26/03/11

Passos perdidos




 
Mas afinal, o que é que eu percebo de política? Tal como de futebol – nada!!! É por isso que no fim de um entrevista, ou de uma jogatana, quando ouço os comentadores encartados embevecerem-se nas suas mais profundos dissertações analíticas, fico sempre com a sensação de ter visto outra coisa completamente diferente. Mas como eles é que são os entendidos, ámen…


23/03/11

Absíntio

Hoje senti pena de Pinto de Sousa. Dele e de Cavaco, de Passos, de Louçã, de Jerónimo, de Portas. Do país. Não por comiseração ou compaixão, mas por confirmar a pequenez destes líderes e dos seus séquitos. Por confirmar que não estão à altura dos cargos que desempenham. Por confirmar que, por mais evidentes que sejam as consequências dos caminhos escolhidos, ninguém, repito – ninguém! - se sente responsável por absolutamente nada.
Hoje senti-me responsável e senti vergonha. Tenho subestimado os deveres e sido complacente com os direitos. Não tenho sido exigente para com aqueles em quem tenho confiado, para não me sentir obrigado a ser rigoroso.
Hoje senti que as minhas dúvidas estão a dar lugar ao desalento e que me resta muito pouco em que confiar.
Hoje procurei respostas, procurei compreender o que vai acontecer amanhã, mas ninguém ousou arriscar. Apenas o Instituto de Meteorologia vaticina – períodos de céu muito nublado. Chuva e aguaceiros. Condições favoráveis à ocorrência de trovoada e granizo. Que merda. Pensava eu que a primavera tinha chegado.


17/03/11

Mata-sanos


Da entrevista ao ainda primeiro-ministro Pinto de Sousa, retive uma frase que resume a algaraviada que durante longos minutos foi debitando com ar de bichano abandonado e tom compungido, frase essa dita já no declinar da mise en scène melo-dramática, quando a sensual Ana Lourenço lhe anunciou o acordo com a ANTRAM. Pinto de Sousa abriu prontamente o catálogo das poses, guardou cuidadosamente o ar grave nº 1 e retirou o sorriso nº 3, o qual aplicou com destreza sobre o rosto ainda hirsuto. Subitamente o estúdio ficou iluminando e da boca de Pinto de Sousa saiu o soundbyte que escapou à totalidade dos oráculos e dos aprendizes de hermenêutica: “… Portugal precisa dos Camionistas!”. Estava dito o essencial.


Na véspera, após a esclarecedora comunicação ao país de Pinto de Sousa e o concomitante colapso da minha vesícula biliar, tinha prometido à minha dignidade que no dia seguinte não iria assistir à entrevista conduzida pela bela, inteligente, charmosa, educada e sempre bem preparada Ana Lourenço, um luxo que claramente Pinto de Sousa não merecia – quer pelo calibre da interlocutora, quer pela preciosidade do meu tempo.
Porque tenho sempre uma réstia de esperança e uma fé residual (inocentemente pueril) de que o Pai Natal é chinês e também compra divida soberana, cedi à tentação na esperança de ver Pinto de Sousa assumir responsabilidades, encontrando nos erros cometidos o caminho da mudança e a configuração de um futuro mais digno. Em vão… Pinto de Sousa continua a vender sabões e gazuas a preço de saldo, a apontar armas a quem dele discorda perguntando de forma hipócrita e desafiadora pelas alternativas aos seus épicos esforço e estratégia, mantendo contudo uma energia telúrica que lhe permite ainda continuar a arregimentar apoios inauditos, que o meu estádio de desenvolvimento cognitivo não permite de todo entender - "Querem o garrote do FMI, a bancarrota, ou aceitam que Sócrates pode salvar o país?"
 Confesso por isso que tenho um sério problema, já não acredito em nada que Pinto de Sousa diz, pois os factos são a negação de tudo o que proclamou. Porque afinal, Pinto de Sousa, que à semelhança de Cavaco nunca se engana e raramente tem dúvidas, descarrega nos agiotas e na falta de regulação dos mercados do peixe e da fruta, os males da Grande Europa, não percebendo que enquanto os outros retomam o crescimento económico nós continuamos parados à borda da estrada, de forma despreocupada, a assobiar para o lado e a mijar contra o vento, na esperança de que alguém passe e nos dê boleia. Pinto de Sousa não consegue entender que a coisa é estrutural e que, para além de uma grave crise económica, o país enfrenta uma grave crise de valores e de credibilidade. E nem mesmo quando confrontado com os cenários divergentes do Banco de Portugal, do Banco Central Europeu ou da Comissão Europeia, Pinto de Sousa desarma – fixa os olhos chispados em Ana Lourenço, sem sequer perceber a sensualidade desarmante da jornalista, assume a predestinação dos seus dias e tomando sobre os ombros o pesado fardo, defende de forma apologética e estupidamente convicta a sua “Teoria Socrocêntrica”, declamando em voz grave a frase soprada pelos deuses e pelos assessores - "Eppur si muove!". Só que Pinto de Sousa não é Galileu Galilei, e Passos Coelho muito menos. Estamos por isso... quilhados!


Provocação


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Hello?! Hello?! Está aí alguém?...


14/03/11

Camelídeos





A diferença entre um camelo e um dromedário está no número de bossas. A teimosia, o narcisismo e a empáfia é comum. Dizem os livros que normalmente precipitam a sua efemeridade na solidão do deserto que laboriosamente foram conquistando aos terrenos férteis, sós, abandonados, ignorados até pelos parasitas e sacripantas que lhes engrossaram a corte enquanto havia sangue, vinho e mel para sugar.

Como hoje estou demasiado azedo, fico-me por aqui. Ah, já me esquecia - e não gosto de líderes carismáticos. Nem mesmo quando estão em forma.


