/11
Horário Nobre
Pinto de Sousa aguardou que o árbitro desse por concluída a primeira parte do Barcelona – Real Madrid para falar ao país. Não o cheguei a ouvir. Aproveitei o intervalo do jogo para fazer uma mija e beber uma mini. Eu e mais uns quantos portugueses.
Este é mais um facto que revela a forma como os merketers da política tratam a carneirada: as questões maiores são despachadas nos intervalos dos jogos da bola.
E ainda agora a campanha vai no adro...
01/05/11
A Trilogia dos éFes (III) - Fado
Na sala sumptuosamente decorada com reposteiros de damasco de cor púrpura, porcelanas das Índias, tapeçarias persas e um opulento contador do século XV, laboriosamente trabalhado em madeira de ébano, soaram os primeiros trinados. O fadista, ignorando as resmas de facturas e contas por pagar que atafulhavam o secular contador, e os credores que do lado de fora da sala esfregavam as mãos de gulosos, fechou os olhos, inspirou fundo e fez soar com paixão estudada uma voz canora de pretendente a arcanjo celestial. O fado era conhecido e a letra rezava mais ou menos assim:
Que triste fado o meu
Tudo fiz p’ra te salvar
Deus sabe o que sofri
P’ra não chamar o FMI
E não te deixar afundar
As culpas que eu não tenho
Outros por certo as terão
Pois nesse dia atribulado
O PEC não foi aprovado
Por vingança e ambição
Estou disposto a perdoar
A quem tanto mal nos quis
Não é uma união nacional
Mas apenas um sinal
P’ra salvar este país
… e assim por diante, enquanto por detrás do fadista um coro de diligentes pavões pupilava a melancólica melodia, lembrando o lamento lôbrego do cativeiro, cantado das entranhas de um barco negreiro.
Terminada a função, sem grande brilho, a guitarrista guardou o instrumento no saco e partiu para umas bodas reais na ilha Britânica, enquanto que o modesto fadista, evidentemente satisfeito com a sua prestação, recolheu a dormir o sono dos justos, deixando a luz da sala acesa e as janelas escancaradas ao pupilar dos pavões.
Não muito longe dali, numa outra tertúlia fadista de não menos fausto e jactância, um marujo alto e espadaúdo procurava cativar uma plateia pejada de serafins e querubins, gente letrada e finória que derramava medidas e sabedoria a rodos, e que em uníssono lhe pediam de forma incessante por outro conhecido fado – “Queremos sociedade - queremos mais sociedade! Queremos sociedade – queremos mais sociedade!”.
Imperturbável, o viçoso fadista levantava a mão em gesto de assentimento e retorquia com um subtil sorriso nos lábios e uma piscadela de olho ao guitarrista - “Calma, calma, chega para todos. Anda Catroga!”
25/04/11
Do Marquês ao Rossio
De braço dado descemos a Avenida. À frente os que restam dos bravos Capitães, seguidos por magotes de gente anónima. Em trinta e sete anos muitos partiram e muitos chegaram. Tal como as angústias e as alegrias daquela noite de setenta e quatro, tal como os sonhos e as ilusões que ousamos inventar e projectar na tela do tempo.
A cada passo vou memoriando amigos e camaradas de armas, enquanto à minha volta se canta a Grândola Vila Morena, Avenida abaixo. Se me perguntarem porque estou comovido, responderei que é por saudade. Se me perguntarem porque estou mesto, responderei que é por Abril. Se me perguntarem o que espero, responderei que não sei. Só sei que hoje desci do Marquês ao Rossio, rodeado de gente que só deseja ser feliz!
25 x 37 = ?
QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS
(Natália Correia)
Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte
20/04/11
A Trilogia dos éFes (II) - Futebol
O adjunto, um tipo pequenito com nome de gramínea, tinha dado o mote – “o mister vai dar show, mas sem direito a perguntas, ok?”.
E assim foi. O mister pré-anunciado como salvador da pátria entrou a passos firmes na sala de imprensa, seguindo de perto pelo séquito e pelo tal adjunto pequenito, um tipo saltitante e de verbo fácil – em todo o lado há um fulano destes que transmitem em energia o que lhes falta em miolo.