09/03/11

Ironia das ironias





Na semana passada o camarada Jerónimo, em representação do sopro colectivo, entre palavras de ordem e alguns (inevitáveis) perdigotos, “bufou” as velas de mais um aniversário do seu partido, o que se releva - quem não reconhece, ou percebe, o papel e a importância sociológica e cívica que o PCP teve em Portugal nos últimos noventa anos, ou anda distraído ou anda a meter-se na poncha, a afamada bebida espirituosa do arquipélago das bananas.
Por entre os habituais discursos e profissões de fé, Jerónimo, armado de shotgun e munido de balas de borracha, fez uma vez mais pontaria a Sócrates – “Este Governo mais tarde ou mais cedo acabará por prestar contas". “Pois é camarada” – pensei eu – “e nessa altura  o povo que é quem mais ordena corre com Pinto de Sousa e indigita o siamês Passos Coelho, uma realidade incongruente face à leitura política do camarada secretário-geral. Irónico, não é?”
A questão é que, para o bem e para o mal o PCP não é um partido de Estado, no mais genuíno sentido da expressão. Talvez por isso o camarada Jerónimo não tenha percebido a ironia das suas próprias palavras, nem (talvez) a principal razão da “ala fundadora” do PS continuar a não evidenciar manifestos sinais de contestação ao engenheiro Pinto de Sousa.


03/03/11

Concertação Doméstica



Como não há duas sem três, e como estamos no princípio do mês, (outra vez!), a Lurdes Rata encostou-me à parede: exigiu revisão salarial bem acima da taxa de inflação e melhores condições de trabalho – “sem farramenta decente, como é que eu hei-de dar rendimento a passar camisas? Olhe que até a mulher do meu vizinho Quim Chifrudo é mais quente do que esta bodega deste ferro, c’um carago!”.
Para ganhar tempo e para me recompor da reivindicação obscena, contrapus com negociação, concertação social e coisa e tal.
Face à minha irredutibilidade em pactuar de forma irresponsável com o aumento desmesurado da despesa, a azémola, que é fina que nem um alho e que não deixa que lhe façam o ninho nos entrefolhos, acenou-me com dois pares de camisas e com a esfregona – “Quer camisinhas passadas e o chão lavadinho, quer? Olhe, peça às desavergonhadas que costuma trazer cá p’ra casa, elas que lhe façam o servicinho completo! Ao menos que gemam a fazer alguma coisa decente!”
Fiquei varado! Senti-me humilhado! Embaraçado! Então aumentam-me a água, a luz, o pão e a gasosa, a reforma parece que encolhe a cada Orçamento de Estado e a porra da mulher-a-dias ainda me vem com ameaças e insultos? Mas quem é esta proletáriazeca para pôr em causa o capital que todos os meses, religiosamente, lhe paga por fora o arroz e o toucinho? – “Oiça lá, ó sua mal-agradecida, acha que lhe pago pouco, é?”. A troca de argumentos subiu de tom. “Pouco? Pouco? Você sabe lá o que é governar uma casa de família com menos de novecentos euros por mês?” – retorquiu Lurdes Rata. Quando ouvi a cifra, até os olhos me brilharam e a resposta não se fez esperar: “Ó minha senhora, ó minha senhora, calma lá, a senhora é uma privilegiada, é o que é. Sabe com quanto é que se governa a Sra. Dona Cavaco Silva? Com oitocentos euros, mulher, oitocentos euros por mês, ouviu bem?!... E arranja-se melhor que você, sua pindérica!”.
Lurdes ia para me responder à letra, mas conseguiu abafar a tempo um colérico “Vá p’ró car…”, semi-cerrando os dentes. A concertação não estava a resultar e Lurdes saiu porta fora fazendo-a fechar com estrondo.
Já mais a frio pus-me a matutar e facilmente concluí uma “La Palissada”: eu preciso da Lurdes e a Lurdes precisa de mim, isso é certo e sabido! Aliás, precisamos todos uns dos outros! Talvez por isso não fosse pior dispensar alguma racionalidade para compor coisa.
Ora, sabendo eu que o graveto não estica e que não estou minimamente interessado em “colocar dívida” nas mãos de agiotas, só me sobra uma solução a contento das partes: reduzo ao mínimo de subsistência nos vinhos, no fumeiro, nos charutos e nas viagens, compro uma porra dum ferro de engomar xpto, proponho à Lurdes que faça menos horas sem lhe baixar a avença, e se no fim do ano as poupanças o permitirem e a Lurdes tiver cumprido, ainda leva uma prenda generosa.
Mas a Lurdes vai ter que me prometer três coisas: que não vê a Júlia Pinheiro enquanto passa as camisas a ferro, que não fica na palheta com a vizinha enquanto estende a roupa no arame e que vai ler as instruções do ferro novo antes de lhe dar uso, bom uso.
Vou já marcar uma nova ronda negocial.

21/02/11

Mandrake




Lúcia, uma vizinha minha, divorciada e com uma catrefada de garotos, que em cachopa até era toda jeitosa mas que se deixou engordar mais de duas arrobas logo após a primeira gravidez, passou por mim fina que nem um palito, com o nalgueiro reduzido a um terço, as maminhas a metade e o rosto, habitualmente roliço e carnudo, revelando alguns dos traços que a haviam tornado apetecível noutros tempos - “Porra vizinha Lúcia, nem a estava a reconhecer!... Está toda elegante… anda a fazer dieta ou fez uma plástica?” A mulher corou de raiva e respondeu com aspereza: “O raio que o parta, seu Don Juan de meia tigela, acabou-se foi o fundo de desemprego e agora como merda!”. Pelo tom de voz e pela riqueza do léxico, pressenti de imdediato que o galanteio tinha sido desadequado e que tinha irritado a pequena. Mas como tenho o coração ao pé da boca e o verbo na ponta da língua, já não fui a tempo de evitar um inconveniente piropo à matador: “Mas olhe que pelos vistos tem-lhe feito bem!...” Acto contínuo, a mulher assentou-me duas galhetas e seguiu passeio fora a praguejar.
Magoado no ego e com as bochechas a arder, tentei recobrar o ânimo e a dignidade ultrajada pela mal-agradecida lambisgóia. Foi então que entendi o alcance do desabafo do engenheiro Pinto de Sousa - "Não percebo como algum líder fica maldisposto quando os números são bons". E eu também não caro Pinto de Sousa. Bom, estamos a falar de números de circo, certo?


17/02/11

Os velhos não têm futuro



Fogachos!... É de fogachos que vamos vivendo, na maioria das vezes ao ritmo do tempo e do modo media, da vontade dos editores dos noticiários, os quais muitas vezes trazem à luz do dia, notícias por nós consciente ou inconscientemente ignoradas. E o país reage. Torpe, mas reage. Reage aos fogachos com indignação, com legislação avulsa ou com um inusitado espanto de quem passa os dias a assobiar para o lado, como se no resto do tempo em que os holofotes da informação não incidem sobre o tema, tudo se passasse de maneira diferente.
Os exemplos são mais que muitos. Reporto-me por isso a alguns dos mais recentes: os partos nas ambulâncias, por alturas em que o governo decidiu fechar serviços de obstetrícia (pareciam proliferar como cogumelos), as mortes causadas pela gripe das aves primeiro, e pela gripe A, depois, pandemias pré-anunciadas com contornos nublosos, fazendo esquecer os milhares que morrem todos os anos de gripe sazonal, e, mais recentemente, os velhos que morrem ao abandono da família e do estado (com letra pequena).
De repente descobrimos, graças às televisões que fizeram caixa de ressonância de uma notícia quase ignorada, vinda a público num jornal diário, que há velhos a morrer sem que ninguém se importe. Quase ninguém, corrijo. E digo “velhos”, porque é disso que se trata. O nosso estado de desenvolvimento civilizacional e o nosso modelo de vida não permitem luxos, não permitem dar tempo e atenção a quem já ultrapassou o prazo de validade produtiva, contributiva e reprodutiva. A pirâmide de idades é implacável e recomenda que as fraldas, os cuidados básicos e os mimos, sejam restringidos, por questões de racionalidade económica e de sustentabilidade, a menores de três anos, tudo por solidariedade geracional. Porque afinal os velhos representam um problema económico sério, caramba. Porque deles, a única coisa que realmente se pode esperar, é darem trabalho e despesa, tempo e dinheiro, o binómio que baliza o nosso anedótico estado social. O mesmo estado que se recusa a arrombar a porta da velha quando a vizinha sinaliza a sua ausência, mas que não tem pejo nem relutância em profanar-lhe o jazigo, para cobrar umas míseras centenas de euros de impostos em dívida. Pudera, a velha não tinha como se deslocar às Finanças. E isto é brutal...
Fica por isso justificado que a nossa sociedade, uma sociedade de tipo ocidental, UE, avançada, moderna, inovadora, cientifica, decrete que a dimensão humana passe a “coisa”, e que um ser humano passe a ter “utilidade”, medida em anos e em estados de saúde, pois, afinal de contas os velhos não têm futuro.
Obliteramos contudo algo de muito, mas mesmo muito importante, geneticamente importante, diria: se os velhos não têm futuro, menos futuro têm as sociedades que não os sabem amar e cuidar. Até porque um dia quase todos o seremos - velhos. E aí chegados, será que suportaremos que nos digam que não temos futuro?

14/02/11

Micro-deuses




Os media, e mais recentemente os blogs e as redes sociais, para o bem e para o mal, são veículos cada vez mais importantes e eficazes na comunicação e na difusão de pensamento, ao serviço de causas maiores e menores, bombardeadas ao ritmo alucinante dos sound bites e dos gigabites, ou mais suavemente das rotativas de quarta à noite.
Não é por isso de estranhar que a democratização no seu acesso, se tenha traduzido numa insubstimável capacidade de fogo, ao alcance tanto de doutrinários como de grueiros de fim-de-semana. Não é por isso de estranhar que aumente exponencialmente a quantidade de imberbes popularuchos, com acentuada vesguíce no olho director, a atirar canhoada sobre elefantes e estorninhos, e o inusitado aumento do consumo de cartuchos de pólvora seca. Púúú...
Mas, se a tudo isto juntarmos a quantidade astronómica de balas perdidas, disparadas sem instinto e sem micron de inteligência, está claro de se ver que tudo não passa de inodora flatulência que, pelos vistos e pelas estatísticas, até é bastante apreciada.
Gostos…