Sempre atento aos detalhes, o pequenote adiantou-se ao líder da equipa técnica para ajeitar o microfone de serviço e de seguida olhou-o com ternura fazendo um pequeno aceno com a cabeça, quase imperceptível - “Está tudo a postos mister, show time!”.
O mister, colocando um ar confiante e grave, arregalou o olho azul pestanudo em direcção aos flashes e fez uma pausa pré-estudada para se deixar fotografar. Era evidente que na mise-en-scène havia trabalho de casa. Era notório que estudara o adversário ao pormenor tentando recrear-lhe os tiques e os toques, martelados até à exaustão por diligentes assessores de imagem.
Vinte e três segundos volvidos, o exacto tempo estabelecido para o momento Pepsodente, o mister tossicou duas vezes, passou os dedos pelos cabelos sedosos e iniciou a palestra, acentuado cada palavra com um exuberante movimento de braços e de mãos:
- “O projecto de Portugal, mas já estamos a falar os dois, eu e o FMI, vamos jogar, como eles sempre jogaram: PEC 5, 6, 7. Muitas vezes em casa, como eles também jogaram na Grécia e na Irlanda, vamos aplicar o PEC 8, 9, 10.
O plantel vai estar com 19 jogadores e mais um. Vários jogadores de futuro, que é para verem a nossa linha, mais ou menos, vai ser esta. Vou dar alguns nomes, esta é a nossa linha. Mendes Bota, Loulé, selecção Algarvia. Alberto J. Jardim, Madeira, é um jogador que tem partido a loiça toda, é um ponta de lança. Alberto J. Jardim. Fernando Nobre. Fernando Nobre, porquê? Fernando Nobre para mim é um jogador fantástico! Fantástico! É um jogador que ora joga à esquerda, ora à direita, ora ao centro, é um jogador fantástico! É o campeão da cidadania e costuma sair com brinde – aí uns seiscentos mil votitos.”
Subitamente o mister foi distraído por um jornalista que regurgitava o pesado almoço de cozido à portuguesa, reagindo à inconveniente eructação com visível irritação:
- “Sócio, por favor… peço-lhes por favor, senão paro, estou aqui concentradíssimo, por favor!”
Retomando o controlo da situação, o mister continuou a discorrer sobre o ardiloso projecto:
- “Quem vai ser o vigésimo jogador? O que é que Portugal tem de fazer com a situação económica que está? Tentar buscar dinheiro! Atão, o vigésimo jogador vai ser o melhor jogador líbio da actualidade. Porquê? Temos de ir buscar sponsers! Porquê? Porque se vem o melhor jogador líbio pr’aqui, vai vir charters todas as semanas de quatrocentos, quinhentos militares das forças aliadas para apanhar o fulano e bombardeá-lo. Portugal vai ter comissão nos charters, nas bombas, nas bifanas, etc, etc, etc. Vamos só abrir um departamento para este jogador líbio e aproveitamos para aumentar o IVA, privatizar a Caixa, plafonar os descontos para a Segurança Social, etc, etc, etc. Portugueses, isto é o projecto para irmos para a frente, não há outro. Vamos ganhar, vamos estar lá em cima outra vez! Portugal não pode nunca mais voltar à situação que está hoje!”
19/04/11
Ubíquo
Em entrevista ontem à noite à menina Campos Ferreira, o senador Freitas Amaral afirmou vezes sem conta que tem orgulho em ter feito parte do primeiro governo de Pinto de Sousa, e que este, a dada altura, porventura coincidente com a sua saída – digo eu, tinha mudado e passado a ser outra pessoa. Afinal de contas nada que não tivesse já acontecido ao próprio senador Amaral.
Nada tenho contra as pessoas que mudam de opinião. Só acho é que essa mudança deveria ser acompanhada de adequado período de nojo.
15/04/11
A Trilogia dos éFes (I) - Fátima
O Facebook está para o Sr. Silva como a azinheira da Cova da Iria estava para a Sra. Fátima (a do Céu - não confundir com a de Felgueiras). De quando em vez transcende-se e faz umas aparições na rede social para dar sermões e pregar à nação.