10/02/11

Moção Capilar


Louçã contou as espingardas e concluiu que lhe faltava uma. Olhou para a sua esquerda e, pelo esgar marialva de Jerónimo, percebeu que este a tinha e que se preparava para lhe dar uso. Só havia uma saída - olhou nos olhos o engenheiro Pinto de Sousa, assentou os calcanhares no chão e, comprimindo energicamente as nádegas e os laços abdominais, fez fluir ao pescoço de peru golfadas de sangue. Da boca saiu-lhe, de um jorro, a deixa mortal: “Cara ou coroa, engenheiro? Se for cara, o seu grupo parlamentar tem de dar cinco voltas ao Mosteiro de S. Bento da Saúde, carregando-o a si e mais à sua pandilha, em cima do andor. Se for coroa, chamamos a Servilusa para o carregar daqui p’ra fora. E se ninguém quiser fazer uma vaquinha, nós pagamos sozinhos a corrida para o Alto de S. João!”. “E para quando é isso?” – questionou o engenheiro entre o espantado e o incrédulo, mas espreitando pelo canto do olho para a sua direita, onde os líderes da nova mas mais que provável recauchutada boysband, fazendo-se distraídos, se entretinham a estudar listas de nomes de putativos candidatos a qualquer-coisa, e a limpar a baba que lhes escorria de forma abundante pelos cantos da boca. “Daqui a um mês, depois do Silva assentar arraiais em Belém!” – respondeu Louçã com desprezo. Pinto de Sousa estremeceu.
Subitamente assaltado por pensamentos apocalípticos de mercados irados e esfaimados, insaciáveis, lambuzando-se com bracinhos e perninhas de ministros e de secretários de estado, e bebendo absinto em crânios de deputados do seu grupo parlamentar, Pinto de Sousa matutou de si para si : “Isto não me está a acontecer… e logo agora que eu estava a «colocar dívida» como quem limpa o cú a meninos. Os mercados vão reagir, vão ter um AVC, c’um carago!”.
Os olhos injectados de sangue deixavam perceber que o espanto inicial começava a dar lugar à raiva e à angustia. “Este lagostim de extrema-esquerda não se fica a rir de mim! Ai isso é que não fica!” – pensou. “Vou mandar o Pinho fazer-lhe uns chavelhos e uns piretes, que ele é habilidoso nessas coisas. Só para enxovalhar o gajo!”. A ira estava a toldar-lhe o discernimento e só quando olhou para a sua esquerda em busca do dito, é que se recordou que Pinho há muito que o abandonara, depois de uma bagatela com Bernardino.
De seguida procurou Assis com o olhar, mas o seu chefe de bancada, de expressão triste e cabisbacho, fixava meio envergonhado a barguilha das calças de cotelê, como se procurasse nas imediações do fecho éclair algum conforto para a desfeita que o compagnom de route da campanha alegre, lhe acabara de causar.
Porém, ao lado de Pinto de Sousa, o cenário não era mais animador. Os ministros estavam subitamente a enviar sms’s em simultâneo, pequenas frases, tweets, onde o denominador comum era qualquer coisa como: “vê lá se me arranjas aí um lugarzito na administração”.
Cada vez mais embaraçado Pinto de Sousa reclinou a cabeça para trás, tentando alcançar Gama, procurando no datário da Fajã de Baixo o conforto de um braço amigo que o fizesse emergir.
Gama, apercebendo-se do inusitado embaraço e da carência de afecto que o engenheiro evidenciava, agarrou numa cópia do regimento e, ajeitando os óculos na ponta do nariz tomou a palavra para proferir em tom grave: “Senhor Primeiro-Ministro, senhores membros do Governo, senhores Deputados, face à gravidade da situação anunciada para daqui a um mês, pelo deputado Louçã,  vamos ter de fazer uma pausa retemperadora, de acordo com o 3-A do art…” – mas Gama já não conseguiu acabar a frase, foi interrompido por gritos vindos do meio da bancada do PS onde um deputado de barba à diplomata e estatura acima da média, agitando frenéticamente um pequeno pedaço de papel numa mão e um lápis cor de rosa na outra, berrava eufórico num sotaque vincadamente avieiro: “3-A? 3-A? Um tire num barque de dois canes, Sr. Presidente! Um tire num barque de dois canes!”.

 ...

E o meu problema, sabem qual é? Não estamos nada em fim de ciclo, como alguns nos querem fazer crer. Estamos mas é a chegar a mais um intervalo no jogo das cadeiras. Estamos mas é f……
É o que somos e o país que temos. Tudo ao nível desta croniqueta.


09/02/11

Peanuts?

Ora aí está um tema que me interessa, o Congresso das Exportações, que decorreu ontem em Santa Maria da Feira, e as respectivas conclusões. E interessa-me porquê? Obviamente porque vivo numa terra e num país que dependem dos mercados externos como de pão para a boca. Estou por isso de acordo com os que defendem que esta é a melhor forma para promover o premente crescimento da economia, que teima em não chegar.
Por estranho que pareça, este não é um tema caro nas “tertúlias de opinião e de discussão” cá do burgo, o pessoal entretém-se mais a discutir o decrépito comércio de tradição, as lojas do chinês que florescem ao ritmo a que os coelhos fecundam as fêmeas, a passar atestados de compaixão aos insípidos comerciantes e aos seus estremunhados representantes, a passar atestados de culpa ao poder, aos clientes e ao transito, e coisas do género.
Tenho porém como certo que a nossa economia, actual e futura, mais do que passar pelo mercado indígena, passa sobretudo pela capacidade de conquistar mercados no exterior, sejam eles onde forem. Acrescentar valor e vende-lo para outros países, com a correspondente entrada de pilim, é um imperativo, assim como imperativo é aproveitar essa mesma tarefa produtiva para igualmente fazer diminuir a nossa dependência do exterior, com a consequente diminuição das importações, a outra face da moeda. Até parece fácil.
Sei que não há unguentos milagrosos e que há muito que a Senhora de Fátima não mostra serviço, talvez também padeça de problemas de produtividade tal como a nossa economia, mas tenho como boas todas as iniciativas que levem a que se caminhe na direcção de fomentar as exportações.
Não posso contudo esquecer que as boas intenções não chegam e que são até perniciosas, obstaculizam a mudança. No pressuposto de que da discussão nasce a luz e da ilusão de que algo está a ser feito, vai-se mantendo inalterado o status quo que nos tem afundado, atirando irresponsavelmente para as calendas as reformas que já levam anos de atraso. (Não me refiro às “douradas”, obviamente.)
É por isso necessário que se reflicta, que se oiça, que se tirem conclusões e sobretudo, sobretudo(!!!), consequências. É importante que o poder esteja para tal predisposto e que desligue o descomplicador que teima em deixar no on, a consumir de forma obscena os nossos parcos recursos, para desespero de quem leva estas coisas a sério. Pelo menos até ao dia em que as forças faltem e a descrença tome de vez o lugar da coragem e do inconformismo.
Tomo por isso como provocação final as palavras do ex-presidente Lula – “governar é fazer o óbvio”. Até parece fácil.


08/02/11

A pôr a leitura em dia



Deu dois filhos à menina Guimarães e uma entrevista ao Público. Parece ser caso para dizer que o sujeito, que já não estando propriamente no apogeu do seu vigor juvenil, tem tomates. Parece.
A ver se os consegue manter viçosos e florejantes até meados de Abril, altura em que terá uma banca de dimensões consideráveis, com visibilidade, para expor a suposta exuberância escarlate dos ditos cujos. Isso é que era de homem!


02/02/11

Wikileaks



Entre dois gargarejos sulfurosos, mais uma revelação mediúnica do famoso site de apanhados do Sr. Assange.