Demos graças por termos um presidente tão empenhado e tão comunicativo. E acreditem que descer do pedestal de luz para falar aos humanos não é tarefa nada fácil para um boliqueimense sobrecelestial que paira acima de qualquer questiúncula temporal.
Só lhe desejo sorte, que não esmoreça e que o Facebook não lhe corte o pio.
12/04/11
Professor Bambo
Nos dias que (es)correm, viscosos e purulentos, marcados pela vertigem da sucessão de episódios recambolescos e pelas habilidades de uma classe política incônscia e maioritariamente composta por gaiatos de idade adulta, escrever algumas linhas sobre o drama que estamos a viver é tão arriscado como partir de férias para a Líbia ou ser piolho na farta cabeleira que a Dra. Manuela Eanes ostentava nos idos da década de oitenta – uma autêntica aventura. Mesmo assim, arrisco, depois de um prudente silêncio a que me auto submeti.
Ora se dúvidas houvessem de que as eleições de 5 de Junho são uma pura perda de tempo e de recursos, com a entrada de rompante da troika FMI/BCE/CE e com a confirmação de que o ponto de partida para a negociação é o famoso PEC IV, rejeitado cirurgicamente pelo Sr. Passos, essas dúvidas ficam esclarecidas e confirmada também a falta de tacto político e de tomates do Sr. Silva. Neste contexto os programas eleitorais são uma quase mera ficção e a discussão passa a centrar-se praticamente e tão só nos protagonistas e numa qualidade que infelizmente tem acompanhado a evolução do crescimento da economia lusitana – o carácter. A confiança, ou a falta dela, parecem assim ensombrar as eleições mais complicadas da nossa vida democrática. O que pensar de gente que parece olvidar o essencial e que omite a situação real? O que dizer de gente que se contradiz à mesma velocidade que Berlusconi papa regazzas? O que pensar de um país em que já nem numa simples lata de salsichas se pode confiar? O que pensar?
É por tudo isto que estou a atingir o ponto de ebulição, de saturação e de explosão, e que cada vez que oiço os (ir)responsáveis políticos, em comunicações e em directos e indirectos induzidos e deduzidos por uma comunicação social ávida de gordura e de colesterol, me lembro deste cavalheiro. Afinal de contas nem o discurso nem os resultados são assim tão diferentes, pois não?
08/04/11
A ler nas cartas
Acho que vou ter de mudar de baralho – as cartas estão-me sempre a dizer o mesmo…
Mas como estamos na Quaresma, vou tentar não dizer (muito) mal do Pinto de Sousa, se me prometerem, é claro, que se vão todos confessar e que não nos voltam a mentir, combinados?
05/04/11
Assinergia
Ontem, a dado passo da entrevista a Pinto de Sousa, face à incontida irritação do precário e ao frenesim da jornalista, que mostrava sinais evidentes de ter sido tomada de assalto por um exército de pulgas, ao mesmo tempo que era possuída pela alma penada de Margarida Marante, cheguei a temer o pior – “é agora, apagam a luzes de S. Bento e ligam o sistema de rega”. Ou como dizia a vendedeira do Bulhão: “o quadro foi-se abaixo”.
Felizmente os mercados estão atentos e não precisam de grandes estímulos. É sempre a facturar. "O último a sair que apague as luzes".
03/04/11
Repto
A dissolução do parlamento começa a provocar os primeiros estados de alma, polvilhados pelo aceno de lenços brancos e algumas, poucas, fungadelas.
O deputado João Pedrosa, natural do nosso concelho e eleito pelo circulo eleitoral de Leiria, já iniciou as despedidas (?) ao som do tema Time to Say Goodbay, ao qual acrescentou a frase inócua de conteúdo frívolo e aveludado - “a vida é assim, feita de partidas e chegadas, de idas e vindas, o que para uns são partidas para outros chegadas” - uma frase que poderia ter sido debitada mecanicamente por um qualquer futebolista no final de uma partida de resultado desfavorável. Talvez tenha ficado por dizer: “agora há que levantar a cabeça e começar a trabalhar para o próximo jogo”.
Aproveitando o embale de fim de ciclo induzido pelo nosso (de Leiria) deputado, sugiro-lhe que utilize o seu blog para fazer uma avaliação do mandato em que representou o eleitores deste distrito, dando-nos conta do que correu bem e menos bem ao longo deste ano e tal. Seria um excelente serviço que prestava à democracia, num país em que os políticos têm uma imagem muito desgastada e em que a maioria parece cultivar um distanciamento considerável em relação aos seus eleitores.