A chancelaria da República Islâmica do Irão em Lisboa, sempre atenta aos mais insignificantes detalhes, terá reportado a Teerão a “falta de apetite do Sr. Silva para usar a bomba atómica”, informação que terá merecido de imediato a Ahmadinejad, um curto e lacónico comentário: “Maricas!”
O líder iraniano parece assim cada vez mais alinhado com o Sr. Passos, que se perfila como o próximo ayatollah constitucional.

01/02/11

Termalismo Sénior



Baixei a S. Pedro do Sul para os habituais tratamentos termais à maldita rinite alérgica, que me causa incómodo e embaraço, e a outras maleitas do corpo e da alma.
Hoje, como recompensa por tantos anos de maus tratos auto-infligidos, decidi-me por um estimulante duche Vichy e por uma massagem geral, às mãos hábeis e ternas de uma jovem relaxoterapeuta em início de carreira, mas com bastante escola. Fui às estrelas!... E quando voltei encontrei tudo na mesma: o desemprego nos dois dígitos, os mercados a afiarem o dente, o FMI a comandar as tropas à distância e o pagode a discutir minudências, merdices mesmo.
C’uma porra, por mais inalações que faça ou esfregadelas que leve, as palavras azedas e inconciliáveis no rescaldo da vitória não dão tréguas e voltam a matraquear-me a mona como um vergalho aboleimado – “É uma vitória da verdade sobre a calúnia. (…) Esta é a noite da vitória da dignidade.” – À barca, à barca, senhores. Quem vem lá? - "É o imaculado Sr. Silva, meu anjo." - T'ás-me  a dar graxa ou é a veres se reajo? Queres vingança, é? Apanhar os  mandantes da campanha negra? E trazes gravador escondido como o Sá Fernandes?
Acho que, p’ra esquecer as mágoas e a dormência, vou até ao Rochedo, aqui ao lado, na aldeia do Fujaco, entregar-me de corpo e alma a um bom naco de vitela à Lafões, abundantemente regado por um supremo e divino Quinta dos Carvalhais. Dos deuses…

De São Pedro do Sul para o Conto do Vigário, este vosso serviçal.


25/01/11

Demo Cracia

Ontem de manhã a Lurdes Rata chegou cá a casa com um sorrisinho nos lábios, um esgar irónico de provocadora, e a fronha marcada – o olho direito apresentava um hematoma em tons de um exuberante azul-lilás, por certo, em resultado de mais uma das habituais investidas selváticas da cavalgadura a que chama marido e que por habito trata de forma patética e de uma meiguice quase obscena por, “o meu Tininho”.
“Então Lurdes, o que é que se passa? Parece que hoje acordaste bem disposta…” – atirei-lhe eu. “Bem feita! Bem feita!” – respondeu com ar vitorioso – “O Sócrates perdeu! É bem feita! Julgava que podia andar a mentir e a roubar a gente a torto e a direito, não pensava? Toma lá que já almoçaste!”.
Quase tocado pelo inusitado entusiasmo de uma mulher cujo avô foi torturado às mãos da PIDE e que sempre fez questão de anunciar que só votava “na foice e no martelo”, atirei-lhe o isco - “Não me digas que votaste no Cavaco?”. Olhou para mim com ar irado e disparou - “Eu quero é que o Cavaco e Silva se quilhe! Pus lá a cruz mas não foi para ele ganhar, foi p’ró Sócrates perder, esse bandido! Olhe que até a minha comadre Judite que é toda PS e que não falta a uma Quinta-Feira da Ascensão nas Árvores, votou naquele senhor que é médico dos pobrezinhos. Ela diz que não grama o Alegre desde que ele fez aquela malandrice de concorrer contra o Soares e isso não lhe perdoa. Olhe, isto é tudo a mesma quadrilha, um bando de vigaristas é o que é. Razão tem a minha filha e o namorado que nem puseram lá os pés para votar. Ficaram à lareira o dia todo a ver filmes e a fazer marmelada. Eu até já a avisei: Vânia Catarina, se queres estar na marmelada com o Mauro, ao menos vai para o teu quarto que cá em casa não quero poucas-vergonhas. Mas olhe que aquele da Madeira é que disse umas verdades, o que eu me ri com aquele malandro.”
Face à clarividência da análise produzida pela Lurdes Rata, na minha cabeça fez-se luz, afinal aqueles resultados que na véspera me pareciam inverosímeis, estapafúrdios, bizarros até, tinham afinal um motivo, uma explicação plausível, uma razão mediata - uma profunda descrença e irritação, e um preocupante alheamento, tudo traduzido no “voto contra”, um voto negativo, de censura, não a favor de algum candidato ou de algum projecto, mas simplesmente um voto de negação: um voto em Cavaco contra Sócrates, um voto em Alegre contra Cavaco, um voto em Nobre contra Alegre, um voto em Lopes porque é do contra, um voto em Coelho contra a racionalidade, um voto em branco (ou nulo) contra o status e até os abstencionistas, como habitualmente, votaram contra a democracia.
“Então e esse olho à Belenenses? Não me digas que o Tininho te foi outra vez às fuças?!”. Lurdes baixou os olhos num misto de vergonha e de embaraço, não conseguindo conter uma lágrima amarga. “Mas porque não deixas tu esse animal, mulher?” – perguntei-lhe revoltado. Retomando a compostura Lurdes Rata respondeu conformada – “Ele não me trata bem, não me dá alegrias nem me dá prazer. No fundo até tenho pena dele, porque se calhar ele nem é mau homem. E deste já sei eu o que espero. Já viu se a seguir me calhasse um pior?”. “Pior que o quê?” – questionei-a meio aparvalhado.