Fica lançado o desafio com a certeza (minha!) de que se não for acolhido é porque a carta não chegou a Garcia, ou por manifesta falta de agenda.
01/04/11
Cavaco foi "macaco"
.
A par de outros símios, curiosos e galos de Barcelos que por aí regurgitam fel e acidez, cavalgando a insofismável onda estrutural do descontentamento colectivo, nos recentes episódios que desaguaram no pedido de escusa de Pinto de Sousa, assinalado com foguetório e bombinhas de mau cheiro por alguns inconsequentes angariadores de autógrafos sempre disponíveis para uma vendetta, o professor presidente recém-empossado portou-se à altura dos seus pergaminhos. Uma nódoa.
A par de outros símios, curiosos e galos de Barcelos que por aí regurgitam fel e acidez, cavalgando a insofismável onda estrutural do descontentamento colectivo, nos recentes episódios que desaguaram no pedido de escusa de Pinto de Sousa, assinalado com foguetório e bombinhas de mau cheiro por alguns inconsequentes angariadores de autógrafos sempre disponíveis para uma vendetta, o professor presidente recém-empossado portou-se à altura dos seus pergaminhos. Uma nódoa.
Com medo de que os recentes rancores coleccionados na campanha para Belém começassem a ganhar ranço, não se fez rogado e no dia em que iniciava funções de garante da estabilidade, subiu ao mais alto da tribuna do mosteiro de S. Bento da Saúde para lançar DDT sobre a pulgaria, ignorando por completo os danos colaterais das descuidadas patadas de elefante em loja de enxovais para noiva - mais de metade dos serviços de cristal e das porcelanas de Cantão ficaram em cacos, o noivo e a noiva desiludiram-se e a torpedeada credibilidade do Estado baixou dois furos no cinto, passando à notação de pré-comatoso. Estava dado o mote e confirmada a tremenda argúcia e intuição políticas do mais alto magistrado da nação.
Acto contínuo, Pinto de Sousa, ingenuamente ressabiado, procurou uma vez mais conforto no colo da Sra. Merkel e vai a jogo sem dar cavaco ao próprio e ao parceiro da oposição, piamente convencido de que o engomadinho Passos não haveria de tugir nem de mugir. Pinto de Sousa, não por táctica, mas por vingança, sem sequer imaginar o desfecho da malandrice, acabava de fazer cheque ao rei e papar a rainha.
E o que fez o presidente Silva? Básico: o que seria de esperar da sua postura de estadista apolítico - deitou óleo na fervura, saboreou com vagar duas delícias da pastelaria do lado, recebeu Passos para lhe segredar “vai-te a ele que eu não vi nada!”, e já estafado de tanto procurar soluções, tratou de difundir através dos canais preferenciais (na rede, of course…), a inexistência de “margem de manobra”. Olha a novidade - que o Sr. Silva tem pouca brecagem, já todos o sabíamos.
E foi assim, sem grande espanto, que ao fim de quinze dias a encanar a perna à rã, a beber chás com os partidos de responsabilidade limita e infusões com os sábios e descomprometidos conselheiros de Estado, o presidente anunciou ao país o que há muito estava anunciado – aceitou a vitimização de Pinto de Sousa, dissolveu o parlamento em dois decilitros e meio de champanhe sem gás, marcou nova falsa partida para 5 de Junho e lançou na chaga do desemprego temporário, governantes, deputados e uma resma incontável de primos, primas, amantes e umas figurinhas délficas que dão pelo curioso nome de “assessores”.
Não estou seguro de que baralhar, partir e voltar a dar venha trazer algo de novo, uma vez que o baralho já não tem trunfos e os jogadores são useiros e vezeiros no bluff e na batota. Também não estou certo de que o Sr. Silva tivesse conseguido resolver a questão por sua iniciativa, apelando a todos para se comportarem como homenzinhos e para porem acima de tudo os mais elevados interesses do país. Mas caramba, pelo menos podia ter tentado!... Podia ter mostrado que, para além da vasta bagagem e experiência que alardoou ao longo da boçal campanha, tem inteligência e coragem para enfrentar um dos mais complicados momentos da nossa existência enquanto Estado-Nação. Ao menos podia ter tentado…
Não fosse hoje o dia das mentiras e tudo o que acabo de escrever seria um insuportável pesadelo.