18/01/11

Memória do Futuro




Apesar de não parecer hoje foi dia de festa, c’uma porra! Há lá maior legado que contar entre os nossos com gente destemida e valente, lutadora, c’uma porra? Há lá maior testamento que enfrentar a pena capital e o degredo, com coragem, com dignidade e sem medo? Há lá maior carácter e bravura do que lutar contra a ditadura? Por aquilo em que se acredita de forma inabalável? Não deveria ser esta a marca d’água deste povo, carago? Mas… agora reparo, o que é feito de nós, c’uma porra? De mim, de ti, do vizinho, do vidreiro, da empalhadeira, do lapidário, do metalúrgico, do gajo que tirou o curso à noite, na Escola Comercial e Industrial, enquanto de dia colhia bolas de fogo à boca do forno? Que é feito da solidariedade, da camaradagem, da sobriedade, do sacrifício, da honra, da vaidade de ser gente boa? Onde está a fibra, o nervo, a vontade? Onde está a dignidade? Onde está a esperança, catano? Entretemo-nos a discutir merdas e merdinhas e o pintelho e mais o pinchavelho e o carago, e esquecemos que o futuro já aí vem, que o tempo perdido jamais se recupera, que o mais importante somos todos e não cada um de nós…
Os Marinhenses com memória celebraram hoje a memória. Não por saudade mas por uma réstia de orgulho, pela glória que lhes corre nas veias e pela perpétua vontade de vencer, até os seus próprios medos. Pois se eles ousaram enfrentar, porque não  haveremos nós de ousar também? De quem é o pinhal? É nosso, foscasse!!!



16/01/11

Razões para não apostar no Sr. Silva (IV)



4ª Razão


“O Estranho Caso das Escutas”, uma película de argumento entre o púrrio, o pífio e o mirabolante, realizada pelo Sr. Silva, e que estreou nas salas de todos o país no pretérito verão, é paradigmática. A forma leviana e inconsequente como o dito senhor tratou de um assunto de tamanho melindre é, no mínimo, infeliz (para não dizer irresponsável). É que, a ser verdade, dar-lhe-ia razões supra óbvias para rescindir por justa causa o contrato a termo com o precário engenheiro Pinto de Sousa, mas que, a ser mentira, deveria ter desencadeado uma atitude enérgica e viril, ou mesmo hormonal, culminando na aplicação de alguns açoites ou mesmo vergastadas de cavalo marinho no Sr. Lima e nos seus acólitozitos.
Mas, como se deveria então ter portado o Sr. Silva? Não sou eu que o digo, mas é o próprio que responde, e na internet, como ele tanto gosta.


É por esta e por outras que me irrita gente que diz uma coisa mas que faz o seu contrário. Irrita-me profundamente!!!


14/01/11

Razões para não apostar no Sr. Silva (III)



3ª Razão

 
O Sr. Silva, que em tempos se entreteve a negociar com Bruxelas o abate de grande parte da nossa frota pesqueira, parece agora ter descoberto o mar e os seus vastos recursos.
Ora, um algarvio, de Boliqueime, que só descobre o mar aos setentas anos, é porque tem andando muito distraído, e a mim irrita-me gente distraída! Irrita-me profundamente!!!

13/01/11

Razões para não apostar no Sr. Silva (II)



2ª Razão

 
Fazendo fé no que afirmou o Sr. Mendes, o pequeno comentador da TVI e colega do Sr. Silva, que parece saber mais sobre a rendibilidade dos seus (do Sr. Silva) investimentos do que o próprio, no preciso dia em que o Sr. Silva vendeu as acções que detinha na SLN por 2,40€ houve quem as vendesse a 2,61€. Sintomático...
Ora, sendo voz corrente que o Sr. Silva é um economista de nomeada, perder uma oportunidade desta para mim só tem uma explicação: incompetência!... E gente incompetente, irrita-me! Irrita-me profundamente!!!

12/01/11

Razões para não apostar no Sr. Silva (I)



Preâmbulo

A conselho da medicina convencional e das mais elementares regras de higiene oral e de sanidade mental, no último fim-de-semana desci ao Pulo do Lobo, ao Portugal profundo, para me recolher em retiro político-espiritual, transcendental, procurando nos sinais da mãe-natureza indícios que me revelassem a verdadeira dimensão do último mandato do Sr. Silva e das suas reais intenções quanto ao porvir.
Os sinais da mãe-natureza foram inequívocos e confrontaram-me com algumas boas razões para não apostar no candidato Sr. Silva, não só no que se refere à sua qualidade de promitente vendedor de amanhãs que cantam, mas também pelo seu desempenho no cargo de mais alto magistrado da nação que agora se avalia (ou deveria avaliar…).
Pesados os prós e os contras, contabilizadas as inevitáveis dissidências e as eventuais quebras de audiência, reiterando o meu compromisso e fidelidade para com a minha volúvel consciência, entendo que é meu dever partilhar com os restantes mortais essas (minhas) razões, ainda que mesquinhas ou frívolas, ainda que ridículas ou mesmo de tom negro. Mas não o faço com sentido de demover alguém a confiar a sua cruzinha ao Sr. Silva, mas apenas para fundamentar de forma desculpabilizante a minha embirração com um sujeito que consegue enfiar 170 gramas de Bolo-Rei na boca, de uma assentada, ao mesmo tempo que cita quase de cor a Constituição da República Portuguesa. Razões sobejamente fortes para explicar a incomodativa urticária que tal figura me provoca.


1ª Razão

Só a simples ideia de que não posso superar alguém, causa-me tremuras, irritação cutânea e uma aversão imediata a indivíduos que não ousam sequer admitir a minha eventual superioridade (moral, intelectual, ou mesmo reprodutiva, ou outra).
Ora, não estando nos meus planos ser expelido uma segunda vez por um qualquer útero, nunca poderei por isso almejar a ser mais sério do que o candidato Sr. Silva, e isso irrita-me! Irrita-me profundamente!!!