26/03/11
Passos perdidos
Mas afinal, o que é que eu percebo de política? Tal como de futebol – nada!!! É por isso que no fim de um entrevista, ou de uma jogatana, quando ouço os comentadores encartados embevecerem-se nas suas mais profundos dissertações analíticas, fico sempre com a sensação de ter visto outra coisa completamente diferente. Mas como eles é que são os entendidos, ámen…
23/03/11
Absíntio
Hoje senti pena de Pinto de Sousa. Dele e de Cavaco, de Passos, de Louçã, de Jerónimo, de Portas. Do país. Não por comiseração ou compaixão, mas por confirmar a pequenez destes líderes e dos seus séquitos. Por confirmar que não estão à altura dos cargos que desempenham. Por confirmar que, por mais evidentes que sejam as consequências dos caminhos escolhidos, ninguém, repito – ninguém! - se sente responsável por absolutamente nada.
Hoje senti-me responsável e senti vergonha. Tenho subestimado os deveres e sido complacente com os direitos. Não tenho sido exigente para com aqueles em quem tenho confiado, para não me sentir obrigado a ser rigoroso.
Hoje senti que as minhas dúvidas estão a dar lugar ao desalento e que me resta muito pouco em que confiar.
Hoje procurei respostas, procurei compreender o que vai acontecer amanhã, mas ninguém ousou arriscar. Apenas o Instituto de Meteorologia vaticina – períodos de céu muito nublado. Chuva e aguaceiros. Condições favoráveis à ocorrência de trovoada e granizo. Que merda. Pensava eu que a primavera tinha chegado.
17/03/11
Mata-sanos
Da entrevista ao ainda primeiro-ministro Pinto de Sousa, retive uma frase que resume a algaraviada que durante longos minutos foi debitando com ar de bichano abandonado e tom compungido, frase essa dita já no declinar da mise en scène melo-dramática, quando a sensual Ana Lourenço lhe anunciou o acordo com a ANTRAM. Pinto de Sousa abriu prontamente o catálogo das poses, guardou cuidadosamente o ar grave nº 1 e retirou o sorriso nº 3, o qual aplicou com destreza sobre o rosto ainda hirsuto. Subitamente o estúdio ficou iluminando e da boca de Pinto de Sousa saiu o soundbyte que escapou à totalidade dos oráculos e dos aprendizes de hermenêutica: “… Portugal precisa dos Camionistas!”. Estava dito o essencial.
…
Na véspera, após a esclarecedora comunicação ao país de Pinto de Sousa e o concomitante colapso da minha vesícula biliar, tinha prometido à minha dignidade que no dia seguinte não iria assistir à entrevista conduzida pela bela, inteligente, charmosa, educada e sempre bem preparada Ana Lourenço, um luxo que claramente Pinto de Sousa não merecia – quer pelo calibre da interlocutora, quer pela preciosidade do meu tempo.
Porque tenho sempre uma réstia de esperança e uma fé residual (inocentemente pueril) de que o Pai Natal é chinês e também compra divida soberana, cedi à tentação na esperança de ver Pinto de Sousa assumir responsabilidades, encontrando nos erros cometidos o caminho da mudança e a configuração de um futuro mais digno. Em vão… Pinto de Sousa continua a vender sabões e gazuas a preço de saldo, a apontar armas a quem dele discorda perguntando de forma hipócrita e desafiadora pelas alternativas aos seus épicos esforço e estratégia, mantendo contudo uma energia telúrica que lhe permite ainda continuar a arregimentar apoios inauditos, que o meu estádio de desenvolvimento cognitivo não permite de todo entender - "Querem o garrote do FMI, a bancarrota, ou aceitam que Sócrates pode salvar o país?"