07/01/11

Micro-deuses





Deus quer, o Editorialista sonha, a obra nasce

Não, não é um dos lendários caderninhos Moleskine de um renomado vulto do pensamento ou das artes, mas tão-somente uma agenda Condor, baratuxa, de um aprendiz de feiticeiro que tem uma fantasia: quando for grande quer experimentar uma carreira nessa coisa da política. E já tem (boas) ideias, muitas (boas) ideias, aos magotes, como convém aliás a qualquer fala-barato com pinta de ideólogo equidistante e independente. Porém, o seu estado de hipnóide poder-lhe-á ser letal. Ou não. Ao ritmo a que os estados de alma se sucedem talvez ainda consiga convencer o esfalfado e desnorteado (e "inócuo") maire a levar por diante um dos mais extraordinários eventos que a humanidade ousou alguma vez sequer imaginar, só para fazer esquecer a desgraça da bienal dos artistas & companhia. «E que tal, se a par da “Semana dos Moldes”, organizássemos a “Semana do Riso”?». Quem sabe se não estará aqui a oportunidade de Colombo para dar projecção à cidade e uma saraivada no moribundo vidro, entronizando-a como a “Capital do Riso”, quem sabe…
Lá bons artistas da comédia, temos com fartura. Lá isso temos.


05/01/11

Magister Dixit



Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2011


Gostei de participar ontem num debate sobre as presidenciais na TVI-24, moderado pela Constança Cunha e Sá e com a participação de Santana Lopes e de Fernando Rosas. O tema BPN esteve presente, como não podia deixar de ser, mas não dominou o debate. Os intervenientes foram muito mais longe sobre o que devia ser a agenda desta campanha: que tipo de governo os candidatos patrocinariam no início, e no decurso, do respectivo mandato, que iniciativas os presidenciáveis tomariam perante a crise europeia e perante o tratamento negativo sistemático que os países do arco periférico daUE estão a receber,o que pensam dos projectos de revisão constitucional anunciados, que interpretação efectiva fazem dos poderes do PR, etc.

Publicada por josé medeiros ferreira em 10:48


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Nota de rodapé: vi o aludido debate e dei por muito bem empregue o meu tempo; finalmente alguém comentou o óbvio: esta "pré-campanha" está a ser tudo menos uma "pré-campanha" decente, para eleger um presidente decente - e não é por causa do BPN!... – é por causa do que não se tem discutido.
Ideologias à parte, esta foi a conclusão implícita de todos os intervenientes. Assino por baixo.


03/01/11

Coisas sem importância



Hoje fui-me aviar à “Comprativa” e as funcionárias desejaram-me um “bom ano”. A seguir fui às bombas da Galp meter gasolina e a funcionária desejou-me um “bom ano”. Depois, ainda na avenida, passei pelo banco e pela farmácia, e os respectivos funcionários também me desejaram um “bom ano”. Antes de ir para casa ainda passei nas Finanças, para pedir uma certidão, e fui novamente brindado com os desejos de um “bom ano”.
Por fim, cheguei a casa, carregado de votos de um “bom ano” e de uma valente enxaqueca, abri a carteira e confirmei que pouco sobrava. Passei os olhos pelo jornal do dia e, como habitualmente, só vi desgraças. Liguei a televisão para ver as notícias e senti-me desfalecer. A custo, alcancei do frigorífico uma garrafa de espumoso, esquecida do reveillon de 2004, abri-a e desejei ao meu Piruças um “bom ano”. O cão ladrou-me desconfiado e correu para o patim, ignorando o meu voto e o meu estado pré-comatoso. O espumoso não tinha gás e sabia a velho. C’uma porra, afinal de contas para que é que contamos os anos? Para renovarmos a esperança ou para nos auto-flagelarmos?
Há dias em que um gajo mais valia balir...


30/12/10

Liga dos Últimos





Depois de na véspera Defensor de Moura e Francisco Lopes, de forma absolutamente desinteressante (para ser português suave), terem passado o tempo a dar biqueiradas para o ar e a simular penalties e caneladas, sempre pensei que na quarta haveria derby. Pura ilusão…
É certo que em causa não estava muito - nem prestígio, nem pontos, nem tão pouco a taça - quanto muito, estaria a postura e o discurso, já que de ideias há muito que estamos conversados. Ainda supus que iria haver virilidade no limite, algumas tíbias ou perónios escalabardados, um ou outro sobrolho aberto ou até mesmo luxações ao nível da coluna. Ou até, quem sabe, jogadas de laboratório, dribles imprevisíveis ou mesmo tácticas surpreendentes - afinal de contas estavam frente-a-frente os únicos candidatos ao título, não é? “Não seria isso motivo suficiente para levarem a coisa um pouquinho mais a sério?” – pergunto eu?! Mal empregados o euro e meio que dei pelo bilhete, para ver mais um jogo das Liga dos Últimos. Mais valia ter bebido uma mini.


28/12/10

Tudo bons rapazes



Desde que o vizinho Inácio me atirou de chofre – “Ouve lá ó sabichão, afinal quem são «Os Mercados»”? – que sinto a vergonha da ignorância e do atrevimento pungirem-me o ego, uma espécie de angústia corrosiva e obcecante que tem provocado danos colaterais - insónias, fastio e um bloqueio inusitado da libido. “Mas afinal quem são esses tipos que  tenho insultado e zurzido com modos de fazer corar o Escabroso? Como é possível que eu, um fulano de educação esmerada, delicadamente moldada a pau de marmeleiro, ande a ultrajar a mãezinha de quem nem imagino o focinheira?”. Vergonha! Vergonha!
Mas hoje caraifos, hoje finalmente vou dormir sossegado e sair desta letargia que me tem tolhido membros e partes sensíveis, caraifos. É que o Sr. Silva, independente de me ter pregado um raspanete à conta dos insultos grátis - que se quilhe! - fez finalmente reluzir a estrela da sabedoria que parecia ter-se colapsado forever do meu mirrado encéfalo. Afinal, afinal esses misteriosos credores de face invisível, esses enigmáticos mecenas que apenas querem aquilo a que têm direito, são simples “companhias de seguros, fundos de pensões, fundos soberanos, bancos internacionais e os cidadãos espalhados por esse mundo fora”, tudo gente honrada e trabalhadora a carecer carinho e atenção, veneração, devoção, m-u-i-t-o m-i-m-i-n-h-o!, diria mesmo. Mas se o problema é esse, cá vai para acalmar os ditos: “Abençoados sejam os mercados, Hossana, Hossana!” - e já agora vejam lá se fazem uma atençãozinha à gente, t’á bem?

 E ao Sr. Silva o meu muito obrigado, agradecido pelos seus cuidados e por me ter resgatado do adiáfano manto da ignorância.

26/12/10

A magia do Natal


Esta foi uma das noites de consoada de melhor memória. Ao contrário de outras ocasiões, passei-a acompanhado. Na véspera, o meu amigo Fernando, de Picassinos, ofereceu-me um cachorro. Baptizei-o de Piruças em homenagem ao meu tio João, de boa memória. Brincámos a noite toda. Acordei madrugada dentro, sentado à lareira, com o Piruças enroscado no meu colo. Senti de novo a felicidade do puto de outros tempos.


22/12/10

Escolha Múltipla



Tão ou mais importante do que uma boa governança, é uma boa e franca oposição. Não por se tratar de um contra-poder, mas por acrescentar um elemento de consciência crítica ao processo. Não por desvirtuar o projecto mais sufragado, mas por acrescentar valor, naquilo que são os traços fundamentais das opções maioritárias. Em política, escolher é a palavra-chave, executar é a trave-mestra e avaliar a todo o momento é a garantia quanto à correcção do tiro. Raramente a conjugação dos astros faz reunir, simultaneamente, debaixo do arco da democracia, um governo e uma oposição assépticos, e estas três elementares premissas. C’est la vie…


Amanhã vão ser discutidas e votadas na Assembleia Municipal, entre outros, as Grandes Opções do Plano e a Proposta de Orçamento para 2011, coisas de somenos importância ou  relevância que justifique figurarem como “Destaque”, “Notícias” ou “Informações” no portal da nossa edilidade (isto já para não falar na publicação dos próprios documentos a discutir, pois isso seria pedir o céu). Felizmente que alguma da “geração rasca” não acha o mesmo e faz questão de publicar, sistematicamente, a ordem de trabalhos das assembleias municipais, e outras coisas mais. Agradecido.
Para mim, que sou um sexagenário semi-robusto, com um modesto pé-de-meia coçado no calcanhar, sem descendência ou encargos pós-nupciais, aprovar o orçamento e as grandes opções do plano é uma tarefa assaz simples. Entre o comer e o vestir escolho o Dão, entre a farmácia e a tinturaria escolho o Douro, entre o sofá e a cama escolho o fumeiro, entre os vícios escolho os livros, e o que sobrar vai para a Lurdes Rata me passar o corredor a pano e para atestar o depósito do Ford Capri. Recordo a este propósito dos orçamentos (e das escolhas!), um assertivo e proverbial bitaite que li em tempos no Largo das Calhandreiras, onde o Sr. Vinagrete (suponho eu) expunha, traços largos e por comparação, aquilo que se passava num orçamento familiar com aquilo que era suposto passar-se nos orçamentos da coisa pública. No fundo, tudo se resumia a opções, tendo em conta um denominador comum, o bem estar de todos, procurando antecipar e garantir o futuro, e tudo isto enformado numa determinada perspectiva de vida e de valores - aquilo a que os mais afoitos vulgarmente designam por esse nome feio de: “estratégia”. Estão a ver o alcance da coisa, não estão?!
Mas se este meu “incómodo” em relação à discussão e votação de instrumentos políticos essenciais, tem fundamento no alheamento habitual dos cidadãos em geral, mais apreensivo fico quando ele é induzido, por exemplo, pelo incumprimento de promessas eleitorais (onde está o famoso orçamento participativo?), ou pela falta de rigor com que se discutem estas coisas. Atente-se na declaração de voto de um vereador da oposição, para justificar o seu aval aos documentos em questão.
Não, não foi “A las Cinco de la Tarde”, como Garcia Lorca, mas meia-hora depois. Eram cinco e meia da tarde quando o Dr. Santos entrou no gabinete do Senhor Presidente, para apresentar quatro propostas para o orçamento de 2011, sendo a correspondente aceitação condicionadora do seu sentido de voto. As propostas terão sido aceites e a notícia foi recebida com “algum gáudio”. Compreende-se…
Não vou para já discutir a bondade, o mérito ou a oportunidade das medidas apresentadas, se bem que a do ecoponto gigante, aparentemente risível, parece encerrar  uma mensagem subliminar ou coisa que o valha - parece-me haver ali uma metáforazinha reciclatória que não é de todo inocente.
Porém, aquilo que mais confusão me faz é a medida um-ou-outro-ou-as-duas-de-preferência. Piscina ou mercado, mercado ou piscina, pim-pam-pum cada bola mata um e as duas é que era o bonito.
Confesso-me aturdido com este tipo de raciocínio e, sobretudo, por ele ser aparentemente aceite de forma… ligeira. Ou um, ou outro. Ou os dois. Mas será que no quadro de um conjunto de opções que têm de ser tomadas, tendo em vista um determinado modelo de desenvolvimento, e face à escassez de recursos, optar pela construção de uma piscina ou de um mercado é a mesmíssima coisa? Ou será que basta que uma delas se cumpra para que o Sr. Vereador se encha de gáudio, ao ponto de sentir a tranquilidade do dever cumprido?
Sinceramente, siceramente, se calhar sou eu que estou a complicar e que penso demais nesta minudências. Olha, agora é que foi, cravou-se-me uma dor de cabeça que até estou agoniado. Alguém me arranja uma Aspirina ou um Guronsan? Ou os dois? - Já ficava aliviado...

 

19/12/10

Teorema de Poincaré


A voracidade e o pretensiosismo que a classe política demonstra por inaugurações e outras formas mediáticas de bajulação colectiva, é inversamente proporcional à apetência que revelam para a tempestiva resolução dos problemas mais simples.

Isto não é má vontade, é matemática pura. Afinal de contas o que é que foi feito assim de tão extraordinário que mereça o voo picado de uma passara, para deleite de um bando de pardais? Dir-me-ão que “faz parte do folclore tradicional e que deve ser contextualizado no plano do simbólico”. Pois, está bem, só que eu não sou muito dado a rituais messiânicos. Também estou no meu direito, não é? Ou será que cumprirmos com as nossas obrigações nos eleva à categoria de arcanjos?