Confesso por isso que tenho um sério problema, já não acredito em nada que Pinto de Sousa diz, pois os factos são a negação de tudo o que proclamou. Porque afinal, Pinto de Sousa, que à semelhança de Cavaco nunca se engana e raramente tem dúvidas, descarrega nos agiotas e na falta de regulação dos mercados do peixe e da fruta, os males da Grande Europa, não percebendo que enquanto os outros retomam o crescimento económico nós continuamos parados à borda da estrada, de forma despreocupada, a assobiar para o lado e a mijar contra o vento, na esperança de que alguém passe e nos dê boleia. Pinto de Sousa não consegue entender que a coisa é estrutural e que, para além de uma grave crise económica, o país enfrenta uma grave crise de valores e de credibilidade. E nem mesmo quando confrontado com os cenários divergentes do Banco de Portugal, do Banco Central Europeu ou da Comissão Europeia, Pinto de Sousa desarma – fixa os olhos chispados em Ana Lourenço, sem sequer perceber a sensualidade desarmante da jornalista, assume a predestinação dos seus dias e tomando sobre os ombros o pesado fardo, defende de forma apologética e estupidamente convicta a sua “Teoria Socrocêntrica”, declamando em voz grave a frase soprada pelos deuses e pelos assessores - "Eppur si muove!". Só que Pinto de Sousa não é Galileu Galilei, e Passos Coelho muito menos. Estamos por isso... quilhados!
Provocação
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Hello?! Hello?! Está aí alguém?...
14/03/11
Camelídeos
A diferença entre um camelo e um dromedário está no número de bossas. A teimosia, o narcisismo e a empáfia é comum. Dizem os livros que normalmente precipitam a sua efemeridade na solidão do deserto que laboriosamente foram conquistando aos terrenos férteis, sós, abandonados, ignorados até pelos parasitas e sacripantas que lhes engrossaram a corte enquanto havia sangue, vinho e mel para sugar.
Como hoje estou demasiado azedo, fico-me por aqui. Ah, já me esquecia - e não gosto de líderes carismáticos. Nem mesmo quando estão em forma.
09/03/11
Ironia das ironias
Na semana passada o camarada Jerónimo, em representação do sopro colectivo, entre palavras de ordem e alguns (inevitáveis) perdigotos, “bufou” as velas de mais um aniversário do seu partido, o que se releva - quem não reconhece, ou percebe, o papel e a importância sociológica e cívica que o PCP teve em Portugal nos últimos noventa anos, ou anda distraído ou anda a meter-se na poncha, a afamada bebida espirituosa do arquipélago das bananas.
Por entre os habituais discursos e profissões de fé, Jerónimo, armado de shotgun e munido de balas de borracha, fez uma vez mais pontaria a Sócrates – “Este Governo mais tarde ou mais cedo acabará por prestar contas". “Pois é camarada” – pensei eu – “e nessa altura o povo que é quem mais ordena corre com Pinto de Sousa e indigita o siamês Passos Coelho, uma realidade incongruente face à leitura política do camarada secretário-geral. Irónico, não é?”
A questão é que, para o bem e para o mal o PCP não é um partido de Estado, no mais genuíno sentido da expressão. Talvez por isso o camarada Jerónimo não tenha percebido a ironia das suas próprias palavras, nem (talvez) a principal razão da “ala fundadora” do PS continuar a não evidenciar manifestos sinais de contestação ao engenheiro Pinto de Sousa.
03/03/11
Concertação Doméstica
Como não há duas sem três, e como estamos no princípio do mês, (outra vez!), a Lurdes Rata encostou-me à parede: exigiu revisão salarial bem acima da taxa de inflação e melhores condições de trabalho – “sem farramenta decente, como é que eu hei-de dar rendimento a passar camisas? Olhe que até a mulher do meu vizinho Quim Chifrudo é mais quente do que esta bodega deste ferro, c’um carago!”.
Para ganhar tempo e para me recompor da reivindicação obscena, contrapus com negociação, concertação social e coisa e tal.
Face à minha irredutibilidade em pactuar de forma irresponsável com o aumento desmesurado da despesa, a azémola, que é fina que nem um alho e que não deixa que lhe façam o ninho nos entrefolhos, acenou-me com dois pares de camisas e com a esfregona – “Quer camisinhas passadas e o chão lavadinho, quer? Olhe, peça às desavergonhadas que costuma trazer cá p’ra casa, elas que lhe façam o servicinho completo! Ao menos que gemam a fazer alguma coisa decente!”
Fiquei varado! Senti-me humilhado! Embaraçado! Então aumentam-me a água, a luz, o pão e a gasosa, a reforma parece que encolhe a cada Orçamento de Estado e a porra da mulher-a-dias ainda me vem com ameaças e insultos? Mas quem é esta proletáriazeca para pôr em causa o capital que todos os meses, religiosamente, lhe paga por fora o arroz e o toucinho? – “Oiça lá, ó sua mal-agradecida, acha que lhe pago pouco, é?”. A troca de argumentos subiu de tom. “Pouco? Pouco? Você sabe lá o que é governar uma casa de família com menos de novecentos euros por mês?” – retorquiu Lurdes Rata. Quando ouvi a cifra, até os olhos me brilharam e a resposta não se fez esperar: “Ó minha senhora, ó minha senhora, calma lá, a senhora é uma privilegiada, é o que é. Sabe com quanto é que se governa a Sra. Dona Cavaco Silva? Com oitocentos euros, mulher, oitocentos euros por mês, ouviu bem?!... E arranja-se melhor que você, sua pindérica!”.Lurdes ia para me responder à letra, mas conseguiu abafar a tempo um colérico “Vá p’ró car…”, semi-cerrando os dentes. A concertação não estava a resultar e Lurdes saiu porta fora fazendo-a fechar com estrondo.
Já mais a frio pus-me a matutar e facilmente concluí uma “La Palissada”: eu preciso da Lurdes e a Lurdes precisa de mim, isso é certo e sabido! Aliás, precisamos todos uns dos outros! Talvez por isso não fosse pior dispensar alguma racionalidade para compor coisa.
Ora, sabendo eu que o graveto não estica e que não estou minimamente interessado em “colocar dívida” nas mãos de agiotas, só me sobra uma solução a contento das partes: reduzo ao mínimo de subsistência nos vinhos, no fumeiro, nos charutos e nas viagens, compro uma porra dum ferro de engomar xpto, proponho à Lurdes que faça menos horas sem lhe baixar a avença, e se no fim do ano as poupanças o permitirem e a Lurdes tiver cumprido, ainda leva uma prenda generosa.
Mas a Lurdes vai ter que me prometer três coisas: que não vê a Júlia Pinheiro enquanto passa as camisas a ferro, que não fica na palheta com a vizinha enquanto estende a roupa no arame e que vai ler as instruções do ferro novo antes de lhe dar uso, bom uso.
Vou já marcar uma nova ronda negocial.
21/02/11
Mandrake
Lúcia, uma vizinha minha, divorciada e com uma catrefada de garotos, que em cachopa até era toda jeitosa mas que se deixou engordar mais de duas arrobas logo após a primeira gravidez, passou por mim fina que nem um palito, com o nalgueiro reduzido a um terço, as maminhas a metade e o rosto, habitualmente roliço e carnudo, revelando alguns dos traços que a haviam tornado apetecível noutros tempos - “Porra vizinha Lúcia, nem a estava a reconhecer!... Está toda elegante… anda a fazer dieta ou fez uma plástica?” A mulher corou de raiva e respondeu com aspereza: “O raio que o parta, seu Don Juan de meia tigela, acabou-se foi o fundo de desemprego e agora como merda!”. Pelo tom de voz e pela riqueza do léxico, pressenti de imdediato que o galanteio tinha sido desadequado e que tinha irritado a pequena. Mas como tenho o coração ao pé da boca e o verbo na ponta da língua, já não fui a tempo de evitar um inconveniente piropo à matador: “Mas olhe que pelos vistos tem-lhe feito bem!...” Acto contínuo, a mulher assentou-me duas galhetas e seguiu passeio fora a praguejar.
Magoado no ego e com as bochechas a arder, tentei recobrar o ânimo e a dignidade ultrajada pela mal-agradecida lambisgóia. Foi então que entendi o alcance do desabafo do engenheiro Pinto de Sousa - "Não percebo como algum líder fica maldisposto quando os números são bons". E eu também não caro Pinto de Sousa. Bom, estamos a falar de números de circo, certo?
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